sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Como falar dos livros que não lemos, Pierre Bayard

“O bom leitor procede a uma travessia dos livros e sabe que cada um deles é portador de uma parte de si mesmo que lhe pode abrir um caminho, se ele tiver a sabedoria de nele não se deter.” (p. 151)

Enquanto bibliotecária, e no âmbito das minhas diversas funções, é-me regularmente solicitada informações, sugestões ou opiniões sobre livros e autores que não li. Há vários anos que tenho uma postura pragmática sobre a leitura: não me sendo possível ler tudo o que seria necessário e/ou desejável, só tenho que assumir e, se relevante, explicar os meus critérios de selecção de leituras.
Quando deparei com este título, fiquei curiosa. Afinal, aborda um tema que acaba por ser um pouco tabu, mas sentido por todos os profissionais (e amadores) do livro. A minha curiosidade prendia-se, sobretudo, sobre se o autor me apresentaria uma eventual perspectiva diferente daquela que ao longo dos anos, enquanto leitora, fui desenvolvendo.
No prólogo do livro, o autor aborda a questão – ainda actual – da sacralização do livro e da leitura, o que faz com que ainda persista em muitos leitores um sentimento de obrigação de ler, determinados livros e autores, sobretudo considerados canónicos, e de ler tudo, até ao fim, bem como de ter um discurso sobre os mesmos. Com o objectivo de desmitificar esta obrigatoriedade, o autor divide o livro em três partes: os modos de não ler; situações em que temos de falar de livros; e condutas a ter.
Na primeira parte, a situação que mais me despertou a atenção, porque ultimamente tenho sentido mais o seu efeito, é a dos livros que lemos, mas esquecemos. Poderão, então, ser considerados livros lidos? Somente para um efeito de registo quantitativo, porque se quisermos ser honestos aquele livro, que se perdeu em nós, já não é lido. Já sobre as situações em que temos de falar sobre livros, para mim, acaba por ser uma questão quotidiana, como já atrás referi. Por isso, acima de tudo: sinceridade sobre as leituras e os modos de leitura efectuados, porque pior do admitir que não lemos ou não conhecemos determinado autor, é sermos apanhados nessa mentira. Isso descredibiliza o nosso trabalho. E este ponto entra já em ligação com a parte referente às condutas ou modos de agir. Não há que ter qualquer tipo de vergonha ou embaraço. Se não há possibilidade de ler tudo e se tivermos a sorte de já ter encontrado a nossa “praia” literária, e ter a consciência que esta se pode alterar com o tempo, então para quê complicar? Não vale a pena.
Este é um livro interessante. Sobretudo para que tem ainda algum tipo de pruridos ou vergonhas sobre o seu percurso leitor. Mesmo que as ideias defendidas não sejam exactamente novas, poderão ter sempre a benesse de apaziguar alguns receios.

Tradução: Maria Amaral & Sílvia Sacadura | Editora: Verso da Kapa | Local: Lisboa | Edição/Ano: 3ª, Março 2008 | Impressão: Tipografia Lousanense | Págs.: ... | Capa: Break the Line | ISBN: 978-972-8974-45-9 | DL: 269837/08 | Localização: BLX DMF 028/BAY (80248469)

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