sábado, 14 de outubro de 2017

but, aren't we replicants, after all?
aren´t we sheep chasing electronic crumbs
of false affection, of false happiness?
We live fake lives as we struggle through foggy days
of uncertain future
we perpetuate ourselves in empty, mindless jobs
we pay the mortgages we were stupid enough to take in
sharing nights with aperson we no longer recon (if we ever did)
raising kids hoping for tax return or elderly support.
Yes, we are just mere replicants of a social order
that doesn't give a damn for us. 

The Mad Hatter

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Gods, mutants, jedis
masters or slaves of a bothering immortallity
playng with foolish human hearts
hoping to haste an end
fighting against each other

or fading to our disbelief

Hengki Koentjoro

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

No teu poema, Ary dos Santos

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.

Jungho Lee

sábado, 7 de outubro de 2017

Lideranças institucionais e estados de graça

As instituições são marcadas por lideranças passageiras e engane-se quem pensa o contrário. Mesmo que os seus atores pretendam alonga-la o mais possível no tempo, esta nunca deixa de ser passageira. E os raros casos de longevidade devem-se muitas vezes nem sempre à competência, mas há falta de alternativas.
Uma outra característica destas lideranças é o iniciático estado de graça. Mais ou menos breve, mas nunca duradouro. E é raro o caso em que se sai de funções neste estado. Regra geral sai-se em desgraça.
O que, regra geral, muitos não entendem, ou fingem não entender, é que há lideranças que têm poucas hipóteses de qualquer momento de graça sequer. Estão, apesar, não direi da competência, mas de qualquer esforço ou vontade, fadadas ao aparente falhanço. Como em tudo na vida, nem sempre somos ineptos, mas as circunstâncias negativas e/ou opressivas, cuja duração é indeterminada, conferem uma apreciação negativa dessa liderança. Mas esses líderes têm afinal algum mérito: o de garantir a própria continuidade, por vezes legal, dessas instituições. Porque, quando as conjunturas são favoráveis, não falta quem queira assumir a liderança. Quando não são, todos olham de lado, assobiam e afastam a água do capote.
É fácil apontar culpas. Sim, é mesmo muito fácil. O difícil é ter a hombridade de respeitar quem assumiu o papel inglório de liderar quando o mais que se poder fazer é manter o barco à tona. Quando a maré muda, lá estão os dedos a apontar o mau estado do barco. Mas se este não afundou a alguém se deve. E esse esforço raramente é reconhecido, porque esse reconhecimento implica que assumir que quem rodeia o líder também não esteve há altura do desafio. 

Ruminant Reserve

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Meredith & I

Começou esta semana, num canal de cabo, a 14ª temporada de A Anatomia de Grey, que acompanha as desventuras da cirurgiã Meredith Grey num hospital de Seattle. E dei por mim a contabilizar que esta série tem acompanhado a maior parte da minha vida adulta. Então, é razoável ponderar se esta contribuiu de algum modo para o meu crescimento.
Uma das catch phrases utilizada na publicidade da série diz algo como: sou a melhor pessoa para te ajudar, porque, provavelmente, não há nada que já não tenha visto. Embora inverosimilhantemente, esta personagem já sobreviveu a uma tentativa de suicídio, à relação obsessivo-depressiva com a mãe e o seu diagnóstico com Alzeimer, um acidente de aviação,à morte da irmã mais nova, ao aparecimento de uma nova irmã, um relacionamento conturbado e uma ex-mulher, uma adopção, mais dois filhos, uma viuvez, um ataque de violência física... e a um grupo de amigos a quem aconteceu o que não lhe aconteceu a ela.
Em 13, 14 anos também muito mudou na minha vida. Descobri muito sobre mim, embora nem sempre tenha gostado do resultado. Descobri-me mulher, com forças e fragilidades. Situações que julgava permanentes e inalteráveis, e que até julguei durante muito tempo de marasmo, reverteram-se irremediavelmente. Perdi bens materiais e perdi pessoas. Os primeiros aprendi a superar. Quanto às pessoas, bem, tenho apenas a dizer que há lutos que perduram uma vida inteira. A verdade é que passei vários anos num continuo processo de luto de perspetivas de futuro e daqueles que eram, e continuam, a ser queridos.
E quem me acompanhou? A família, os amigos e, por mais estúpido ou ridículo que possa parecer, Meredith Grey. Olhando para trás, mesmo apesar de todas as incredulidades de uma série com 14 temporadas, com as quais ri, a verdade é que os episódios que me fizeram chorar foram a catarse e o escape necessário a muitos momentos de tristeza e de impotência perante as circunstâncias.
As reflexões iniciais e finais de cada episódio fizeram com que o antes e o depois, a acção e a consequência fossem mais fáceis de aceitar. Esta personagem passou por imensas transformações, sofreu, sobreviveu e voltou a encontrar a felicidade. Uma felicidade diferente, uma aceitação diferente. Esta mulher, e em momento algum podemos esquecer que estamos a falar de mulheres, é uma sobrevivente. Nós mulheres somos sobreviventes e se há algo que nos caracteriza é essa capacidade inata de resiliência. E é essa resiliência que que alguns episódios, através de inumeras lágrimas derramadas e muitos sentimentos contraditórios, me ajudaram a encontrar. E é isto, Meredith acompanha-me há 14 temporadas. E eu continuarei a acompanha-la durante tantas temporadas quantas me fizer sentido continuar a seguir e a encontrar nas suas desventuras o consolo ou o animo para seguir em frente. 
Título Original: Grey's Anatomy | Ano: 2017 | Temporada: 14 | Criadores: Shonda Rhimes | Elenco: Ellen PompeoJustin ChambersChandra Wilson, James Pickens Jr., Kevin McKidd, Jessica Capshaw, Jesse Williams, Sarah Drew, Camilla Luddington, Jason George, Caterina Scorsone

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O dia cinzento e outros contos, Mário Dionísio

Esta foi a minha primeira incursão na escrita deste autor, cuja obra polifacetada está na origem de um grande dinamismo cultural, não só através da análise que suscita, mas também pela actividade da Casa da Achada.
Esta leitura foi uma grata surpresa. Mas, o que há a dizer sobre este livro? Tanto, poderemos dizer. Mas a verdade é que pouco se pode acrescentar ao que o próprio autor já nos diz no seu prefácio para a reedição de 1977. Segundo este, o objectivo da sua escrita é “acordar naqueles que o lessem a consciência da injustiça social e a necessidade de agirem contra ela.”; “o fito era contribuir … para a transformação do mundo.” (p. 11) E como é que o pretende fazer? Mostrando “o lado de dentro das pessoas, isto é, que um certo conceito superficial da luta de classes tendia a reduzir a fórmulas estereotipadas…” (p. 15)
A escrita de Dionísio é profundamente marcada pela ideologia política, mas isso não significa a adopção de um discurso maniqueísta. Aliás, as suas personagens espelham humildemente as dúvidas e receios que as suas escolham implicam, porque isso significa deixar para trás perspectivas de vida e pessoas. O que nem sempre se revela fácil ou simples: “Era preciso que esse mundo e esse destino, esse sonho, pesassem mais do que a ternura daquela boa rapariga.” (p. 94); “planos de quem resolveu escolher, em cada caso, a situação menos confortável porque qualquer outra se lhe afigura fruto da injustiça.” (p. 198)
Situado cronologicamente, e pelos seus críticos, na corrente do neo-realismo, o próprio autor explica o que há de diferente na sua escrita: “a fase inicial do neo-realismo está cheia de campo e camponeses ou dos meios que, mais ou menos directamente, a eles se ligavam: a aldeia, a a vila, a cidade de província.” Mas não é nestas gentes e locais que o autor vai buscar a sua matéria prima, porque “ havia a cidade, a grande cidade, a descobrir também.” (p. 14)
A sua escrita é de aparente simplicidade, simultaneamente reconfortante e aliciante, consonante com o tipo de homem que a sua escrita quer retratar: um homem sem artifícios, disposto a sacrifícios por um ideal, mas sem deixar de avançar indelevelmente.
“Às vezes as coisas mudam, … Pequenas mudanças que nos dão força para grandes mudanças.” (p. 111)

Editora: Europa-América | Colecção: Livros de Bolsos (nº 182) | Local: Mem Martins | Edição/Ano: 4ª, Maio 2011 | Págs.: 214 | ISBN: 978-972-102801-1 | DL: 327726/11 | Localização: BLX SL 82P-34/DIO (80304531)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Clube dos poetas vivos #4

Katerina Kamprani
Matéria inútil
o pé a encravar a unha
não vás, fica
não me deixes
julgamos que o pé vai
mas fica
ela sim, ela vai
corta com a raiz
segue para o mundo
perde-se em recantos
de lixo e tesouro
vírgula solta virgula no estômago
vírgula certa, vírgula errada
vírgula que tudo muda
e eu a querer desvirgular
a vírgulação que me colocaste
amontoada no coração
saltito mas não não voo

ecoando o vazio abarrotado de enumerações que não me acrescentaste

sábado, 30 de setembro de 2017

Leituras nos Transportes Públicos #17.09

SETEMBRO
3
6
A catedral do Mar, Ildefonso Falcones

Só nós dois, Nicholas Sparks

Ave de Mau Agoiro, Camila Lackberg

Vindima, Miguel Torga
7
Metro 2033, Dmitry Glukhovsky

A conspiração, Dan Brown

8
The seasons of life, Jim Rohn

A terra das ameixas verdes, Herta Müller

O principio de Dilbert, Scott Adams 

O Maçon de Viena, José Braga Gonçalves 
9
Índice médio de felicidade, David Machado
10
11
O castelo de vidro
12
O deslumbre de Cecilia Fluss, João tordo
13
Escrito na água, Paula Hawkins

O evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago

Espero por ti, Jennifer Armentrout 
14
Caminhos Sombrios, Sandra Brown
16
18
O ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago
19
Mister Gregory, Sveva Casati Modignani 
20
Círculo Matarese, robert Ludlum

As palavras que nunca te direi, Nicholas Sparks

Flor de basalto, Madalena Brito Neves 
21
Três contos da índia, Rudiard Kipling

Memoirs of a geisha, Arthur Golden
22
Tudo o que pensar, pense ao contrário, Paul Arden

O Deus das pequenas coisas, Arundhati Roy

Foco, Daniel Goleman
25
O Pianista, José Rodrigues de Carvalho

A Sexta Extinção, James Rollins
26
A morbid taste for bonés, Ellis Peters 

O luto de Elias Gro, João Tordo
29
Obras completas, Juan Rulfo

As Palavras Caladas, Pedro Miguel Lamet

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Eu não quero uma área reservada a mulheres nos transportes públicos

Ruminant Reserve
Parece (não, não fui confirmar) que há uma candidata autárquica que propõe a existência de áreas reservadas a mulheres nos transportes públicos, como forma de impedir o assédio sexual. O que é que eu tenho a dizer sobre o assunto? Esta é uma forma demagogo-pateta de resolver uma situação que, é verdade, incomoda muitas mulheres. Mas, como para muitas outras situações sociais, a solução não é simples, única e rápida. E esta é uma não solução. Porque não resolve o problema nas suas origens. 
Então, o que pode ser feito? Primeiro, andar de transportes públicos, que, regra-geral, é algo que os decisores e dirigentes políticos e públicos não fazem. Depois, perceber, de uma vez por todas, que as medidas preventivas de segurança a implementar não são para bem das mulheres, são para bem de homens, crianças e idosos. Aliás, até acho (tenho a certeza) que a CRP proíbe este tipo de tratamento desigual entre os seus cidadãos. E realmente acham que é boa ideia reincidir em qualquer tipo de segregação?
Estas são algumas ideias do que poderá ser feito para melhorar a vida de TOD@S os utilizadores de transportes públicos:
·         Garantir transportes numa periodicidade que impeça que os seus utilizadores tenha de esperar grandes períodos de tempo em locais isolados, não vigiados e sem qualquer iluminação pública;
·         Garantir que qualquer paragem de autocarro esteja devidamente iluminada e junto de qualquer tipo de casario ou zona empresarial, que permita uma maior prontidão de socorro;
·         Garantir que há horários afixados em todas as paragens, de modo a que, previamente, se possa programar a ida e a vinda da mesma:
·         Garantir que os acessos pedonais às paragens e estações são igualmente iluminados e, se possível, com passagem de rondas policiais ou de segurança privada;
·         Apostar na educação para a cidadania, para que algumas pessoas, devido à sua pequenez intelectual, percebam que a força não é a única forma de abordar uma mulher ou homem ou sénior ou criança;
·         Educar para cidadania de modo a que, perante uma situação explicita ou até duvidosa, ninguém hesite a agir em apoio de um outro alguém.

Como veem, há muito a fazer para que TOD@S se sintam seguros nos transportes públicos. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

AGORA TAMBÉM SOU ÁGUA

Foto de Ana Lázaro.

Em palco, um jovem homem vai gradualmente revelando-nos a sua vida de sonhador. Sonhador que quer voar no céu através da dança. Sonhador que, oriundo de um bairro social, tem de romper com a pressão dos gangues, o cansaço do trabalho braçal para sustentar a família, a incompreensão da família. Sonhador que vence as expectativas e cumpre o sonho. Sonhador que se transforma em água, o estado líquido que o seu corpo assume quando a dança toma conta de si.
Na sequência de um convite inesperado, este espetáculo, passe a redundância, foi uma surpresa surpreendente. Pela maturidade, sensibilidade e poesia do texto de Ana Lázaro (cujo trabalho vou a partir deste momento seguir) e pela magnifica interpretação (de corpo e alma) de Rafael Proyas Barreto. Sinto-me previligiada por ter assistido a este pequeno segredo e questiono-me quantos espectáculos desta qualidade passam despercebidos, à margem de outras mediatizações.
Parabéns igualmente à produção do #muscarium por ter partilhado este trabalho.  


Texto & Encenação: Ana Lázaro | Interpretação: Rafael Proyas Barreto / Inocêncio Gonçalves (filme)  | Luz: H.c. FrancoCriação: 'dobrar

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Como a leitura influenciou a minha escrita

Sally Nixon
A minha prática de escrita teve início na adolescência, com qualquer coisa parecida com um diário. Cedo, a descrição do quotidiano per si me desinteressou. Mas a escrita, como forma de me organizar mentalmente e de me perceber, ficou como hábito enraizado. Ainda mais do que a leitura. Creio até que a leitura veio como forma de (me) saber escrever melhor.
Numa primeira fase, o resultado da escrita era privado. Só com o advento da internet e dos blogues é que a escrita se tornou pública e isso sempre influi o modo como escrevo. Sempre almejei uma escrita clara e acessível e, se possível, concisa. Algo que resultou também de uma curta, mas marcante, experiência redatorial.
Hoje, além do processo de organização mental, encontro na escrita o espaço para exprimir a minha (in)compreensão do mundo e uma forma de partilhar (o pouco ou o nada) que tenho aprendido. Além disso, aquilo que decido partilhar tem uma visibilidade acrescida. E a noção dessa visibilidade e eventual impacto trouxe outra noção de responsabilidade sobre o que opto por partilhar.
Essa responsabilidade passa pelo respeito pelas “fontes”. Não que me dedique a citações ou a reproduções apuradas das leituras que faço. Procuro, sem omitir a origem das minhas reflexões, fazer uma síntese pessoal e transmissível, reflectindo sobre diversos pontos de vista e, sempre que possível, contribuindo para uma conciliação. Embora na maioria das situações sinta, sobretudo, dúvida, dúvida, dúvida. Ou seja, exprimimo-nos à luz do que sabemos no momento e, quase sempre, a nossa perspectiva tem limitações.

Também sinto uma apreensão que há alguns anos não tinha. Sinto que alguns dos meus escritos são demasiado impulsivos e imponderados para partilhar e que não acrescentam nada a ninguém. Ou seja, o que escrevemos pode ser uma excelente ideia mas enquanto não atingir determinado grau de maturação é preferível ficar connosco. A seu tempo, se se justificar, há de ver a luz do dia. E esse dia também chega, porque também é certo que ganhei outra segurança e outra maturidade no modo como escrevo. E é com a tranquilidade do percurso feito até ao momento que vos deixo estas linhas de balanço de cerca de 13 anos de blogosfera e mais de 25 de divagações pessoais. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Amadora em Festa: Festa do Livro 2017

No passado fim-de-semana, assisti a diversos dos encontros promovidos pela Câmara Municipal da Amadora, no âmbito do Amadora em Festa, e, em especial, da sua Festa do Livro. Estes decorreram na Biblioteca Piteira dos Santos, desde há uns meses o meu local de “trabalho” de eleição para as minhas folgas quinzenais de 2ª-feira, e numa tenda, colocada no exterior, sobretudo para as actividades fora de horas, o que na 6ª-feira se revelou como um desafio climatérico. Mas vamos ao que interessa (pelo menos para mim), as minhas impressões sobre os encontros:
·         As bibliotecas hoje. Só apanhei a parte final e valeu pela última participação do público: uma técnica da biblioteca que deu o seu testemunho de como a sua experiência profissional transformou a sua relação com o livro que passa pelo desapego pessoal pelo objecto e da necessidade de o dessacralizar perante o público, não sendo possível fazer qualquer promoção do livro e da leitura sem esse entendimento. São opiniões que partilho piamente. Quanto ao restante debate, a minha questão é: porque é todos gostam de debater o tema da bibliotecas mas nunca há um técnico das mesmas no painel de debate para poder também transmitir ambições, dúvidas e constrangimentos no seu serviço público.
·         Literatura, Artes e Suburbanidade. O debate pareceu-me destruturado, embora tenha gostado muito de ouvir os intervenientes, porque deu a impressão que havia uma confusão de conceitos. Acredito que não tenha havido uma preparação prévia no sentido de acordar alguns temas ou orientações a explorar. No entanto, deu-me alguns tópicos de reflexão posterior.
·         Poesia e Música com Tiago Gomes e FLAK. Foi um registo interessante, ao qual não estou habituada, mas a que tenho de prestar mais atenção.
·         Crónicas do Riso ou talvez do choro. Dada a afluência, e o meu atraso, fiquei fora da tenda e não me foi possível ouvir nas melhores condições. Para mim, e do pouco a que assisti, Ana Sousa Dias fez a melhor mediação do evento. RAP é sempre um exemplo de como o humor é inteligente e Rui Cardoso Martins, cujo o trabalho ainda não conheci (shame on me), deixou-me ainda mais curiosa conhecer.

·         Jantar Literário. Foi interessante jantar no espaço da biblioteca e passei o tempo todo a pensar que só faltava alguém inadvertidamente, encontrar um corpo na biblioteca… O jantar em si, confeccionado pela equipa dos refeitórios da Câmara, estava óptimo. Os meus parabéns. Quanto aos dinamizadores, André Gago pontuou o jantar com a declamação de poemas sobre alimentação, gastronomia e convivo à mesa. Já Carlos Vaz Marques não fez mais do que abrir e encerrar as hostes. Valeu a companhia amadorense. 

sábado, 16 de setembro de 2017

Dom Casmurro, Machado de Assis

Há muito que esta leitura era devida. Primeiro, iniciei-a há cerca de 2 anos, mas interrompi. Depois, li Os Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, um policial em jeito de homenagem literária a Machado de Assis e à Academia Brasileira de Letras. Pelo meio, sempre a encontrar referências constantes à sua obra que contribuem para a minha percepção de que Assis está para o Brasil como Camões e Pessoa estão para Portugal.
Os dois elementos distintivos deste livro são a mestria na utilização do humor, ora mais subtil, ora mais cáustico, mas sempre eficaz, que transformam o que poderia ser mais um drama inócuo na obra de renome que é. O segundo é o diálogo constante com o leitor, que afasta o narrador de registo tradicional para o coloquial do contador de histórias, que por acaso, neste caso, é a sua.
Depois, há Capitu, personagem que, com os seus olhos oblíquos e dissimulados de ressaca, ombreia com as grandes heroínas da literatura, como Ana Karenina, madame Bovary, Salomé, entre outras. Uma personagem que aos 14 anos é já mulher, ciente do seu papel na sociedade mas, sobretudo, ciente das suas possibilidades. Não necessariamente uma mulher calculista, mas pragmática ao ponto de saber que a(s) possibilidade(s) de um bom casamento, sendo parca(s), não pode descartar a mais óbvia e igualmente a mais simples: Bentinho. O juntar o útil ao agradável.
Já Bentinho é um menino ingénuo e imaturo e continuará a sê-lo mesmo na idade adulta, dependendo sempre da orientação da mãe, da família, de Capitu e de Escobar na resolução dos seus problemas e desafios. Até ao momento em que o desafio e a desconfiança vêm exactamente destes dois últimos e se materializa nas parecença física de Ezequiel, seu filho, com o seu melhor amigo Escobar. Mas será Capitu realmente adultera ou Bentinho apenas homem insuficiente, deixando que a dúvida o mine por completo. Certo é que Capitu é mais mulher do que Bentinho será homem e perante o confronto não cede nem hesita um milímetro que seja perante a desconfiança (como sempre). E o que faz Bentinho com isso? É incapaz de aceitar a putativa traição e impõe a separação, renegando todos os anos de felicidade, todo o orgulho (e vantagem) nas capacidades domésticas e de gestão de Capitu, e todo o amor de Ezequiel, incapaz de compreender a separação. Desde modo, vota todos a uma eventual infelicidade, embora o afastamento não lhe permite sequer nem demonstrar qualquer interesse ou sequer saber da eventual felicidade dos outros.
Esta acaba por ser uma história intemporal: a do homem que, consumido pelo ciúme, é incapaz de a falha no outro ou como se ele fosse um ser superior e que qualquer falha perante ele tenha de ser punida. E, tal como na vida, todos os personagens acabam por morrer, e tal como na vida, poderiam ter sido felizes até que a morte os separasse, se soubessem a arte do perdão e da aceitação.


P.S. No entusiasmo de escrever esta minha compreensão pessoal sobre esta obra, sobre a qual haveria, com certeza, muito mais a escrever, não posso deixar de agradecer as palavras trocadas com Sandra Raposo Tenório e Teresa Alves Martins, cujas opiniões são em muito consonantes.

Editora: BYs (Leya) | Local: Alfragide | Edição/Ano: 2ª, Set 2013 | Impressão: BlackPrint | Págs.: 318 | Capa: Rui Garrido | ISBN: 978-989-660-235-2 | DL: 351481/12 | Localização: BLX COR ROM  ROM-EST  ASS (80356414)