segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sou composta por urgências, Clarice Lispetor

Sou composta por urgências: 
minhas alegrias são intensas; 
minhas tristezas, absolutas. 
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos. 
Eu não caibo no estreito, 
eu só vivo nos extremos.

Pouco não me serve, 
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte! 

Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente...
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.

Suponho que me entender 
não é uma questão de inteligência 
e sim de sentir, 
de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.

Lying by the rags, Lucien Freud (1990)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Entre o céu e o chão, Nuno Camarneiro constrói modernas torres de babel para ensaiar o voo dos pássaros

Ainda a reflectir sobre a escrita de Nuno Camarneiro, denoto algumas imagens recorrentes, o que me suscita algumas divagações.
O céu nunca é divino, tal como debaixo do chão não existe qualquer inferno. O chão é o quotidiano pelo qual o homem percorrer os seus dias e o amparo possível dos seus sonhos. Sonhos de ascender ao céu, não maiúsculo, mas que acolhe o voo.
Os pardais sãos os pássaros de eleição. Ensaiam o voo, mas não chegam mais além do que as suas pequenas asas permitem. Por isso, desde sempre, o homem desenha edifícios que o levem o mais alto possível e assim sentir o vento e o horizonte imenso. Nessa construção juntam-se várias linguagens, entre as quais a dos números que unem e ordenam, peças, materiais e o sentido da ascensão. Exosqueletos orgânicos, extensões do corpo que colmatam a sua notória falta de estrutura.  
A babel de qualquer grande metrópole onde se confundem vozes de passados e futuros, escuros medos e luminosa esperança. Num tempo, ora definido, ora pessoal, ora observado, ora sentido, sempre entrelaçado e indissociável.  
Daniel Rueda & Anna Devis

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Nuno Camarneiro: em rigor da escrita

Um recente desafio profissional levou-me à leitura da obra de Nuno Camarneiro. Dessa leitura saltou-me à vista algumas características que demorei a conseguir sintetizar numa expressão ou palavra. E, ainda assim, não me parece a mais adequada, apenas a que, na minha insuficiência leitora, mais se aproxima. A palavra é rigor.
Primeiro, há um rigor formal. Atenção, não confundir com rigidez. Não. O rigor passa pelo respeito inequívoco pela opção formal escolhida para cada narrativa, seja o hotel de Se eu fosse chão, seja o prédio de Debaixo de Algum Céu. E esta breve reflexão centra-se apenas nestes dois textos.
O que me chamou a atenção foi como nestes dois textos as estruturas físicas dos edifícios são o elemento organizador da prosa, num rigor de fazer inveja a muitos engenheiros e arquitectos. O que advém, provavelmente, da formação cientifica do autor.
Há uma construção – diria que uma grelha de contornos bem definidos – que o autor vai recheando de pormenores e histórias vividos por personagens, na sua maioria quotidianas, com as quais é fácil identificarmos-nos. E embora possamos pensar que, ao definir a priori as características das células dessa grelha, o seu resultado seja monótono, desenganemos-nos.
Deixem-me tornar-vos mais explicita esta minha leitura. Este é o modo como visualizo as duas narrativas:
Hotel Avenida Palace
(Se eu fosse Chão)
2015
301
302
303
304
305
306
307
308
309
310
311
312
313
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315
316
317
Área de Serviço
1956
201
202
203
204
205
206
207
208
209
210
211
212
213
214
215
216
217
1928
101
102
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110
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114
115
116
117
Átrio / Recepção

(Debaixo de) Algum céu
Horizonte
3º Esq.
3º Dtº
2º Esq.
2º Dtº
1º Esq.
1º Dtº
Mar
R/c Esq.
R/c Dtº
Praia
c/v
c/v

A partir desta organização formal, o autor – como já afirmei – recheia cada célula destas grelhas com personagens que pretendem comprovar premissas muito especificas que o autor nos apresenta no início de cada narrativa. Cá está, mais uma vez, o rigor cientifico como matriz subjacente. E quais são essas premissas?
“Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. (…) Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente.
Esta é uma história de portas dentro.” (Debaixo de Algum céu)
“Um quarto fechado é sempre uma história por contar, enquanto não o abrirem, cada um há-de ter a sua.” (Se eu fosse chão)
Se as premissas se verificam no final da observação, cabe ao leitor a sua avaliação. Já ao(s) narrador(es) cabe a presentação, o mais fiel possível, daquilo que lhes é dado ver, sem, no entanto, interferir no que observa. Idealmente. Porque também aos personagens é dada voz. Uma voz testemunha, uma voz que nos permite perceber um pouco mais a personagem que nos é apresentada. Apenas um pouco. O suficiente para que se corporizem na nossa mente. Para que deixem de ser linhas e passem a entidades reais.
A conclusão a que chego é que a obra de Nuno Camarneiro é dotada de diversas camadas. Algumas de fácil identificação, outras que percebemos existir, mas que não conseguimos apreender o alcance. Por isso, é uma obra que se presta a várias (re)leituras. Por agora, fica esta. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Projectos para 2018

Ao ponderar projectos para 2018, não penso sequer muito pelo ano dentro. Só em Janeiro, vão ter início vários desafios, alguns inesperados, mas acredito serem fruto do meu trabalho e empenho regulares. A verdade é que ainda estou um pouco surpresa, mas extremamente motivada. Então vejamos:
13 de Janeiro: Escrita em dia
Este novo projecto da rede de bibliotecas de Lisboa, vai levar mensalmente um escritor a uma biblioteca do município. Estarei presente nas sessões, sob o desafio e confiança de colegas para moderar os encontros.
16 de Janeiro: Português para Estrangeiros (6º ciclo)
Terá início um novo ciclo de sessões com novos participantes. Há também a vontade de aumentar a oferta de opções nesta área e, para tal, vão ter início algumas reuniões de trabalho.
18 de Janeiro> 22 de Março: Workshop de Escrita Criativa, na Hemeroteca
Vou estar neste workshop como participante e aumentar a minha experiência nesta área, que é uma vontade antiga que vai dar exactamente os primeiros passos também este mês.
Cá está, o primeiro passo de uma vontade antiga.
31 de Janeiro: Comunidade de Leitores da biblioteca da Penha de França
A continuidade de um projecto com que cresço a cada leitura e a cada partilha.
31 de Janeiro Clarice Lispector Laços de Família
28 de Fevereiro David Mourão Ferreira Gaivotas em terra
28 de Março Teolinda Gersão A cidade de Ulisses
18 de Abril (25=F) Hélia Correia A casa Eterna
30 de Maio Possidónio Cachapa O mar por cima
27 de Junho Gonçalo m. Tavares Aprender a rezar na era da técnica


Quanto ao resto ano, let it come, let it come

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro

O amor não é fácil em nenhuma idade e dói tanto ceder-lhe como fugir-lhe. Mas o amor é o que há, e eu estou velho para morrer sozinho.” (p. 199)

Debaixo de algum céu, de um qualquer pequeno subúrbio, há um prédio pequeno que alberga umas quantas vidas e outras tantas histórias que se confundem, por vezes, com essas mesmas vidas. São ilusões que se confundem com sonhos, são ambições que se confundem como sendo próprias, são dúvidas que nos assolam a todos, são tristezas e dores, algumas impossíveis de colmatar.
Durante uma semana, a semana de todas as esperanças da cultura judaico-cristã, observamos, sem julgamentos, a fins e desencontros, a começos e reencontros, mas, sobretudo, a novos sentidos para a vida, seja em que fase da mesma. Daniel, david, margarida, constança, beatriz, marco, bernardino, joana, manuel, menino, francisco.
E um pouco de fé, esperança e caridade...

Editora: Leya | Colecção: | Local: Alfragide | Edição/Ano: 4ª, Junho 2013 | Impressão: Multitipo, AG, Lda. | Págs.: 199 | Capa: Rui Garrido | ISBN: 978-989-660-239-0 | DL: 360273/13 | Localização: BLX PF (80383472)

sábado, 30 de dezembro de 2017

Leituras nos Transportes Público #12.17

Dezembro   
3
4
Não se pode morar no solhos de um gato, Ana Cristina Carvalho
6
A ilustre casa de Ramires, Eça de Queiroz

Duas mulheres, dois destinos, lesleye pearse

he New Topping Book [Dossie Easton, Janet Hardy
7
12
Casado até segunda, Catherine Bybe

O regresso da primavera, Sveva Casati Modignani 

As avenidas periféricas, Patrick Modiano
17
Por este mundo acima, Patrícia Reis
18
O edifício de pedra, Asli Erdogan
27
Um violino na noite, Jojo Moyes
28
1Q84, Haruki Murakami
29
O leão, Nelson DeMille

Dezembro, Elizabeth Winthrop
30
Origem, Dan Brown

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

2017: Balanço de leituras

Inicio cada ano com perspectivas de leitura que se vão alterando ao longo do mesmo. Ainda bem, porque, regra geral, significa que se intrometeram novos desafios pelo meio. Isso significa igualmente algumas desistências, o que também faz parte do processo. Mas nunca se sabe, talvez as retome… um destes dias… sem stress.
Em termos gerais, destaco três tendências – há falta de melhor - de leitura este ano:
- o poder e o impacto da leitura;
- a (des)condição feminina;
- (mais) autores nacionais.

Foi um bom ano de leituras. E 2018? Apresenta-se extremamente promissor!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Precisão, Clarice Lispetor

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Sugestões de livros para Comunidades de Leitores: premiados com o Nobel da Literatura

Desde que estou na dinamização da Comunidade de Leitores da Penha de França que um dos desafios que coloquei aos participantes é ler, pelo menos, um livro de um autor laureado com o Prémio Nobel da Literatura. Já a nível pessoal, procuro ler anualmente três autores agraciados com este prémio, cuja escrita ainda desconheça.
Como todos os prémios, não premeia todos os autores que consideramos meritórios. Mas, concordemos ou não com os critérios e/ou as escolhas, a verdade é que nos permite conhecer autores e obras que nem sempre ultrapassam todas as fronteiras.
Nos últimos anos, estes são alguns dos nobilizados que li:
Camilo José Cela (1989)
Justificação da Academia: "por uma prosa rica e intensa, que com compaixão contida forma uma visão desafiadora da vulnerabilidade humana"
Nadine Gordimer (1991)
Justificação da Academia: " que pela sua magnífica escrita épica trouxe - nas palavras de Alfred Nobel - um grande benefício para a Humanidade"
Herta Müller (2009)
Justificação da Academia: " com a densidade da sua poesia e franqueza da prosa, retrata o universo dos desapossados"
Tomas Tranströmer (2011)
Justificação da Academia: " que, pelas suas condensadas e translúcidas imagens, nos dá um novo acesso à realidade"
Svetlana Alexijevich (2015)
Justificação da Academia: " pelos seus escritos polifônicos,um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo"

sábado, 23 de dezembro de 2017

Sugestões de livros para dinamizadores de Comunidades de Leitores

Para mim, uma parte importante da promoção e dinamização de uma Comunidade de leitores, ou da leitura em geral, passa pela desmistificação da própria leitura, tornando-a um acto acessível e de partilha. Cabe a nós, dinamizadores, acolher, amparar e orientar essa partilha. Para tal, há que perceber as motivações e os efeitos que a leitura pode provocar. Só assim podemos desempenhar o nosso papel da melhor forma.
Alguns dos livros, não académicos, que me deram mais ferramentas para este processo são:
Há livros que se revelam uma pequena surpresa. Seja porque avançamos suavemente pelas suas páginas, seja porque nos identificamos com o seu conteúdo. E neste livro senti uma dupla identificação. A mais óbvia, para quem me conhece quotidianamente, é o da minha paixão por Clubes de Leitura/Comunidades de Leitores.
Sabem aqueles livros que gostaríamos de ter escrito? Este é um deles. Não por falar de livros, o que à partida era meio caminho andado. Mas pelo modo como estes nos são apresentados. Os autores defendem que a leitura de livros, na sua imensidão de géneros e autores, deve, como qualquer dieta alimentar, ser variada e equilibrada.
Este é um livro interessante. Sobretudo para que tem ainda algum tipo de pruridos ou vergonhas sobre o seu percurso leitor. Mesmo que as ideias defendidas não sejam exactamente novas, poderão ter sempre a benesse de apaziguar alguns receios.
Remédios Literários, Ella Berthoud & Susan Elderkin
A experiência de biblioterapia que aqui se propõe baseia-se na experiência das autoras com pacientes — e é apoiada por uma avalanche de provas empíricas. Para cada crise, doença, situação de sofrimento físico ou de comoção espiritual, há um livro indicado que pode servir de cura. Por vezes, é a história que encanta, outras vezes é o ritmo da prosa que trabalha na psique, aquietando ou estimulando, ou é uma ideia ou uma atitude… (in www.Quetzaleditores.pt)
Como um romance, Daniel Pennac
Obra onde encontramos os essenciais “Os direitos inalienáveis do leitor”:
1-O direito de não ler;
2-O direito de saltar páginas;
3-O direito de não acabar um livro;
4-O direito de reler;
5-O direito de ler não importa o quê;
6-O direito de amar os “heróis” dos romances;
7-O direito de ler não importa onde;
8-O direito de saltar de livro em livro;
9-O direito de ler em voz alta;

10-O direito de não falar do que se leu.