segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Lavoura Arcaica, Raduan Nassar

"... não se questiona na aresta de um instante o destino dos nossos passos..." (p. 103)
Raduan Nassar é um caso atípico no panorama literário, ao assumir que a sua mensagem se resume as três obras que publicou na década de 70, não voltando a publicar. Em 2016, ganhou o Prémio Camões o que trouxe de novo a sua obra para o centro das atenções e foi o mote para a minha leitura.
A impressão que trespassou toda a minha leitura é a de que há imensas referências que não consigo apreender. Não que isso dificulte a leitura do livro, mas sim que este tem inúmeras releituras a oferecer. Muitas dessas referências são bíblicas, como a Parábola do Filho Pródigo. André. Desde sempre se percebe como ovelha tresmalhada, que não se identifica, nem adapta à dinâmica e valores familiares impostos pelo pai.
Lavoura arcaica: toda e qualquer forma do homem procurar alterar a ordem da natureza. Ou o trabalho a que adão e eva se viram obrigados como punição por romperem a ordem estabelecida por Deus pai, votando toda a humanidade a uma culpa irredimível.
Culpa. Será culpa de André o amor natural que sente por Ana, sua irmã, e que sabe inaceitável na ordem estabelecida. Para proteger essa mesma ordem, decidir partir. Mas a ordem familiar não se conforma com a partida e exige o seu regresso, como se este viesse confirmar a inalteração da ordem. Mas Tudo se alterou. Para sempre. Pois se a sua presença sempre foi incompreendida, a sua saída colocou a semente da dúvida e esta germina já em vários membros familiares: Ana, Pedro e Lula, o caçula.
O regresso dá-se. Mas as verdadeiras razões da partida são impronunciáveis e, como tal, incompreensíveis. E o retorno só veio confirmar que já não passado ao qual regressar. E que o futuro só ser depois de todos os alicerces caírem por terra. E quem os derruba é o patriarca, incapaz de cumprir a sua própria palavra de união.
Este livro tem tanto a dizer, que parecem faltar as palavras. Nesta edição, é acompanhado por um posfácio de Sabrina Sedlmayer, cuja leitura recomendo vivamente, pois oferece elucidativas pistas de compreensão para o texto, enriquecendo a nossa leitura.

Editora: Relógio d’Água | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Outubro 1999 | Impressão: Arco-ìris | Págs.: 2014 | Capa: Fernando Mateus, sobre pintura de Mark Rothko | ISBN: 972-708-548-2 | DL: 143119/99 | Localização: DR5072383 (0322708)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

(Algumas) Comunidades de Leitores existentes na AML

Nos últimos dias, tenho observado o surgimento ou a divulgação de diversas comunidades de leitores. O que é sempre óptimo, pois quem estiver interessando possui actualmente diversas alternativas ao seu dispor. Nesse sentido, deixo aqui a indicação de algumas comunidades e as suas caracteristicas básicas, como horário e temática. Espero que seja uma informação útil e ajude os interessados a encontrar a(s) sua(s) comunidade(s).

Divisão da Rede de Bibliotecas de Lisboa

Biblioteca da Penha de França

Periodicidade/Horário: Ultima quarta-feira do mês, 17h30/19h00.
Público-alvo: Adulto.
Temas: Ficção
Dinamização: Técnicas da biblioteca.

Biblioteca de S. Lázaro

Periodicidade/Horário: 2ª quinta-feira de cada mês, 17h30/19h00.
Público-alvo: Sénior.
Temas: Literatura, romances
Dinamização: Técnicos da biblioteca.

Hemeroteca

Periodicidade/Horário: última 3ª-feira de cada mês, 17h30/19h00.
Público-alvo: adulto.
Temas: jornalismo
Dinamização: Técnicos da biblioteca.

Roda dos Livros / Biblioteca dos Olivais

Periodicidade/Horário: 2º sábado de cada mês, 16h30/19h00.
Público-alvo: adulto.
Temas: Ficção
Dinamização: Grupo de leitores

Outras:

Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro (Sintra)

Periodicidade/Horário: 1ª sexta-feira de cada mês, 18h00/20h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Ricardo António Marques, director do Museu

Com olhos de Ler (Biblioteca de S. Domingos de Rana)

Periodicidade/Horário: último sábado de cada mês, 15h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Grupo “Com Olhos de Ler”

Culturgest

Periodicidade/Horário: Definida trimestralmente, 18h30/20h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Helena Vasconcelos
Mais informação: http://www.culturgest.pt/arquivo/2017/01/comunidadedeleitores.html 

GLA – Grupo de Leitura de Alverca

Periodicidade/Horário: último sábado de cada mês, 16h30/19h00.
Público-alvo: jovem, adulto.
Temas: ficção
Dinamização: Grupo de 4 jovens
Mais informação: https://www.facebook.com/GrupoLeituraAlverca/ 

Junta de Freguesia do Lumiar

Periodicidade/Horário: 3ª quarta-feira de cada mês, 21h00/23h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Técnicos da Junta
Mais informação: https://www.facebook.com/events/1317962721601927/

Ler na Ler (Livraria, Campo de Ourique)

Periodicidade/Horário: 3ª sábado de cada mês, 18h00/20h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Membros da Comunidade, de modo rotativo.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O que devemos (ou não) planear na nossa vida?

A vida é o que acontece enquanto fazemos planos para o futuro. Verdade. Mas que tipo de vida será não ter qualquer tipo de vida ou ambições? Deixarmos-nos guiar somente por um guião do que socialmente se espera que façamos, mesmo que não seja o que realmente desejamos para nos.

Antes de mais, é necessário parar e perceber, dentro das estruturas onde estamos inseridos, o que faz sentido para nós, o que valorizamos, o que queremos. E tão pouca
s vezes fazemos essa paragem. Porque o que queremos, o que ambicionamos implica abdicar, mas também fazer um esforço extra para conciliar tudo o que queremos incluir na nossa vida.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

história da leitura silenciosa e secreta

Nem sempre sou a primeira a desbravar as páginas de um livro. Antes de iniciar-me pelo relato contido nos seus caracteres, faço um reconhecimento das marcas de presença prévias: sublinhados, anotações, páginas dobradas, lombadas vincadas, marcadores e lembretes vários.
Por vezes, fico a saber o conteúdo de refeições, seja pelas facturas de almoços, seja pelas listas de compras. Fiquei na dúvida que finalidade teria uma listagem de flores e respectivos nomes latinos numa caligrafia irrepreensível e em desuso. A minha mente inculta na matéria, mas perversa em trama maquiavélicas, viu ali um origem de substância venenosas.

São tão diversas as marcas de posse de uma história que se segreda sempre diferente ao olhar de cada leitor. Eu perco me nesta história da leitura silenciosa e secreta.  

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A leitura primordial e única

Nas bibliotecas existem milhares de livros que nunca foram lidos. Aguardam serenos, com as lombadas alinhadas, as capas inibidas e as páginas lisas, à espera do momento em que dedos incautos as percorram, fecundando-as com o olhar e criando um universo entre palavras e imaginação, que o autor inicia e o leitor povoa. Estes livros são, por ventura, as meninas feias das festas que ninguém convida.
Não sei já dizer quantos destes livros iniciei na arte de serem lidos. Sei que alguns não serão lidos por mais ninguém. O que faz da minha, a leitura primordial e única. Por isso, não é vã. Fica marcada naquelas páginas, outrora virgens e intocadas, agora viúvas de outros olhares.

Imprimi a minha presença primeira nas suas páginas para que outros percebam: cheguei tarde a este novo mundo. Já não sou explorador nem colonizador destas páginas. Sou só e apenas aquele que veio depois e que tem de lidar com as marcas deixadas. Sim, marco a minha posse. Deixo a bandeira da minha descoberta. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O Mendel dos Livros/A Viagem ao Passado, Stefan Sweig

“Só agora, com os anos, compreendi o que desaparece com semelhantes seres humanos, (…), porque tudo o que é único se torna cada dia mais precioso num mundo como o nosso, irremediavelmente cada vez mais uniforme.” (p. 24)

Este pequeno livro é composto por dois, que foram o meu primeiro contacto com o trabalho deste autor.
O primeiro tem lugar em finais de 1915, em Viena. O seu protagonista é um alfarrabista, cuja memória prodigiosa faz dele um catálogo bibliográfico orgânico, mas cujas lacunas sociais ditarão o seu descalabro. O segundo tem como pano de fundo uma paixão não consumada e sublimada durante quase uma década pela ausência, e o modo como o tempo e a distância aos transformar-nos, altera igualmente esse sentimento ou a nossa disponibilidade para o mesmo.
Apreciei estas narrativas e, ao perceber a vida tumultuosa do autor, fiquei curiosa por conhecer melhor a sua obra, o que farei mais tarde.


Tradução: Carlos Leite/Mª Elsa Gouveia Lopes e Mª José Diniz | Editora: Relógio d'Água | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Abril 2015 | Impressão: Europress, Lda. | Págs.: ... | Capa: Carlos C. Vasconcelos | ISBN: 978-989-641-516-7 | DL: 391344/15 | Localização: BLX Mar 82-34/ZWE (80333480)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Leituras nos Transportes Público #17.01

Dia
Título, Autor
05-jan
Um pequeno passo, Robert Maurer
05-jan
O Mendel dos Livros, Stefan Sweig
11-jan
Nem todas as baleias voam, Afonso Cruz
12-jan
O Vale da paixão, Lídia Jorge
14-jan
Mister Gregory, Sveva Casato Modignani
17-jan
Sentir, Cristina Ferreira
17-jan
Magia do acaso, Tiago Rebelo
17-jan
Desenraizados, Erich Maria Remarque
18-jan
Homens imprudentemente poéticos, valter hugo mãe
18-jan
Nome de Código: Leoparda, Ken Follett
18-jan
Fazer de Morto, Frederico Pedreira
19
O artista está sozinho, Frederico Pedreira
24
A Guerra dos Tronos, George R. R. Martin
25
Os filhos da droga, Christine F.
26
Os sinais do Medo, Ana Zanatti
27
Retrato de uma Espia, Daniel Silva
31
Rage, Jonathan Kellerman

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Os Sinais do Medo, Ana Zanatti

"... são muitas as pedras que formam a felicidade e há sempre umas que nos escapam." (p.276)

A minha primeira incursão na escrita desta autora dá-se exactamente com o seu primeiro romance. Este versa sobre o tormento psicológico que pode ser a assumpção da homossexualidade devidos as expectativas e pressões sociais, sobretudo familiares. Para o demonstrar, Zanatti cruza diversas personagens: Maria do Carmo, Rita, Luís, Paulo, Flávia, Rosarinho, entre outras, cujas acções terão impacto (por vezes invisível) no desenvolvimento de cada personagem e das relações entre si. Salientado a importância da família no processo, não de descoberta, mas de aceitação e como essa necessidade é, na maioria das vezes, colmatada pela instituição de uma família alargada.
É uma história de descoberta de identidades e do seu papel na busca da felicidade. Em certos momentos, apresenta-nos diálogos que soam demasiado programáticos e no tom geral ressoa um grande impacto da psicologia, como forma de atingir esta busca e descobertas interiores. As personagens são, a meu ver, demasiado descritas, deixando pouco espaço a que as suas acções falem por si, deixando-nos, leitores, pouca margem para as nossas próprias interpretações sobre as suas características e incompletidudes.
Como primeiro romance, a história apresenta-se completa, em termos de mensagem, enredo e personagens. Estou curiosa para ler outro título da autora para perceber como é que a sua escrita evolui em termos de maturação e densidade.


Editora: Dom Quixote | Local: Lisboa | Edição/Ano: 2ª, Jun 2003| Impressão: Gráfica Manuel Barbosa | Págs.: 284 | Capa: Atelier Henrique Cayatte | ISBN: 972-20-2412-4 | DL: 197017/03 | Localização: BLX OR Rom-Por ZAN (80016119)

sábado, 21 de janeiro de 2017

O artista está sozinho, Frederico Pedreira

“A ironia é todo um outro nível de vida.” (p. 66)
Este pequeno volume de cerca de 70 paginas, e letra garrafal,  encontra-se dividido em três capítulos: Companhia, Passeio e A Aventura. O texto é hermético, fragmentário (e intencionalmente) desconexo, (depreende-se) com a intenção de transmitir a incompreensão (alheia) a que o artista (o verdadeiro artista) está votado. O objectivo parece conseguido, uma vez que, na minha singela opinião, muito pouco no texto me diz algo. A ironia patente deve estar realmente num nível inatingível.

Editora: Edição de autor | Local: Lisboa | Edição/Ano: Fev. 2013, 150 ex. | Impressão: Guide AG, Lda. | Págs.: 67 | Capa: Diogo Vaz Pinto | ISBN: 978-989-8638-05-2 | DL: 355915/13 | Localização: BLX DR5075463

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O Vale da Paixão, Lídia Jorge

"Falar de resultado, neste caso, seria o embelezamento duma ideia de vítima, e a filha (...) era ela mesma, e a herança consistia na mistura do que herdava com a transformação da herança, feita por sua vontade." (p. 127)
Esta foi a minha primeira incursão pela escrita de Lídia Jorge. Este romance, subdividido em 100 pequenos capítulos, relata-nos, ora na primeira, ora na terceira pessoa, a história da família Dias, e em especial do seu filho Walter, e o modo como a sua ousadia e ausência influência e molda a continuidade da mesma.
A narração está a cargo de uma mulher, cujo nome nunca é nomeado, e que se fica a saber ser a filha biológica de Walter, mas que é perfilhada pelo seu tio Custódio. Ela faz-nos então compreender como esta “verdade”, este acordo tácito, que é do conhecimento de todos, mas que nunca é verbalizada, se torna uma pedra basilar de todas as relações familiares, e sobretudo da sua personalidade. Porque a ausência de Walter, o trotamundos, como é chamado pelo pai, permite uma idealização e essa idealização pode ser a maior herança que ela alguma vez receberá. Esta é uma ideia que Mia Couto também refere no seu O Outro Pé da Sereia, quando uma das personagens afirma: “Vila Longe era uma terra de homens ausentes. Saiam dali adolescentes, sem idade para serem homens. Regressavam doente, demasiado tarde para serem maridos. Por fim, tornavam-se país quando as esposas ficavam viúvas.” (p. 243)
Mas este não é o único livro que esta narrativa me trouxe à memória. O outro livro é A História de meu filho, da nobelizada Nadine Gordimer. Ambas as narrativas resultam da tentativa dos filhos de colocar por escrito as suas histórias e assim compreender e ganhar consciência de como as relações parentais, seja de que nível forem, têm um papel primordial e inescapável na formação do individuo. E como as percepções dos filhos se alteram ao longo dos anos, à medida que estes vão amadurecendo e compreendendo outras subtilezas da suposta maturidade: “Será que alguma vez nos esquecemos deles, dos pais, por um momento? (…) Porque mesmo quando desafiamos os pais, quando os enganamos, confiamos neles.” (p. 33); “o que ele fez (…) fez de mim um escritor. / Eu sou um escritor e este é o meu primeiro livro – que não posso publicar nunca.” (p. 218)
os narradores, ao escreverem-se e às suas circunstâncias, conseguem assim ganhar o distanciamento necessário para compreender os seus progenitores fora do seu espectro parental, para os perceberem e aceitarem como adultos imperfeitos e assim conseguirem enterrar o passado, seja sob a forma de uma manta militar, seja pela catarse dos seus fantasmas.
Editora: Biis (Leya, SA) | Local: Alfragide | Edição/Ano: 6ª, 2009| Impressão: Litografia Rosés | Págs.: 189 | Capa: Rui Belo / Silva! Designers | ISBN: 978-989-65-3001-3 | DL: 283602/08 | Localização: BLX Oli ROM ROM-POR JOR (80319867)



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Diário dos dias ausentes

Desfio a memória e os dias ausentam-se. Batem em retirada a cada passo dado em sua direcção. Transformam-se em ténues paredes translucidas que se desfazem em névoa quando o gesto as tenta alcançar. Falha a acção, e o sentido apreende gotículas que prenunciam a ilha encantada, que nunca chega a apresentar-se ao gesto e ao olhar. Perde-se assim o registo dos dias ausentes.