segunda-feira, 20 de março de 2017

E as mulheres, Raduan?

Em rescaldo de leitura de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar, dou por mim a reflectir nas suas personagens femininas e no papel que o autor lhes atribui. E que papel é esse? De subjugação.
Ana submete-se ao desejo de André e à autoridade do pai. No único momento em que tenta rebelar-se a consequência é fatal. X (chamei-lhe assim) tentar impor a sua voz a Y, mas este vence pelo desejo sexual. Seja em contexto familiar, seja numa relação a dois, as mulheres parecem sempre votadas à anulação como castigo para a instigação do que, eventualmente, será o lado negro dos homens: a sua incapacidade de ceder o poder ou autoridade. O desejo natural é castigado. O desejo de igualdade na relação é aniquilado.

Em última análise, a questão que se coloca é: poderá, sequer, haver relacionamentos sem relações de poder? Ou qualquer relacionamento é uma demonstração de poder? Porque, neste caso, a mulher é apresentada sempre numa posição de perda e impotência. 
Resta-me ler o último livro do autor, Menina a caminho, para inverter esta imagem que o autor me deixa. Será?

quinta-feira, 16 de março de 2017

Um Copo de Cólera, Raduan Nassar

"... o que conta na vida é a qualidade da descida..." (p. 80)

Uma vez que a obra de Nassar se resume a 3 títulos, e lido o talvez mais emblemático Lavoura Arcaica, resolvi dar continuidade à sua leitura, desta feita com este Um Copo de Cólera.
A acção deste livro decorre em cerca de 24 horas, ou menos. Numa primeira parte, descreve-nos o encontro de dois amantes para uma noite de sexo e paixão. De manhã, antes da despedida, por um motivo trivial, despoleta uma discussão épica, onde o objectivo de cada um é magoar e menorizar o outro, demonstrando assim o seu poder de subjugação sobre o outro, acabando mesmo num episódio de confrontação física.
Quem sai vencedor? Leia o livro!


Editora: Companhia das Letras | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Junho 2016 | Impressão: Printer Portuguesa | Págs.: 116 | Capa: Panóplia | ISBN: 978-989-665-100-8 | DL: 411067/16 | Localização: BLX OR C&N  COM-NOV-EST  NAS (80374327)

segunda-feira, 13 de março de 2017


Cada vez mais, acredito que o grande objectivo da vida é demonstrar-nos que as crenças e valores que seguimos não são uma única verdade e que todas são possíveis, mesmo numa única vida. E talvez a única verdade seja aquela que ainda não vivemos.


quinta-feira, 9 de março de 2017

A Pirata: a história aventurosa de Mary Read, pirata das Caraíbas, Luísa Costa Gomes

Esta é a minha primeira incursão na escrita de Luísa Costa Gomes e, como o subtítulo nos indica, esta é uma história de aventuras, ao da literatura do século 18. Relata-nos a vida de Mary, que por questões de sobrevivência económica, a mãe faz passar pelo seu meio-irmão Mark, falecido ainda em bebé. A partir dai, vive quase toda a sua vida fazendo-se passar por Mark, num registo atípico para uma mulher e unicamente possível para um homem, na época. Desde a participação na guerra à vida de corsário e pirata.
A escrita de Costa Gomes é acessível, quer em termos de estruturas gramaticais que de vocabulário, e o enredo, sempre em movimento, capta-nos a atenção. As personagens são planas e nem sempre apelativas. Embora, parece-me, a intenção seja mesmo a de uma certa simplificação, pois, pelo que percebo, o texto se destina sobretudo a jovens e, infelizmente, esta é uma das caracteristcas da literatura infanto-juvenil: tell, don’t show. A meu ver, é um exercício interessante de reprodução de um estilo de escrita datado. No entanto, há questões que gostaria de ver exploradas e aprofundadas, como o papel da mulher, ou as personagens serem mais complexas. Foi uma leitura que classificaria de entretenimento, ou seja, leve e bem-disposta. Mais não é possível encontrar neste livro.

Editora: D. Quixote | Local: Alfragide | Edição/Ano: 3ª, Maio 2012 | Impressão: Publidisa | Págs.: 216 | ISBN: 978-972-20-3195-0 | DL: 344327/12 | Localização: BLX BEL 82P-31/GOM 

quarta-feira, 1 de março de 2017

Leitura nos Transportes Públicos #17.02

Dia
Título, Autor
01-02
O Mendel dos Livros, Stefan Zweig
03-02
A Arte de Pensar com Clareza, Rolf Dobelli
07-02
O Tigre Branco, Aravind Adiga
08-02
Jane Eyre, Charlotte Brontë

A Alquimia do Amor, Nicholas Sparks
11-02
Lavoura Arcaica, Raduan Nassar

O quarto de Jack, Emma Donaghue
16-02
Volta ao mundo em 80 dias, Júlio Verne

Prometo Falhar, Pedro Chagas Freitas

Um novo amanhã, Dorothy Koonson
21-02
You are not so smart, David McRaney

E onde é que está o amor?, Ana Zanatti
22-02
Homem nota 10, David Merkh
23-02
Obra aberta, Umberto Eco
24-02
Quando o Cuco chama, Robert Galbraith
25-02
Pura Coincidência, Renee Knight
27-02
Eu Sou a Árvore, Pussidónio Cachapa

O Livro dos Códigos, Simon Singh


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Lavoura Arcaica, Raduan Nassar

"... não se questiona na aresta de um instante o destino dos nossos passos..." (p. 103)
Raduan Nassar é um caso atípico no panorama literário, ao assumir que a sua mensagem se resume as três obras que publicou na década de 70, não voltando a publicar. Em 2016, ganhou o Prémio Camões o que trouxe de novo a sua obra para o centro das atenções e foi o mote para a minha leitura.
A impressão que trespassou toda a minha leitura é a de que há imensas referências que não consigo apreender. Não que isso dificulte a leitura do livro, mas sim que este tem inúmeras releituras a oferecer. Muitas dessas referências são bíblicas, como a Parábola do Filho Pródigo. André. Desde sempre se percebe como ovelha tresmalhada, que não se identifica, nem adapta à dinâmica e valores familiares impostos pelo pai.
Lavoura arcaica: toda e qualquer forma do homem procurar alterar a ordem da natureza. Ou o trabalho a que adão e eva se viram obrigados como punição por romperem a ordem estabelecida por Deus pai, votando toda a humanidade a uma culpa irredimível.
Culpa. Será culpa de André o amor natural que sente por Ana, sua irmã, e que sabe inaceitável na ordem estabelecida. Para proteger essa mesma ordem, decidir partir. Mas a ordem familiar não se conforma com a partida e exige o seu regresso, como se este viesse confirmar a inalteração da ordem. Mas Tudo se alterou. Para sempre. Pois se a sua presença sempre foi incompreendida, a sua saída colocou a semente da dúvida e esta germina já em vários membros familiares: Ana, Pedro e Lula, o caçula.
O regresso dá-se. Mas as verdadeiras razões da partida são impronunciáveis e, como tal, incompreensíveis. E o retorno só veio confirmar que já não passado ao qual regressar. E que o futuro só ser depois de todos os alicerces caírem por terra. E quem os derruba é o patriarca, incapaz de cumprir a sua própria palavra de união.
Este livro tem tanto a dizer, que parecem faltar as palavras. Nesta edição, é acompanhado por um posfácio de Sabrina Sedlmayer, cuja leitura recomendo vivamente, pois oferece elucidativas pistas de compreensão para o texto, enriquecendo a nossa leitura.

Editora: Relógio d’Água | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Outubro 1999 | Impressão: Arco-ìris | Págs.: 2014 | Capa: Fernando Mateus, sobre pintura de Mark Rothko | ISBN: 972-708-548-2 | DL: 143119/99 | Localização: DR5072383 (0322708)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

(Algumas) Comunidades de Leitores existentes na AML

Nos últimos dias, tenho observado o surgimento ou a divulgação de diversas comunidades de leitores. O que é sempre óptimo, pois quem estiver interessando possui actualmente diversas alternativas ao seu dispor. Nesse sentido, deixo aqui a indicação de algumas comunidades e as suas caracteristicas básicas, como horário e temática. Espero que seja uma informação útil e ajude os interessados a encontrar a(s) sua(s) comunidade(s).

Divisão da Rede de Bibliotecas de Lisboa

Biblioteca da Penha de França

Periodicidade/Horário: Ultima quarta-feira do mês, 17h30/19h00.
Público-alvo: Adulto.
Temas: Ficção
Dinamização: Técnicas da biblioteca.

Biblioteca de S. Lázaro

Periodicidade/Horário: 2ª quinta-feira de cada mês, 17h30/19h00.
Público-alvo: Sénior.
Temas: Literatura, romances
Dinamização: Técnicos da biblioteca.

Hemeroteca

Periodicidade/Horário: última 3ª-feira de cada mês, 17h30/19h00.
Público-alvo: adulto.
Temas: jornalismo
Dinamização: Técnicos da biblioteca.

Roda dos Livros / Biblioteca dos Olivais

Periodicidade/Horário: 2º sábado de cada mês, 16h30/19h00.
Público-alvo: adulto.
Temas: Ficção
Dinamização: Grupo de leitores

Outras:

Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro (Sintra)

Periodicidade/Horário: 1ª sexta-feira de cada mês, 18h00/20h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Ricardo António Marques, director do Museu

Com olhos de Ler (Biblioteca de S. Domingos de Rana)

Periodicidade/Horário: último sábado de cada mês, 15h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Grupo “Com Olhos de Ler”

Culturgest

Periodicidade/Horário: Definida trimestralmente, 18h30/20h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Helena Vasconcelos
Mais informação: http://www.culturgest.pt/arquivo/2017/01/comunidadedeleitores.html 

GLA – Grupo de Leitura de Alverca

Periodicidade/Horário: último sábado de cada mês, 16h30/19h00.
Público-alvo: jovem, adulto.
Temas: ficção
Dinamização: Grupo de 4 jovens
Mais informação: https://www.facebook.com/GrupoLeituraAlverca/ 

Junta de Freguesia do Lumiar

Periodicidade/Horário: 3ª quarta-feira de cada mês, 21h00/23h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Técnicos da Junta
Mais informação: https://www.facebook.com/events/1317962721601927/

Ler na Ler (Livraria, Campo de Ourique)

Periodicidade/Horário: 3ª sábado de cada mês, 18h00/20h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Membros da Comunidade, de modo rotativo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

E onde é que está o amor?, Ana Zanatti

"Se há regras para saber viver, são certamente elásticas, porque viver não me parece que seja uma ciência exacta." p. 54
Esta foi a minha segunda incursão na escrita de Ana Zanatti e, não obstante a importância que lhe reconheço no tratamento de temas relacionados com a temática LGBT, creio que não voltarei à mesma.
Há uma máxima anglo-saxónica da escrita que é show, don’t tell. Ora, a escrita de Zanatti é o oposto: relata e descreve, sobretudo as personagens, mas não nos demonstra como é que as mesmas agem em contexto ou em interacção umas com as outras. E este é um tipo de escrita que não me apela, pois não consegue cativar-me e seduzir pelas tais personagens.
Neste livro, não existe enredo. É-nos descrita uma situação: seis mulheres e três homens reúnem-se, durante uma ou duas horas, numa livraria para falar sobre as suas relações, falhadas, e assim tentar perceber e corrigir atitudes, numa tentativa de transformar os seus futuros. Este é suposto ser um momento libertador e consequentemente transformador, no entanto, como essa transformação só se pode constatar a posteriori e não tendo acesso à mesma, deixa-me, enquanto leitora, uma sensação desagradável de inconsequência.
A escrita de Zanatti é límpida e acessível, o que torna a leitura agradável e rápida. No entanto, deixa também uma sensação de superficialidade na abordagem de temas, que na verdade são bastante complexos e pedem uma maior profundidade e amplitude de tratamento. E é esta (aparente) incoerência que me faz, de momento, não desejar voltar à sua escrita.

Editora: Guerra e Paz, SA | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Maio 2013 | Impressão: Publito | Págs.: 135 | Capa: Ilídio Vasco | ISBN: 978-989-702-071-1 | DL: 358609/13 | Localização: BLX Oli ROM  ROM-POR  ZAN (80241647)

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O que devemos (ou não) planear na nossa vida?

A vida é o que acontece enquanto fazemos planos para o futuro. Verdade. Mas que tipo de vida será não ter qualquer tipo de vida ou ambições? Deixarmos-nos guiar somente por um guião do que socialmente se espera que façamos, mesmo que não seja o que realmente desejamos para nos.

Antes de mais, é necessário parar e perceber, dentro das estruturas onde estamos inseridos, o que faz sentido para nós, o que valorizamos, o que queremos. E tão pouca
s vezes fazemos essa paragem. Porque o que queremos, o que ambicionamos implica abdicar, mas também fazer um esforço extra para conciliar tudo o que queremos incluir na nossa vida.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

história da leitura silenciosa e secreta

Nem sempre sou a primeira a desbravar as páginas de um livro. Antes de iniciar-me pelo relato contido nos seus caracteres, faço um reconhecimento das marcas de presença prévias: sublinhados, anotações, páginas dobradas, lombadas vincadas, marcadores e lembretes vários.
Por vezes, fico a saber o conteúdo de refeições, seja pelas facturas de almoços, seja pelas listas de compras. Fiquei na dúvida que finalidade teria uma listagem de flores e respectivos nomes latinos numa caligrafia irrepreensível e em desuso. A minha mente inculta na matéria, mas perversa em trama maquiavélicas, viu ali um origem de substância venenosas.

São tão diversas as marcas de posse de uma história que se segreda sempre diferente ao olhar de cada leitor. Eu perco me nesta história da leitura silenciosa e secreta.  

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A leitura primordial e única

Nas bibliotecas existem milhares de livros que nunca foram lidos. Aguardam serenos, com as lombadas alinhadas, as capas inibidas e as páginas lisas, à espera do momento em que dedos incautos as percorram, fecundando-as com o olhar e criando um universo entre palavras e imaginação, que o autor inicia e o leitor povoa. Estes livros são, por ventura, as meninas feias das festas que ninguém convida.
Não sei já dizer quantos destes livros iniciei na arte de serem lidos. Sei que alguns não serão lidos por mais ninguém. O que faz da minha, a leitura primordial e única. Por isso, não é vã. Fica marcada naquelas páginas, outrora virgens e intocadas, agora viúvas de outros olhares.

Imprimi a minha presença primeira nas suas páginas para que outros percebam: cheguei tarde a este novo mundo. Já não sou explorador nem colonizador destas páginas. Sou só e apenas aquele que veio depois e que tem de lidar com as marcas deixadas. Sim, marco a minha posse. Deixo a bandeira da minha descoberta. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O Mendel dos Livros/A Viagem ao Passado, Stefan Sweig

“Só agora, com os anos, compreendi o que desaparece com semelhantes seres humanos, (…), porque tudo o que é único se torna cada dia mais precioso num mundo como o nosso, irremediavelmente cada vez mais uniforme.” (p. 24)

Este pequeno livro é composto por dois, que foram o meu primeiro contacto com o trabalho deste autor.
O primeiro tem lugar em finais de 1915, em Viena. O seu protagonista é um alfarrabista, cuja memória prodigiosa faz dele um catálogo bibliográfico orgânico, mas cujas lacunas sociais ditarão o seu descalabro. O segundo tem como pano de fundo uma paixão não consumada e sublimada durante quase uma década pela ausência, e o modo como o tempo e a distância aos transformar-nos, altera igualmente esse sentimento ou a nossa disponibilidade para o mesmo.
Apreciei estas narrativas e, ao perceber a vida tumultuosa do autor, fiquei curiosa por conhecer melhor a sua obra, o que farei mais tarde.


Tradução: Carlos Leite/Mª Elsa Gouveia Lopes e Mª José Diniz | Editora: Relógio d'Água | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Abril 2015 | Impressão: Europress, Lda. | Págs.: ... | Capa: Carlos C. Vasconcelos | ISBN: 978-989-641-516-7 | DL: 391344/15 | Localização: BLX Mar 82-34/ZWE (80333480)