sexta-feira, 14 de abril de 2017

Aparições & Santificações

Imagino que há mais verdade na história de Roque Santeiro, telenovela da Rede Globo de 1985, do que em muitas hagiografias. A ficção por vezes consegue ser mais verdadeira do que a realidade.
Não ponho em causa o sentimento de fé ou crença. Nem a necessidade extrema de um milagre que dê alento a vidas miseráveis, em que não há promessa goradas, porque a promessa é um voto de esperança onde esta nem sequer germinou. Ponho em causa a necessidade de deuses e seus fieis assistentes administrativos, em que delegamos queixas, orações, reclamações e esclarecimentos para as vidas que não temos.
Lamento o destino das crianças enredadas em luzes que não sabem explicar e os adultos das medalhas que visionam mais longe. Adultos inteligentes o suficiente para vislumbrarem o que mais ninguém vê. Enquanto as crianças apenas anseiam por uma atenção ou fogem à violência enquanto quotidiano ou castigo por uma tarefa não efectuada. As crianças deveriam apenas ser crianças, mas o mundo é desses quantos homens que nos impõem a sua vontade e as crianças morrem de um futuro ausente.

Sinto sempre uma enorme necessidade de relativizar certos relatos. Uma das razões de o fazer é o acreditar no efeito placebo de certos procedimentos religiosos, tal como acredito numa certa capacidade de auto-regeneração através da meditação e de estados de transe. Outra das minhas formas de manter uma certa perspetiva é recordando a máxima: todos os santos têm um passado e todos os pecadores têm um futuro.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O efeito (terapêutico) da leitura partilhada

Ultimamente, tenho-me cruzado na internet com vários debates sobre a biblioterapia, os seus contextos e quem está, ou não, habilitado para o fazer. As opiniões divergem em vários pontos, mas todos reconhecem que, em determinados níveis e situações, a leitura é benéfica. Logo, quem se encontra num papel de aconselhamento e dinamização de leituras pode ter um papel preponderante no bem-estar dos leitores. A minha prática e experiência pessoais permitem-me tecer uma ou duas constatações e outras tantas opiniões.
A nível pessoal, a leitura, ao permitir-me perceber o olhar do outro, tem contribuído para (uma tentativa de melhor) compreender o que e quem me rodeia e para relativizar os momentos menos bons. E esta, como ponto de partida para alguns exercícios reflexivos de escrita, dá-me ferramentas para me organizar mentalmente. E ambos, leitura e escrita, como duas faces da mesma moeda, são oportunidades de diálogo interno que contribuem para um equilíbrio interno neste mundo de loucos e que há-de ser sempre louco.
A partilha presencial de leituras é um outro momento. Posterior. Mas, tanto ou mais benéfico. Porque se a leitura e a escrita são momentos individuais e solitários, a partilha são momentos de convívio. Por vezes, podem ser desconfortáveis (e até aterradores). Verbalizar, pela primeira vez, perante outras pessoas uma opinião ou uma impressão obriga, em primeiro lugar, a formaliza-la e, só isso, exige de nós uma posição perante algo. O que nem sempre é um processo fácil.
Em contra partida, é reconfortante perceber que o temos a dizer é aceite, compreendido e, por vezes, é até contribuir com uma perspectiva que o outro não tinha vislumbrado.

Quando, a partir de um livro, se partilham contas de alguns rosários pessoais, são momentos muito especiais e marcantes. Ser receptor deste tipo de confiança é um privilégio e faz parte dessa confiança que os desabafos aí relatados não transbordem para outros locais e outras circunstancias. E nesse aspecto, funciona (ou deve) como terapia de grupo. É claro que, na dinamização de partilhas de leituras, devemos estar conscientes das nossas limitações pessoais e profissionais e não substituir outras formas de acompanhamento especializado. No entanto, é claro para mim que nesse momento contribuímos com algo tão simples, e por vezes tão menosprezado, como estar presente e escutar. 


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ler é coisa de mulheres?

Nos transportes públicos, constato que pelo menos 2/3 das pessoas que observo com livros são mulheres. Nos clubes de leitura, embora cada grupo seja diferente, e nalguns exista uma paridade de participações, noutros há em que a participação é maioritariamente ou exclusivamente feminina. Nos blogues ou páginas de crítica ou relato de leituras, também se verifica uma predominância feminina.
São elas mais leitoras do que eles? Ou retiram elas mais beneficio da partilha das suas leituras? Será a leitura e a sua reflexão um dos seus quartos imateriais, que permite o diálogo intimo que as mulheres sempre encontraram nos seus afazeres diários? Encontram ai o espaço e tempo para uma voz que não seja minada por pressões profissionais e/ou sociais? Será este o tempo e o espaço para serenamente se conhecerem e ousarem?

Ler não é coisa somente de mulheres, mas certamente compreendo-me mais como pessoa através da leitura. 


terça-feira, 4 de abril de 2017

Clube dos poetas vivos

Dizem que é poeta
Olho e vejo a roupa de uma indistinta indumentária administrativa
Cabelo de demão desmaiada
Mala à tiracolo em tempos preta
Batom vermelho
Gritante arrepiante
Nada bate com a foto de há muitos anos continuamente exibida na guarda dos livros
(insistimos em manter a ilusão de juventude pela perpetuação de uma mesma inidentificativa foto)
(Photoshop possível de uma vida demasiado inalógica)
Ouço as palavras pelas diseures  (uma muito mal ensaiada)
Encontro poucos momentos de entendimento
E vago noutras direcções
Levada por diários dos dias ausentes
Enquanto roo as unhas na tentativa de me livrar
Deste excesso de mim 


sábado, 1 de abril de 2017

Leitura nos Transportes Públicos #17.03

Março
Dia
Título, Autor
01
The inteligente investor, Benjamin Graham

The experts, Chris Pavone
02
A jangada de pedra, José Saramago
07

O Chalet das Cotovias, Carlos Ademar
09
Small Data, Martin Lindstorm
10
Candido o Optimista, Voltaire

Os Anagramas de Varsóvia, Richard Zimler
11
Um copo de cólera, Raduan Nassar

Lições de Desejo, Madeline Hunter
14
O envangelho segundo Lázaro, Richard Zimler
15
Estaline, Simon Sebag Montefiore
16
O Homem Ausente, Hans Rosenfeldt

Um lugar chamado Liberdade / Ken Follett
17
1984, George Orwell

Morrer sozinho em Berlim, Hans fallada
21
Focos de tensão, George J. Friedman

A viúva Negra, Daniel Silva

A Odisseia, Homero

22
A Experiência, Ferreira de Castro
23
Faz Acontecer, André Leonardo
24
Umas Mulher de Sorte, Nora Roberts

A filha do Capitão, José Rodrigues dos Santos
25
O Primeiro Marido, Laura Dave
27
A Química, Stephanie Meyer

Benzeram chico e Você
28
O Triunfo do amor Português, Mário Claúdio

O rapaz londrino, Mafalda Santiago
30
Silêncio, Shusako Endo

Santos e Milagres, Alexandre borges
31
A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafon


quinta-feira, 30 de março de 2017

Português para Estrangeiros | 3ª Edição – Balanço

Terminou, hoje, a terceira edição do projecto Português para Estrangeiros, que dinamizo na biblioteca da Penha de França. Como tal, impõe-se um pequeno balanço.
Tal como está, o projecto corresponde a um nível de iniciação (A1/A2, do Quadro Nacional de Qualificações), o que, embora essencial, é uma oferta insuficiente. O que me vai levar, durante o período de verão, a preparar um novo nível, correspondente ao B1/B2. Também gostaria, mas não necessariamente dentro dessas sessões, de desenvolver actividades complementares, como uma Comunidade de leitores e uma Oficina de Escrita estrangeiros, para abordar especificamente as competências de compreensão leitora e de produção escrita.
Na verdade, ideias e vontade não me faltam. No entanto, é necessário articular disponibilidades várias, que, felizmente, se parecerem estar a conjugar, por isso estou bastante motivada como as possibilidades de crescimento do projecto. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Cara incompreensão

Com a idade, há processos da minha mente que fui entendendo e, creio mesmo, que consegui alterar. Alguns. Talvez um ou dois. Bem, o suficiente para acreditar que, em determinados aspectos, já não reajo nem me comporto como há 10, 15 anos atrás. Seja pela mera identificação de um padrão de comportamento e “inversão” da consequente acção. Seja porque realmente as nossas experiências alteram a nossa percepção da realidade e naturalmente o nosso comportamento.
Dá-me segurança ter consciência dessa mudança, porque me permite ter confiança de que ainda conseguirei alterar aspectos da minha personalidade com os quais não estou satisfeita.
Por outro lado, questiono-me se será benéfico compreendermo-nos na totalidade. Não implicará esta hiperracionalidade uma sobrecarga do nosso sistema (afinal, somos complexos computadores quânticos), que colapsará perante a infinitude de possibilidades de consequências de qualquer acção ou pensamento?
Sentir torna-se, então, primordial. Sentir liga-nos (a todos, a tudo). Sentir oferece-nos o aqui e o agora. Sem passado, sem futuro. Sem herança, sem consequência. Apenas indivíduos a aprender a ser todo.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Há na escrita anglo-saxónica uma simplicidade e uma eficácia que me apraz. É uma primazia da história e da mensagem em relação à forma. Por oposição à necessidade francófona ou europeísta de demonstrar uma erudição a toda a prova, que dificulta o trabalho do leitor, fazendo com quem seja capaz de descortinar a mensagem se sinta um escolhido.
É verdade que diversos níveis de compreensão leitora. Tal como há diferentes necessidades de escape através da leitura. Fazendo de cada leitor um desafio diferente. Como tal, a escrita não pode encarar o leitor como ignorante, nem deve impor-lhe uma prova este necessita ultrapassar constantemente.

Há um equilíbrio entre simplicidade e profundidade (sim, sei bem que não são antónimos) possível de atingir. É nesse eixo que desejo situar o modo como escrevo e é nesse sentido que diariamente exercito o meu funambulismo literário. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Comunidade(s) de Leitores: Trimestre(s) no Feminino

Uma das questões que, volta e meia, surgem nas comunidades de leitores prende-se com a representatividade da escrita no feminino. As autoras estão representadas nas suas opções de leitura? Sim, estão. E da minha observação, cada vez mais. Porquê?
Talvez uma primeira resposta venha exatamente da maioria dos participantes em comunidades de leitores serem mulheres. É claro que isto não se verifica em todas as comunidades, e ainda bem, mas é a realidade e pode ser comprovada, provavelmente, numa comunidade perto de si. Assim, e se desejavelmente quem participa tem algo a dizer nas escolhas de leitura, é inevitável que estas, se não refletiam essa representatividade, a partir do momento em que se dá conta dessa realidade, há uma tentativa de encontrar um equilíbrio nesta escolhas. Tem sido igualmente essa a minha observação. E o interessante é que, a dado momento, esse equilíbrio surge naturalmente.
Como dinamizadora de uma comunidade, procuro que este equilíbrio seja atingido. Embora não me preocupe em que o mesmo seja de uma igualdade matemática. Então, e aproveitando uma prática de outras comunidade, uma das propostas este ano passou por um trimestre no feminino. Para mim, foi a oportunidade de conhecer a escrita de 3 autoras nacionais de quem ainda não tinha lido nada, tal como a maioria dos participantes na comunidade. E como o nosso objectivo principal é o de divulgação de “novos” autores, esta foi uma opção bem acolhida e à qual poderemos voltar no futuro.


segunda-feira, 20 de março de 2017

E as mulheres, Raduan?

Em rescaldo de leitura de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar, dou por mim a reflectir nas suas personagens femininas e no papel que o autor lhes atribui. E que papel é esse? De subjugação.
Ana submete-se ao desejo de André e à autoridade do pai. No único momento em que tenta rebelar-se a consequência é fatal. X (chamei-lhe assim) tentar impor a sua voz a Y, mas este vence pelo desejo sexual. Seja em contexto familiar, seja numa relação a dois, as mulheres parecem sempre votadas à anulação como castigo para a instigação do que, eventualmente, será o lado negro dos homens: a sua incapacidade de ceder o poder ou autoridade. O desejo natural é castigado. O desejo de igualdade na relação é aniquilado.

Em última análise, a questão que se coloca é: poderá, sequer, haver relacionamentos sem relações de poder? Ou qualquer relacionamento é uma demonstração de poder? Porque, neste caso, a mulher é apresentada sempre numa posição de perda e impotência. 
Resta-me ler o último livro do autor, Menina a caminho, para inverter esta imagem que o autor me deixa. Será?

quinta-feira, 16 de março de 2017

Um Copo de Cólera, Raduan Nassar

"... o que conta na vida é a qualidade da descida..." (p. 80)

Uma vez que a obra de Nassar se resume a 3 títulos, e lido o talvez mais emblemático Lavoura Arcaica, resolvi dar continuidade à sua leitura, desta feita com este Um Copo de Cólera.
A acção deste livro decorre em cerca de 24 horas, ou menos. Numa primeira parte, descreve-nos o encontro de dois amantes para uma noite de sexo e paixão. De manhã, antes da despedida, por um motivo trivial, despoleta uma discussão épica, onde o objectivo de cada um é magoar e menorizar o outro, demonstrando assim o seu poder de subjugação sobre o outro, acabando mesmo num episódio de confrontação física.
Quem sai vencedor? Leia o livro!


Editora: Companhia das Letras | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Junho 2016 | Impressão: Printer Portuguesa | Págs.: 116 | Capa: Panóplia | ISBN: 978-989-665-100-8 | DL: 411067/16 | Localização: BLX OR C&N  COM-NOV-EST  NAS (80374327)

segunda-feira, 13 de março de 2017


Cada vez mais, acredito que o grande objectivo da vida é demonstrar-nos que as crenças e valores que seguimos não são uma única verdade e que todas são possíveis, mesmo numa única vida. E talvez a única verdade seja aquela que ainda não vivemos.