quinta-feira, 25 de maio de 2017

Satisfazer as necessidades dos públicos sem transformar o core business de um espaço

O projecto Português para estrangeiros, que dinamizo na Biblioteca da Penha de França, tem atraído participantes tão diversos, que é impossível satisfazer as necessidades de aprendizagem de todos. Quando isso acontece, uma das consequências é a desistência, embora estes compreendam que não temos a capacidade logística e humana de colmatar todas as suas lacunas individuais.
Actualmente, o projecto é composto por um conjunto de 12 sessões (de 90 minutos cada)  em que se segue as metas estabelecidas pelo Quadro Europeu de Referência para as línguas para os níveis A1 e A2. O ideal, seria alargar a oferta para pelo menos outras tantas sessões nos níveis B1/B2, C1/C2 e, a uma fase anterior, que diria de (quase) alfabetização.
Deste modo, e imaginemos que os diferentes níveis eram ministrados em simultâneo para diferentes grupos, a biblioteca transformar-se-ia numa escola de línguas. É isso que se quer? Não creio. A César o que é de César. Não queremos substituir a função das escolas. Queremos sim oferecer um serviço que, paralela ou complementarmente a esta, sirva de ponte entre as necessidades de comunicação sentidas por alguém recém chegado a Portugal e restante oferta educativa existente, seja do ponto de vista de disponibilidade ou de acesso financeiro.
Assim, e mesmo sentido vontade pessoal de fazer crescer a oferta do projecto, este não deve tornar-se uma oferta educativa exaustiva. Não é esse o papel da biblioteca. A biblioteca é uma ponte e uma porta aberta ao conhecimento e ao alargar de experiências e expectativas, pessoais e colectivas. Mas é também um espaço institucional que respeita e pretende, a cima de tudo, colaborar com a missão das outras instituições, entre elas, a da nobre escola.



terça-feira, 23 de maio de 2017

Um público temporário é um público prioritário?

Um dos projectos em que trabalho e que tem tido uma adesão considerável é o Português para Estrangeiros. Os grupos de participantes são bastante heterogéneos em idades, países de origem, experiências e expectativas. No entanto, e embora esse não fosse o objectivo inicial, a maioria deste tem formação académica universitária e a sua perspectiva de permanência em Portugal é temporária, rondando habitualmente os dois anos, em ou estão a desenvolver estudos de pós graduação ou projectos vários, muitos deles de cariz cultural.  
Embora seja extremamente aliciante trabalhar com este público, ocasionalmente questiono-me se este será prioritário? Afinal, ao estamos a disponibilizar tempo e recursos para este não estamos a disponibilizar para outros, quiçá, com mais necessidades de aprendizagem, por exemplo, de competências de informática. Além destas sessões, estes utilizam as bibliotecas como leitores ou no âmbito de outros serviços? Na verdade, podemos constatar que a utilizam não só para trabalhar, mas também para o empréstimo de livros, que ainda é um serviço primordial das bibliotecas. A longo prazo, o que é que este público nos traz, uma vez que, na sua maioria, vai retornar ao seu pais? Antes de mais, através do boca a boca, são os primeiros a divulgar o projecto entre os seus conhecimentos. a posteriori, com o conhecimento da língua e cultura entretanto adquiridos, acredito que sejam a melhor ponte de comunicação do nosso pais no exterior. Sentirem-se acolhidos e perceber que têm técnicos que estão disponíveis e receptivos é um cartão de visita e uma forma de sermos realmente uma sala de estar da comunidade, independentemente da sua composição.

Do ponto de vista profissional, acredito que também há espaço para este público. Se há adesão, então há uma necessidade e um projecto que a colmata. Então, faz sentido. Enquanto técnica dinamizadora, tem sido uma experiência bastante enriquecedora, da qual, por vezes, apenas lamento, não conseguir tirar maior proveito.

Maluda

sábado, 20 de maio de 2017

A viagem

Um dos meus sonhos de adolescência era trabalhar, mesmo que temporariamente, no estrangeiro. O mais perto que estive disso foi no início do meu percurso profissional, quando me desloquei para assistir a apresentações de produtos, marcas e eventos na área gráfica. Foi uma oportunidade de conhecer aeroportos e alguns locais peculiares.
Trabalhar no estrangeiro acabou por não se revelar uma hipótese e a disponibilidade financeira para (grandes) viagens também não se proporcionou. O escotismo revelou-se a oportunidade de conhecer alguns pontos do país através de situações caricatas.
Hoje, a viagem parece muito distante da minha realidade. No entanto, sinto falta de algo. Sobretudo de um escape à rotina (ainda que voluntária) do meu quotidiano.

Sair do meu espaço, da minha rotina, quem sabe conhecer algo novo, poderá ser o distanciamento necessário à transformação ou à tomada de decisões, que se me apresentam complexas. É possível que esse seja o empreendimento que me falte: sair de mim para a mim voltar. 


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Ao chegar aos 45 
convivem em mim
Os sonhos e ilusões dos 15
As infinitas possibilidades dos 25
A tristeza e dor da partida e da perda dos 35

Mas aos 45 a serenidade advém
De saber
Que a alegria e a felicidade caminham lado a lado com o mérito, o aleatório e a finitude
Há sempre espaço para velhos sonhos
Há sempre tempo para novos sonhos

Ao chegar aos 45 sei
Que necessidade e vontade são tão simples tão simples
Sentimo-nos sentidos
Amados aceites

Simplesmente como aos 5

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Por vezes sinto necessidade de fazer balanços
Mas não agora.

Agora,
só necessito de aproveitar
o suave balanço bom
do baloiço da vida.

Pere Salinas

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Não sou esse tipo de miúda, Lena Dunham

Deste lado do oceano, Lena Dunham é conhecida sobretudo pela co-criação e protagonismo da série Girls, de que vi apenas alguns episódios e sobre a qual não consigo ter uma opinião concreta, apenas alguns sentimentos de estranheza.
Quanto a este livro, que se assume como não ficcional, o sentimento de alguma estranheza mantem-se. Por um lado, por me identificar com alguns dos temas abordados (imagem corporal, inseguranças, relações pessoais, perspectivas profissionais), e que também fizeram parte dos meus ’20. Por outro, por perceber que, na verdade, esses temas não estão ultrapassados, apenas se sentem de modo diferente e com o peso que a idade também acaba por lhes conferir.
Outra estranheza tem a ver com este registo pouco habitual de exposição pública da nossa pessoa íntima. Até que ponto a nossa vida serve de reflexão seja para quem for, à excepção de nós próprios. E até que ponto a suposta realidade de outrem é realmente verosimilhante para a termos como referência.
Uma coisa é certa, Dunham assume a sua escrita como uma forma de manter a sanidade e de encontrar e construir um sentido lógico (ainda que apenas para personagens) impossível de apreender e de conferir à realidade das nossas vidas.


Título Original: Not that kind of girl | Tradução: Mª de almeida | Editora: Editorial Presença | Local: Barcarena | Edição/Ano: 1ª, Março 2015 | Impressão: Multitipo, A.G., Lda. | Págs.: 286 | Ilustrações: Joanna Avillez | ISBN: 978-972-23-5529-2 | DL: 388726/15 | Localização: BLX Mar 82-31 DUN (80333129)

terça-feira, 9 de maio de 2017

Clube dos poetas vivos #2


não sei se a poesia é para ser lida em voz alta
não a poesia moderna
de versos soltos e sentidos perdidos
como o autor que os desalinha
como os ouvintes que neles esperam
encontrar o sentido da vida
Pára!
A vida não tem sentido
porque terão os versos
que não são vividos por ti
que não são ditos por ti

com palavras que não são tuas!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A Arte de Voar, Altarriba & Kim

A literatura gráfica não faz parte dos meus hábitos de leitura, como tal, passa-me ao lado obras muito interessantes, como esta. Por isso, antes mais, tenho de agradecer uma vez mais as sugestões de leitura da Comunidade de Leitores do Museu Ferreira de Castro e o seu empenho em diversificar o leque de propostas. Estas têm sido uma incontornável fonte de aprendizagem.
Como afirma Pedro Vieira Moura na introdução, este livro é simultaneamente uma biografia, uma autobiografia e uma cónica histórica. Nele conhecemos o percurso de António Altarriba (pai) durante uma vida marcada pelas circunstâncias económicas e sociais, às quais, apesar dos seus esforços, nunca conseguiu vencer. Tal como a maioria dos homens e mulheres em qualquer parte do mundo.
António nasce em 1910, numa aldeia rural espanhola marcada pelo duro trabalho agrícola e pela crescente tensão social e falta de perspectivas sociais que irá desencadear, anos mais tarde, não só a segunda republica, seguindo-se a guerra civil. O combate leva-o a França onde se vê igualmente apanhado na malha da ocupação alemã. De retorno à terra natal, e abdicando dos seus valores em prol da constituição de uma família e da sua manutenção económica vê-se envolvido e enganado numa aventura empresarial que o leva novamente à quase miséria. Como consequência, acaba o seu casamento, no qual nunca foi verdadeiramente feliz e decide entrar num lar, de modo a aliviar de responsabilidades familiares o seu filho. Neste, experiencia uma depressão profunda que o leva, aos 91, a atirar-se de um quarto andar, como forma de finalmente atingir a liberdade que nunca conseguiu durante a sua intensa vida.
Este livro é uma lição de história, mas sobretudo sobre a capacidade humana de sonhar e de ser esmagado, não pelos sonhos, mas pela impossibilidade de os viver devido às contingências sociais e históricas que nos rodeiam. Um livro que nos faz refletir sobre a real capacidade que temos, ou não, infelizmente, para dar uma direcção às nossas vidas e como, apesar do esforço e vontade, o resultado é, para a maioria dos homens e mulheres, gorado.

Editora: Levoir | Ano: 2015 | Págs.: 208 | Capa: silva!designers | Ilustrações: Kim | ISBN: 978-989-682-494-5 | DL: 387334/15 | Localização: BLX BD Oli 82 BD NT ALT (80363745)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Bibliotecas, espaços de Cowork?

As bibliotecas já há muito que deixaram de ser espaços de leitura. São locais de promoção, de mediação, de aconselhamento, de disponibilização (alguma consulta), mas não da leitura efectiva. Falo inclusivamente por mim, que só leio na biblioteca por motivo de urgência ou falta de opção.
Então que procuram muitos dos nossos utilizadores? Um espaço calmo de trabalho. Longe das distrações domésticas ou do bulício de outros locais públicos. Cada vez mais profissionais dependem unicamente da utilização de um portátil e de legação à internet para realizar as suas tarefas e cumprir os seus compromissos. E essa é já uma oferta básica de qualquer biblioteca pública.
Mas poderemos oferecer mais? Acredito que sim. Não creio, no entanto, que a maioria dos profissionais e dos espaços esteja preparado para tal. Em termos de espaço, até que ponto disponibilizamos espaços para, por exemplo, reuniões de trabalho ou temos sequer espaços onde não haja o estigma do silêncio desejado. Enquanto técnicos, estamos nós preparados para algum acompanhamento de, p.e., modelos de negócio ou coaching de algum tipo? Dir-me-ão que essa não é a função de uma biblioteca. Que há outros espaços com essa dinâmica e esse core business. É verdade. Mas quando nos queremos espaços de usufruto e utilidade de e para a comunidade em que estamos inseridos, não será esta também uma opção de evolução?
O que nos falta então? Enquanto técnicos, falta-nos alargar ainda mais o nosso leque de competências ou no mínimo criar equipa multidisciplinares. O que não está assim tão longe de algumas realidades. Quantos dos nossos colegas de trabalho não têm, p.e., uma licenciatura em determinada área e uma pós-graduação em ciências documentais. Estamos a aproveitar esse potencial de conhecimento ou estamos simplesmente a colocar em prática as competências inerentes às bibliotecas? Dá-se o caso que alguns colegas não o queiram fazer. É licito e deve ser respeitado. Mas também quantos não há que sentem que podiam contribuir para um espaço mais dinâmico e simplesmente não há essa aposta ou essa receptividade.

Pessoalmente, agrada-me esse potencial de crescimento de uma biblioteca. Qual o meu papel e o dos meus colegas nesse crescimento, ainda não sei. Mas e se pensarmos todos um pouco sobre qual será esse papel?

sábado, 29 de abril de 2017

Leitura nos Transportes Públicos #17.04

Abril
Dia
Título, Autor
01
Furacão, Laurent Gaudé

Peripécias do Coração, Julia Quinn
04
The Hero of ages, Brandon Sanderson 

Crise e Crises em Portugal, Carlos LEone

O tempo entre costuras

Dalai LAma

Kafka à beira mar, Murakami

Antologia poáetica, Drummond de Andrade
06
Augustus, Adrian Goldsworthy 
11
O último Cabalista de Lisboa, Richard Zimler

Plano Infinito, Isabel Allende
12
As Desaparecidas, Megan Miranda 
18
Não me deixes, Gilly Macmillan 
20
A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafon
24
A Mecânica dio Coração, Mathias Malzieu

O Livro do Despertar, Mark Nepo 
25
Rejeitada. Jodi Ellen Malpas 
27
Lady Midnight, Cassandra Clare 

Alguém para Tomar Conta de Mim, Yrsa Sigurdardóttir 

28
A Arte de Voar, Altariba & Kim



sexta-feira, 28 de abril de 2017

A Mecânica do Coração, Mathias Malzieu

O que me atraiu neste livro foi o título e a bela imagem da capa desta edição (que na verdade nada tem a com a história relatada). Ao ler as banda nas é-me dito que a história tem um quê de Tim Burton e …, o que confere. Ainda na capa, é-me dito que estou perante um romance, o que não concordo. Creio que está mais para uma novela. Então que história é esta?
Jack, nasce em Edimburgo na noite mais fria do mundo, 16 de abril de 1874. Para que sobreviva, a sua parteira faz uma delicada operação em que instala um relógio no seu coração congelado. Esta operação lhe permite garantir a mecânica do mesmo, mas impedirá a sua adopção seja por quem for, o que não incomoda Madeleine que assim dá azo à sua maternidade possível. Incompreendido e desprezado pela quase totalidade das pessoas, Jack anseia no entanto ser aceite por uma unica pessoa, Miss Acácia, a jovem cantora, por quem se enamora a quando da sua primeira incursão na sociedade. Essa paixão levá-lo-á a debater-se com a inveja, a violência, mas também a conhecer um novo mundo e novas amizades. Mas, sobretudo, que o amor tem razões incompreensíveis à mecânica de qualquer coração.
Enquanto narrativa, estamos perante uma poética e surreal história de amor, realmente muito ao jeito de Burton, ao qual o nome do protagonista não será sequer inocente. Este foi inclusive adaptada ao cinema de animação e embora não a tenha visto, enquanto a lia imaginava perfeitamente o seu potencial estético e creio mesmo que será daquela história em que o cinema lhe fará mais jus do que a palavra escrita. À parte disso, é uma leitura agradável e com passagens de incontornável poesia e que se adequada ao pousio entre leituras mais exigentes.

Tradução: Irene & Nuno Daune e Lorena | Editora: Contraponto | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Outubro 2009| Impressão: Eigal | Págs.: 143 | Capa: Marta Teixeira | ISBN: 978-989-666-020-8 | DL: 299410/09 | Localização: BLX PF 82-31 MAL (80269814)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Oficina dos Corações (Correio Sentimental) #1

Cara Adelaide,
Depois de uma fase complicada, acho que estou pront@ para conhecer pessoas novas e queria muito iniciar uma nova relação. No entanto, receio (já) não saber agir num primeiro encontro, quanto mais se este for romântico.
Anónim@, Grande Lisboa

Car@ leitor@,

O maior senão de um primeiro encontro é o excesso de expectativas que se criam em seu redor. A tendência é racionalizar a performance ao mínimo detalhe, como se a ocasião fosse uma entrevista de trabalho decisiva. Quando a postura deveria ser mais descontraída, como quando se encontra uma antiga amizade e procuramos simplesmente partilhar algumas venturas e desventuras sem saber ao certo quando é o próximo reencontro. Por isso, se algum conselho há a partilhar é que descontraia, aproveite a oportunidade de saber algo que desconhecia sobre outra pessoa e lembre-se que o mais provável é que esse alguém esteja tão ansios@ quanto você. 

Pere Salinas

quarta-feira, 26 de abril de 2017

(Novas) Comunidades de Leitores existentes na AML

Continuam a surgir novas Comunidades ou Grupos de Leitores na área da grande Lisboa e as existentes continuam a dar cartas. Deixo vos aqui a nota de duas novas, a decorrer na Rede de Bibliotecas de Lisboa, e da celebração do 4ª aniversário de outra. 
Espero que seja uma informação útil e ajude os interessados a encontrar a(s) sua(s) comunidade(s).

Divisão da Rede de Bibliotecas de Lisboa

Jane Austen / Biblioteca David Mourão Ferreira

Periodicidade/Horário: 2º sábado de cada mês, 16h30/19h00.
Público-alvo: adulto.
Temas: Obra da Jane Austen
Dinamização: Eva Sousa
Mais informação: http://blx.cm-lisboa.pt/noticias/detalhes.php?id=1178

LER LER / Biblioteca Camões

Periodicidade/Horário: 3º quarta de cada mês, 16h30/19h00.
Público-alvo: adulto.
Temas: Ficção/Poesia
Dinamização: Escrever Escrever (Cristina Borges)

Outras

Comunidade de Leitores - Adultos (LudoBiblioteca Escola Básica Raul Lino, Monte do Estoril)

Periodicidade/Horário: 3º sábado de cada mês, 11h00.
Público-alvo: adulto, sénior.
Temas: ficção
Dinamização: Técnicas da Biblioteca 

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Artigos relacionados: 

(Algumas) Comunidades de Leitores existentes na AML

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O Último Cabalista de Lisboa, Richard Zimler

Há minha 5ª incursão na escrita de Zimler, finalmente dedico-me ao seu primeiro trabalho. Algum dia haveria de ser o dia! Apesar de não ter sido o trabalho que li com mais entusiasmo, é de louvar que a primeira obra, se já de que autor for, tenha o fulgor e a maturidade este livro apresenta. Gostei de tudo? Não. É um bom livro? Sim.
Na Páscoa de 1506, a comunidade judaica de Lisboa, foragida na sua maioria da inquisição espanhola, é atacada e morta em grandes fogueiras no largo do Rossio. Paralelamente a esse ataque verídico, acompanhamos a busca de Berequias Zarco, um estudante cabalista, na tentativa de descobrir quem assassinou o seu tio Abraão, o último cabalista de Lisboa. Deste modo, temos uma narrativa de base detectivesca ficcional com um pano de fundo histórico verídico, que o autor consegue recriar com autenticidade. O que para mim é inverosímil é a insistência do protagonista em descobrir o assassino do tio e a completa indiferença perante o desaparecimento do irmão mais novo, ainda criança. Seria um conceito de família diferente do actual. Possivelmente. Uma vez que até as poucas mulheres da trama apresentam uma maior autonomia do que esperava.
Para quem se interessa pela cultura judaica, este livro está imerso em detalhes e informações, que, a meu ver, até se tornam excessivas e, do ponto de vista da trama e da sua cadencia, saturantes. Do ponto de vista de uma diferente perspectiva da cidade de lisboa a narrativa leva-nos a olhar para vários locais e a percebe-los de uma nova forma.
É sempre um livro cuja leitura se recomenda, embora este não me tenha conquistado em particular.

Tradução: José Lima | Editora: D. Quixote | Local: Alfragide | Edição/Ano: 18ª, Maio 2011 | Impressão: Mirandela AG | Págs.: 383 | Capa: Luís Alvoeiro | ISBN: 978-972-20-4639-8 | DL: 326283/11 | Localização: BLX DMF 82-31 ZIM (80309448)