sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

27 – FINE, Miguel Martins

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis.
Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura.
Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem.
Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no chão.
Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar ao mesmo.
Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente, nem tanto.
Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que essa é a raiz da minha resistência. Crónica e aguda.
Os sentimentossão onde sei viver, onde me sinto menos morto.
Os sentimentos sou eu.
Os melhores.
Os piores.
O beijo.
A bala.
(Ou vice-vresa).
Todos os nomes da intranquilidade.
Ruminant Reserve

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Clube dos poetas vivos #6

a poesia escreve-se
não é para se falar
é uma linguagem
impossível de traduzir
fora do momento
em que se regista
sem artifícios, sem máscaras
um despir inevitável
de carácter, de alma

Maureen Drennan 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Clube dos poetas vivos #5

sustentas o cigarro
arquitetonicamente
posicionado
para o charme passado
das estrelas de 40
és a greta sem garbo
enquanto emborcas
a cerveja nacional
que melhor bate
no significado

e ouves poesia

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Oh, Harrison

O público chama-te ao palco
De novo e de novo e de novo
És o corpo de personagens maiores do que a vida
E nós queremos-te para nos dares novos sonhos
Que os meus sonhos de menina já foram ocupados
Não sou a tua filha jedi
E a minha data é 21.5.76
Resta-me o meu presente bibliotecário
E o meu passado escotista
Para almejar ser Mrs. Jones
(ou será o canivete apenas macgyveriano?)
Rivalidades à parte,
Live long and prosper
My youth you have served well!


domingo, 3 de dezembro de 2017

Morder-te o coração, Patrícia Reis

Depois de A Cruz das Almas e Contracorpo me terem conquistado e a construção de A Gramática do Medo me ter intrigado, encetei uma nova incursão pela escrita de Patrícia Reis. No entanto, esta obra não me conquistou. À primeira vista, talvez fosse uma questão de expectativas. Mas creio que é sobretudo uma questão de reminiscências. Esta leitura estava constantemente a remeter-me para a leitura de Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa, lido em 2004, e para a época em que essa autora era uma das minhas predileções.
Mas…, e é aqui que entra o mas: eu já não sou a leitora de então e esta narrativa ficou-me aquém. Não pelo estilo escorreito e de fácil leitura que aprecio na Patrícia Reis, mas pela própria narrativa. Uma narrativa que diria claustrofóbica e quase drumondiana: Mara talvez ame Anna, que ama Xavier, que ama Maria, que não ama ninguém. É uma história de amores e paixões não correspondidas ou desencontradas em que a personagens, apesar de viajadas e cosmopolitas, ou talvez por isso mesmo, não são capazes de sair de si próprias. Sobrevivem aos dias num impasse, sempre a viver o que poderia ter sido, caso tivessem sido correspondidos, e sempre a reincidir pela não correspondência.
Aqui e ali uma ou outra observação social ou cultural, uma ou outra descrição relativamente transgressora, mas fica-me pouco. Fica-me a frase leimpa, a leitura acessível, algumas imagens bem conseguidas. Mas falta-me uma profundidade inalcançável devidos às características das personagens. Como leitora, actualmente, espero outros alcances.


Editora: dom Quixote | Colecção: | Local: Lisboa | Edição/Ano: 2ª, fev 2007 (2007) | Impressão: Manuel Barbosa e Filhos | Págs.: 156 | Capa: Atelier Henrique Cayate | ISBN: 978-972-20-3268-1 | DL: 253899/07 | Localização: Pax

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Leituras nos Transportes Públicos #17.11

Novembro 
2
Segue o coração, Lesley Pearse

O enigma do mar morto, adam Blake

Devisadero, Michael Ondaatje
4
Mães e filhas, Fátima Lopes
7
A mulher de 30 anos, Honoré de Balzac

Chegar Novo a Velho, Manuel Pinto Coelho

O sonho mais doce, Doris Lessing
8
A casa na praia, Anita Shrive

Não se pode morar nos olhos de um gato, Ana Margarida Carvalho
9
O elefante de marfim, Nerea Riesco
10
O Tabu mais Doce , J. Kenner

As raparigas, Emma cline

A voz interior, J. P. Carvalho
14
 A contadora de histórias, Jodi picoult
15
Tu És o Meu Coração , Alan Lazar
16
Uma abelha na chuva, Carlos de Oliveira
18
10 anos depois, Liane Moriarty
20
Uma Mulher em Fuga, de Lesley Pearse 

Os daminha rua, ondjaki
21
Champanhe e morangos,

As 50 sombras de grey, E. L. James

Aleluia!, Bruno Vieira Amaral
22
Escrito na água, Paula Hawkins

Auto-ajuda, Tiago Gomes
26
A vida de Pascual Duarte, Camilo José Cela
29
Reaccionário com 2 cês, RAP
30
Ensaio sobre a lucidez, Saramago

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Quais os critérios de avaliação para uma comunidade de leitores?

A melhor avaliação de uma comunidade de leitores não deve ser quantitativa, embora o número de participantes activos seja um indicador do interesse e perentoriedade do mesmo. Se não passamos de 2, 3 participantes temos de nos interrogar: o que está a condicionar a nossa abrangência? Que eventuais alterações devemos implementar? O que não estamos a conseguir atingir com o nosso público-alvo?
Mas há uma avaliação que raramente é devidamente realizada: qual o impacto da Comunidade de leitores na dinâmica do nosso espaço? No caso das bibliotecas, que é a minha área de actuação, o impacto vai para além do momento da reunião. A sugestão mensal de leitura é aproveitada por (muitos) outros leitores, que encontram nesta sugestão uma forma de alargar os seus horizontes de leitura.
Ainda para além da reunião, há a comunicação que se estabelece entre todos os participantes. Uma das potencialidades da mailing list, é a de partilhar informações pertinentes consonantes com as reuniões ou como forma de dar resposta a alguma solicitação dos participantes. Mas esta é também uma das formas destes nos darem outro tipo de retorno. Por exemplo, quando não podem estar presentes – por motivos vários – alguns dos participantes, que não deixam de ler as obras – enviam as suas impressões de leitura, de modo a serem partilhadas à mesma. E se há alguma ausência reiterada, há interesse de todos em saber se está tudo bem ou apenas outros afazeres afastam os participantes das sessões. É a ligação humana que permite que um grupo de leitores, com gostos e percursos por vezes totalmente contrários, se torne realmente uma comunidade.
Já pessoalmente, uma situação que me dá a sensação de validação do meu trabalho, é quando as minhas sugestões – não sem alguns questionamentos, mas sobretudo - são aceitem com curiosidade.

Estas são avaliações empíricas que muitas vezes não transparecem em grelhas de avaliação, que tendem a resumir o nosso trabalho em números. Mas se os números podem, por vezes, não ser os mais atractivos, a relação humana e o impacto do nosso trabalho valem tudo. E se há lema que eu sigo na vida, é: “if you build it, he will come.” Ou seja, se criarmos espaços de partilha, o público virá. 
Jungho Lee

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ser juiz em causa literária (própria e alheia)

Diz o ditado que somos maus juízes em causa própria. E embora tenhamos algum pejo em admitir, sabemos que é verdade. Isso poderia fazer supor que tornasse mais fácil submeter o nosso trabalho à apreciação de outros. Não necessariamente. Seja porque não reconhecemos mérito suficiente no avaliador, seja porque receamos que a afinal a apreciação seja mais negra do que queremos admitir.
Posto isto, já me tem sido solicitado a apreciação de alguns textos, quer em fase de preparação, quer já concluídos e publicados. Quando isso acontece, tento analisar os textos da forma mais completa possível que aminha bagagem de leituras e a minha experiência de escrita permite. Se estes apresentarem uma ideia interessante, devidamente desenvolvida e forma coerente e com uma linguagem compreensível e que sirva o objectivo do texto, qualquer opinião e/ou reparos de gralhas se torna fácil. No entanto, quando o contrário acontece nem sempre é fácil encontrar as palavras para – de modo assertivo, mas construtivo – dizer tudo o que não o que não foi conseguido com o texto.
Ter uma ideia interessante para um texto é por vezes o menos importante. Mais importante é dar corpo a uma ideia. É pena quando percebemos que o autor do texto que lemos não tem uma ideia precisa do que persegue ou quer atingir. Então, o seu texto, na verdade, é um acumular de divagações imprecisas que mina qualquer tentativa de desenvolvimento, bem como a linguagem utilizada. E tudo isso transparece para o leitor que, se conseguir terminar a leitura, o fará somente por respeito ao autor.
Se há textos que, pelo seu conteúdo, adoraria ter escrito. Outros há em que só consigo invejar a tenacidade em alinhavar frases suficientes para apresentar um texto que o autor considere completo. A minha bagagem de leituras – mais do que a minha experiência de escrita – faz-me elevar os níveis de comparação literária, que me impedem de considerar apresentáveis alguns dos meus textos. Também me impede de assim o considerar os textos alheios. E não julguem que sou mais crítica com os outros do que comigo. Muito pelo contrário. Mas questiono-me se os outros autores têm capacidade de autoanálise suficiente para, no mínimo, melhorarem os seus textos, e humildade para os mostrarem a um leitor atento e capaz de formular análises sinceras e fundamentadas. Alguns dos textos que leio ganhariam imenso com um humilde processo de edição, que os transformaria em trabalhos muito interessantes e consequentemente capazes de atrair mais público.

Parece-me, no entanto, que o inebriamento com o próprio trabalho e a falta de profissionalismo de alguns responsáveis editoriais deita tudo a perder. O que comprova que, em última análise, somos realmente maus juízes em causa própria. 

domingo, 26 de novembro de 2017

A família de Pascual Duarte, Camilo José Cela

A sequência de leituras deste trimestre da Comunidade de Leitores da Bilblioteca da Penha de França, colocou-nos perante 3 autores – Mário Dionísio, Camilo José Cela e Carlos de Oliveira -, que devido à ordem cronológica de nascimento, se suporia terem obras com características similares. Ou pelo menos essa análise poderia ou não ser uma conclusão a que chegássemos. No entanto, a obre escolhida de Cela foi A Cruz de Santo André, datada de 1993, enquanto a de Dionísio e a de Oliveira são da década de ‘940. Então, para mim, não foi fácil estabelecer um paralelismo entre as três obras, uma vez que a de Cela fugia muito às características do neorrealismo. Mas e se lesse uma obra datada daquele período, encontrariam nela as mesmas características? Foi essa curiosidade que me levou a este A Família de Pascual Duarte. Conclusão: sim, lá está o neorrealismo.
Aqui, encontramos as (mesmas) personagens presas em teias socio-económicas de que não conseguem escapar, vítimas de um campo que não gera rendimento suficiente para todos os que dele dependem, sem educação suficiente (e vontade de a adquirir) que permita outras opções, de uma visão da cidade que ainda impõe uma conduta mais miserável e sem qualquer sistema de apoio (familiar ou não), com noções de honra e de conduta que ainda exigem o reparo pelo sangue ou pela força, de cuidados de saúde inexistentes ou miseráveis.
A maior diferença neste Pascual Duarte é a sua noção de que nada na história da sua família foi algo ainda que remotamente feliz e digna de futuro. Uma família cujas crianças teimam em não medrar levando consigo qualquer possibilidade de futuro. O protagonista encontra então na prisão e no processo de escrita do seu relato de vida o momento para reflectir sobre as suas acções, as suas escolhas, as suas emoções, mas que ainda assim não consegue inverter, pois a saída da prisão – o único sítio que lhe permitiu descobrir-se –de que, ironicamente, não deseja sair, dá –se para o mesmo contexto, logo induzindo-o à mesma precaridade. A estada na prisão, onde começa ou a germinar a consciência pessoal, não foi no tempo suficiente para fazer materializar a transformação necessária ou possível.
Em termos de comparação com a Cruz de Santo André, este é também um relato - na primeira pessoa - de um desmoronamento (previsível), em que a figura da mulher assume um papel preponderante, uma vez que é a sua capacidade de amar /ou não) que dita todo, pois o que deveria ser uma fonte de vida, é apenas um prenúncio de morte.

Título Original: La família de Pascual Duarte (1942) | Tradução: Jener Cristaldo | Editora: Difel | Local: São Paulo, Brasil | Edição/Ano: 1986  | Págs.: 146 | Capa: Ramon Sepulveda | DL: 113.148 | Localização: BLX PG 83-31-CEL (117177)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O que escrevemos não muda quem o lê, muda quem o escreve

Todos gostamos da ideia de que, quando decidimos partilhar os nossos escritos, poderemos influenciar ou mudar a opinião de alguém sobre um tema. Mas essa consequência é muito mais rara do que julgamos. Ainda assim, não devemos menosprezar essa raridade. Afinal, é especial.
O poder transformador da escrita não é exterior, é interior. Quem o pratica, ao delinear ideias, argumentos, palavras, vê-se confrontado com as suas limitações, incompreensões e preconceitos. Através da escrita (e da sua (re)leitura) conseguimos colocar-nos num lugar suficientemente distante para nos observarmos, como fariamos a outra pessoa. O que vemos nem sempre é apaziguador. É uma experiência extra-sensorial ou corpórea, que pode ser aterradora. Mas a vantagens de enfrentarmos os nossos terrores é a perspectiva de os ultrapassar.

Não sei quantificar todos os momentos em que me percebi diferente depois de escrever um texto. Mas consigo identificar alguns desses momentos cruciais. Gostaria de constactar que estes resultaram numa maior compreensão do outro, numa maior capacidade de aceitação e tolerância. Sim, quero pensar que sim... mas o certo é que me obrigaram a olhar para partes de mim que desconhecia e muitas delas tenho até pudor em admitir. Escrever transforma-me. Qual a abrangência ou impacto dessa transformação, só o futuro o dirá. O certo é que o futuro começa hoje...

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Os livros das nossas vidas, Mendo Henriques e Natália Barros

Quem escreve quer falar com alguém, quer narrar uma história, um acontecimento, uma descoberta, uma ideia, uma ironia, uma dor, nm que seja consigo próprio. O processo pode ser solitário, mas é sempre busca de relação, espécie de oferenda, e entrega aos outros.” (p. 179)

Sabem aqueles livros que gostaríamos de ter escrito? Este é um deles. Não por falar de livros, o que à partida era meio caminho andado. Mas pelo modo como estes nos são apresentados. Os autores defendem que a leitura de livros, na sua imensidão de géneros e autores, deve, como qualquer dieta alimentar, ser variada e equilibrada.
Como “somos o que lemos” (p. 18), devemos equilibrar leituras e ler com frequência. Segue-se uma interessante analogia entre os diferentes géneros literários e as nossas necessidades alimentares, não esquecendo que a nossa dieta não deve esquecer que “tudo depende do que nos queremos apropriar. (…) os modos dependem dos propósitos (…) distrair, aprender, decorar, desfrutar, recordar, comparar.” (p. 24)
Depois... depois há o modo (aparentemente) simples, sucinto e apelativo como tudo nos é apresentado: os livres marcantes da humanidade, o porquê da sua importância, o impacto que provocaram (e continuam a provocar). De tal modo, que este livro funciona como um aperitivo que nos abre o apetite para iniciar livros que à partida não fariam parte da nossa dieta, contribuindo assim para a nossa qualidade de vida e para a nossa maior visão do mundo e das suas subtilezas.
Mas mais do lerem sobre o livro, leiam-no. Será tempo bem investido!
Editora: Objectiva | Colecção: olá, consciência | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Maio 2016 | Impressão: Printer Portuguesa | Págs.: 190 | Capa: Panóplia ® | ISBN: 978-989-665-056-8 | DL: 409542/16 | Localização: BLX PG 028/MEN (80378263)

domingo, 19 de novembro de 2017

Táctica estética ou estava difícil, Tiago Gomes

Segue-se uma estética
para chegar ao íntimo das coisas
e sugar-lhes o sumo
ou antes, o néctar,
ou melhor, o licor,
quero dizer, o elixir,
isto é, a essência,
porra, a poesia.

Erotica, Blommers Niels Schumm

sábado, 18 de novembro de 2017

Os editores apostam na promoção da leitura?

Assisti, esta semana, à iniciativa “O que vamos ler em 2018? Receitas para leitores atentos?”, promovida pela Associação Nacional de Farmácias e que decorreu no, muito interessante, Museu da Farmácia, no Largo do Calhariz. Além de uma apresentação de sugestões de leitura, o encontro foi antecedido por um debate moderado por Luís Caetano (quando for grande quero ter esta capacidade de expressão, de articulação, de timming), sobre a edição, entre diversos editores nacionais, a saber: Diogo Madre Deus, pela Cavalo de Ferro; Mª do rosário Pedreira, pela Leya; Manuel Alberto Valente, pela Porto Editora; Francisco Vale, pela Relógio d’água; e Barbara Bulhosa, pela Tinta da china.
Como seria de esperar, foram abordadas questões como o mercado da edição, as experiências e apostas de cada editor, os hábitos de leituras nacionais, as perspectivas de futuro… bem o habitual. E não é que o habitual não tenha importância. Tem.
A minha questão é: porque é que nunca vejo um debate entre editores que aborde a questão da promoção da leitura? Ou seja, falam sempre dos (baixos) hábitos da leitura dos portugueses e das perspectivas poucos animadoras para o futuro devido à cada vez maior abrangência das tecnologias no nosso quotidiano. De quando a quando vem à baila a importância do Plano Nacional de Leitura e as incoerências e/ou incongruências. Mas o certo é que, até ao momento, nunca vi um editor que afirmasse algo do género: a nossa editora está a desenvolver um plano estratégico, em parceria com a instituição y, no sentido de apoiar iniciativas de promoção da leitura.
E não nos enganemos. As suas estratégias de promoção (comercial) do livro não são estratégias de promoção da leitura. São estratégias de mercado.
Porque é que nestes debates nunca vejo representadas as bibliotecas? Seja pelos seus responsáveis, seja pelos seus técnicos. Aqueles que quotidianamente fazem um trabalho sistemático de promoção do livro, da leitura e das literacias e que tem perspectivas diferentes sobre os hábitos de leitura dos portugueses. Na prática, e em última análise, os editores ganham, ainda que a longo prazo, com o nosso esforço, empenho e dedicação. Mas raramente os vejo ter uma palavra de apreço. Esquecem-se que se têm o público que têm, o devem muito a nós. Esquecem-se que, se o nosso trabalho cessar repentinamente, são eles que mais perdem a curto prazo. Mas a longo prazo, perde toda uma sociedade. E isso sim, é uma perspectiva negativa de futuro.

Então e que tal partilhar esforços e responsabilidades na criação de hábitos de leitura para o futuro? Pensem nisso, senhores editores… Agradeço!

Foto de Museu da Farmácia.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Dez Anos Depois, Liane Moriarty

Esta foi uma leitura surpreendente, não por ser um livro excepcional, mas porque nos oferece uma história. Pura e simplesmente uma história. E por vezes, gostamos de ler apenas uma história. Sem tramas complexas, apenas o desenrolar do que seria o quotidiano de pessoas reais, se fossem personagens. Sem um discurso pretensioso, que os críticos por vezes consideram poético, apenas porque não há a coragem de admitir que é apenas confuso ou mal construído. Uma construção e conjugação de episódios eficaz, em consonância com o desenvolvimento intencional e emocional dos personagens. Ou seja, é um produto da escola anglo-saxónica de escrita criativa bem conseguido. E isso não é demérito nenhum. Tomara muitos escritores (e aspirantes) dominarem deste modo os diversos recursos estilos de modo a materializarem as suas narrativas. Poderia ainda ser ter um estilo mais profundo. Sim, poderia. Mas não menosprezemos este tipo de história e tiremos as devidas lições.

Sobre a história - muito cinematográfica - propriamente dita, relata a experiência de mulher que, após uma queda, perde a memória dos últimos 10 anos. Há medida que se apercebe da sua nova realidade, e que a sua actualidade nada tem a ver com as memórias que realmente possui, vai colocando em perspectiva algumas das suas opções e relações, o que contribui para um novo e inesperado crescimento individual. No final, comme il faut, tudo acaba bem, mas não de forma gratuita.