quinta-feira, 19 de julho de 2018

Viver dos livros*

* Uma adaptação a partir de Viver do Amor, de Chico Buarque

Pra se viver dos livros
Há que esquecer a literatura
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
- como um funcionário

Há que penar na literatura
Pra se ganhar nos livros
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador

Ai, o livro
Jamais foi um sonho
A literatura, eu bem sei
Já provei
E é um veneno medonho

É por isso que se há de entender
Que a literatura não é um ócio
E compreender
Que os livros não são um vício
A literatura  é sacrifício
Os livros são sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
- como um missionário



quarta-feira, 18 de julho de 2018

Viver do Amor, Chico Buarque

Pra se viver do amor
Há que esquecer o amor
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
- como um funcionário

Há que penar no amor
Cris Valencia
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador

Ai, o amor
Jamais foi um sonho
O amor, eu bem sei
Já provei
E é um veneno medonho

É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
E compreender
Que o amor não é um vício
O amor é sacrifício
O amor é sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
- como um missionário

terça-feira, 17 de julho de 2018

Não escrever é deixar o futuro em aberto


Se tudo correr bem, ao percorrermos um livro obteremos uma série de estímulos que colocará o nosso cérebro perante uma multiplicidade de ideias e pensamentos, mais ou menos articulados, completos ou  coerentes. Idealmente, o livro é um ponto de partida para uma espécie de fogo de artifício criativo, que necessita do seu tempo para assentar e integrar-se em nós. Este assentamento, para mim, dá-se maioritariamente através da escrita e, regra geral, necessito de uns dias para verter para o papel algumas das minhas percepções, entendimentos e conclusões sobre aquilo que leio. No entanto, transcrito no papel acabam por ficar apenas uma ou duas ideias mais gerais, ficando muitas outras apontadas em tópicos em que, na verdade, tarde ou nunca pegarei.
Por vezes lamento que assim seja, mas é assim mesmo que processamos a informação que nos chega: selecionamos o mais relevante ou, por vezes, o mais exequível dentro das nossas circunstâncias do momento, e deixamos num idealizado stand by tantas outras ideias para explorar. Este torna-se um utópico mais tarde que teimamos em não materializar e em que optamos por deixar em aberto possíveis futuros alternativos.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, Stig Dagerman

Este é possivelmente um dos mais bonitos título com que nos podemos deparar e simultaneamente um dos mais tristes livros que possamos ler. As suas poucas páginas, de pequena dimensão, tornam esta uma leitura rápida. Já o tema abordado torna esta cerca de meia hora quase tormentosa e muito mais demorada do que o tempo cronológico. Ou talvez este não tenha sido o livro certo no momento certo.
Este pequeno texto fala, como o título indica, sobre consolo e insatisfação, contextualizando-os a nível da depressão e tendo como consequência possível o suicídio. Através de imagens de extrema beleza, dá uma possível aproximação à compreensão deste estado de espírito, que se percebe crónico no autor, que é o insustentável peso de viver. No entanto, a versão para palavras deste sentimento chega-nos também como impossível de traduzir, sendo a nossa compreensão igualmente insuficiente.
“A depressão é uma boneca russa, e na última boneca estão a faca, a lâmina de barbear, o veneno, as águas profundas e o salto para um grande abismo.” (p. 28)
Título Original: Värt Behov av tröst, 1955 | Tradução/Versão: Paula Castro & José Daniel Ribeiro | Editora: Fenda | Local: LX | Edição/Ano: 5ª, Jun 2004 | Impressão: Manuel Pacheco | Págs.: 45 | Design: João Bicker | ISBN: 989-603-003-0 | DL: 214177/04 | Localização: BLX OR OUT-GEN EST  DAG (80096085)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Dancemos no Mundo, Sérgio Godinho

Isto é como tudo 
não há-de ser nada 
a minha namorada é tudo que eu queira 
mas vive para lá da fronteira 

Separam-nos cordas 
separam-nos credos 
e creio que medos 
e creio que leis
nos colam à pele papéis 

Tratados, acordos 
são pântanos, lodos 

Pisemos a pista
é bom que se insista 
dancemos no mundo

Maria Uve

terça-feira, 10 de julho de 2018

a estranha alquimia que norteia a escolha da próxima leitura


Se é difícil explicar a estranha alquimia que se estabelece enquanto percorremos e interiorizamos um livro. É talvez ainda mais difícil explicar a estranha alquimia que nos faz avançar para o próximo objecto de leitura.
Colocam-se tantas questões em simultaneo: já e, senão agora, quando? do mesmo tema ou diametralmente oposta? do mesmo autor ou uma escrita desconhecida? pela capa, pelo design, pelo volume, pela mancha gráfica? pelo titulo, pelo resumo na badana, pela tagline ou pela sinopse hermética na capa posterior? por sugestão de um amigo, pela crítica avalizada num periódico especializado ou pelas inúmeras listas e best ofs sazonais? pela capa vislumbrada num transporte público ou pelo escaparate numa loja?
Terminar uma leitura pode ser angustiante, mas mais angustiante ainda pode ser selecionar uma nova leitura.


segunda-feira, 9 de julho de 2018

Acabar de ler um livro é um momento estranho


Mesclam-se a satisfação de terminar o percurso por um objecto que nos é caro e a angústia de terminar o contacto com personagens, locais e histórias que nos têm acompanhado durante horas e dias. Até semanas. É um sentimento agridoce. Se, por um lado, a memória permanece, por outro, há um vazio que importa aliviar. Como? Dando espaço a novos personagens, em diferentes locais em apaziguadoras ou rocambolescas histórias que nos habitarão até uma nova despedida. Uma e outra e outra vez. Tantas quantas nos permitirmos.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Sempre vivemos no castelo, Shirley Jackson


Este livro foi-me emprestado no final do ano passado por um participante da Comunidade de Leitores e tem estado em stand by até ao momento. Não fazia a mínima ideia do que esperar deste título e autora completamente desconhecidos para mim. Ao percorrer a capa, a palavra gótico surpreendeu-me, mas deixou-me apreensiva. Desde a faculdade que o gótico, como estilo, não faz parte do meu percurso de leituras e, como percebem, não faz exactamente o meu gosto. no entanto, esta leitura foi uma grata surpresa.
É uma história de subtilezas em que o que nos é mostrado à primeira vista  é apenas uma aparência do que as personagens nos vão gradualmente apresentando ou deixando entrever. Merricat e Connie são duas irmãs que cuidam do tio Julian, um idoso preso a uma cadeira de rodas, e que vivem sós na velha casa de família. Há 6 anos que Merricat é a única que sai fora do terreno adjacente à casa para se dirigir 2 vezes por semana às compras na aldeia, onde é sempre olhada de soslaio e vítima de comentários depreciativos. O que aconteceu há 6 anos que ditou a reclusão desta família? Vem-se a saber que morreram envenenados com arsénico e Connie, apesar de ilibada pela justiça, continua a ser vista como culpada pelos habitantes da aldeia.
Não obstante a adversidade, a família vive numa harmonia que volta a ser posta em causa pela chegada de um primo há muito arredado do contacto e que tem como consequência a destruição parcial da casa, a morte do tio e a reclusão total das irmãs. E mais algumas revelações sobre a dinâmica familiar.
Toda a ambiência do livro me fazia relembrar o filme Os Outro, de Alejandro Amenebar. No entanto, esta não é uma história de fantasmas. Não ainda. Mas é o relato de como nascem as histórias de folclore que se perpetuam e servem para assustar as crianças durante gerações. É uma história sobre incompreensão do outro (palavra repetida inúmeras vezes), de como o amor entre irmãs se pode tecer de total abnegação e também de impossibilidade de partilha, de como a irracionalidade do grupo vence a humanidade. É uma straight story, mas que nada tem de simples ou simplista e cuja linearidade é colocada em causa pelo pouco e pela estranheza do que sabemos sobre as personagens.
Título Original: We have always lived in the castle | Tradução: Mª João Freire de andrade | Revisão: Mª Aida Moira | Editora: Cavalo de Ferro | Colecção: | Local: LX | Edição/Ano: 1ª, abr 2010  | Impressão: Grafiche del Liri | Págs.: 2017 | Capa: Razzmatazz Design | Ilustrações: | ISBN: 978-989-623-119-4 | Localização: Emp RA

domingo, 1 de julho de 2018

Nada a dizer, Elvira Vigna


Entre a leitura do livro e a escrita deste pequeno texto passaram-se várias dias e mais algumas leituras. Neste entretanto, o título do livro pareceu ganhar mais sentido para mim: não há muito a dizer sobre o mesmo. Ou talvez até haja, e este seja um daqueles casos cujo conteúdo não me cativou. Ainda assim, vamos lá…
Encetei esta leitura com o objectivo de romper com o registo de leituras dos últimos meses e sabendo, de antemão, que os autores brasileiros são exímios na utilização prosaica da língua portuguesa, resolvi, igualmente, conhecer o trabalho desta escritora. Nesse sentido, o livro correspondeu plenamente Às minhas expectativas. Quanto ao conteúdo, à história propriamente dita, embora tenha apreciado o processo de escalpelização da protagonista relativamente à sua relação com o marido e o modo como cada um a encara, a conclusão que a autora dá à mesma não me surpreende, nem acrescenta nada que me entusiasme.
Revisão: Marta Elias | Editora: Quetzal | Colecção: língua comum | Local: Lx | Edição/Ano: 1ª, fev. 2013  | Impressão: Bloco Gráfica, Lda. | Págs.: 174  | Capa: Rui Rodrigues | ISBN: 978-989-722-074-6 | DL: 352542/12 | Localização: BLX PF 82P(81)-31/VIG (80398122)

sábado, 30 de junho de 2018

Leitura nos Transportes Públicos #18.06

Junho
1
As raparigas esquecidas, Sara Blaedel

Perigo! Duas caras, Margarida Vieitez

Jogos de Raiva, Rodrigo Guedes de carvalho
5

Scandal in Spring, Lisa Kleypas

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

O estranho caso do cão morto, Mark Haddon
7
Gelo ardente, Clive Cussler

História da Menina Perdida, Elena Ferrante
8
Sem perdão, Julie Garwood
12
Capitães da areia, Jorge Amado

Um Lugar no Paraíso, Vitor VilaVerde

Águas profundas, Robert Bryndza
14
Águas profundas, Robert Bryndza

18
A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da, Mark Manson

Almanaque Bertrand

L’enigme d’art contemporaine

A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da, Mark Manson
19
O museu da inocência, O. Pamuk
21
O ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago

Uma mulher em fuga, Mario MacGilvary

O labirinto dos Espíritos, Carlos ruiz zafon

Os Malaquias, Andrea del Fuego
22
Um homem com sorte, Nicholas sparks

Pais conscientes, Shefali Tsabary

Equador, Miguel Sousa Tavares

Fábian e o Caos, Pedro Juan gutierrez
26
Alerta Vermelho, Bill Browder

Aprender a rezar na era da técnica, Gonçalo M. Tavares

Red rose, white rose, Joanna Hickson

A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da, Mark Manson
27
Traição, Danielle steel
28
Originais, Adam Grant
29
Nada a dizer, elvira vigna

sexta-feira, 29 de junho de 2018

O poema, José Tolentino Mendonça

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há verdadeiro poema que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para além daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.
Ben Nicholson, 1934

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Compromisso(s) de leitura(s)


Hoje, com a última sessão da nossa comunidade de leitores da Penha de França pré- pausa estival, termino um ciclo de leituras em prol de projectos profissionais. Bem, termino não, faço uma pausa. Porque em Setembro, retomo o compromisso de as efectuar a par da calendarização de leituras quer da CL, quer do projecto Escrita em Dia (EED). Até lá, vou variar um pouco… será? 
A minha intenção nos próximos 2 meses é equilibrar um pouco a leitura de autores estrangeiros, uma vez que a literatura nacional tem sido a tónica dominante destes últimos meses, e algumas leituras técnicas, pois quero descansar um pouco da ficção. Mas, como sempre, não posso garantir nada, porque há leituras que se encadeiam e livros que inesperadamente chamam por nós, sem que possamos fazer muito acerca disso.
Mas vamos então a um balanço das leituras deste primeiro semestre de 2018. Até ao momento, li 26 livros (se não me enganei ou esqueci algum na contabilização. Não seria a primeira vez). Desses, 21 foram lidos no âmbito quer da CL, quer do EED. Ou seja, apenas foram “extra-curriculares”. Utilizo este termo porque desde a faculdade que não leio mais de 2 livros de um mesmo autor próximos um do outro. Nestes últimos meses, embora tenha tentado intercalar a leitura de diferentes autores, acabei por ler cerca de 3 a 4 livros de um mesmo autor e, na verdade, sinto que tornei a fazer um breve curso em literatura contemporânea nacional. Pois, em 6 meses, só li 2 livros de autores estrangeiros (Rosa Montero e Clarisse Lispector), o que também não é nada habitual. Apesar de nos últimos anos ter vindo a dar muita atenção à nossa literatura, no entanto, nunca o tinha feito de forma tão marcante.
Mas o que mais vai marcar o meu período de pausa entre compromissos de leitura é que sinto igualmente a necessidade de efectuar uma pausa na leitura em geral. Pelo menos uns dias, uma semana, quem sabe. Na verdade, não me vejo a conseguir fazer uma pausa maior, mas também é real esta necessidade que sinto de fazer uma espécie de reset antes de iniciar um novo período de leituras que se prevê igualmente desafiante, profícuo e intensivo.
Mas, seja qual for o percurso das minhas próximas leituras, ele ficará aqui registado de vários modos. Por isso, é só ir dando alguma atenção aqui ao estaminé. If i read it, it will show.
Foto de Adelaide Bernardo.
As próximas leituras...

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A noite abre meus olhos, José Tolentino de Mendonça

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só
Sally Nixon

quarta-feira, 20 de junho de 2018

fui buscar mais uma cadeira para colocar à mesa das ausências


Estava a preparar-me para escrever um texto sobre os 20 anos que se completam este ano sobre a conclusão da minha licenciatura. Em especial, alguns momentos desse verão que perduram na minha memória.
Essa intenção caiu por terra com a notícia de que alguém partiu cedo demais. Inevitavelmente, a estes 20 anos acrescentaram-se mais uns 7 e recuei ao 10º ano. Foi nesse período que a Vanessa entrou nas nossas vidas. Na minha e da Carla e da Susana, cuja amizade leva uns anos de vantagem, mas não de importância. Criou-se então um pequeno grupo de 4 que apesar do tempo e da distância sempre se acompanhou, apoiou e foi reencontrando.
Como calculam, fiquei sem palavras e com o coração pequenino. Volto constantemente à memória de uns meses atrás, quando passámos um dia feliz em sua casa, numa alegre cavaqueira em família. Misturámos recordações, coscuvilhices, alguns projectos e expectativas e a promessa de um novo encontro. Claro que falhámos essa promessa. Ou não. Reencontramos-nos realmente, mas de forma totalmente indesejada.
Nestes dias senti necessidade de abrandar. E durante este abrandamento fui buscar mais uma cadeira para colocar à mesa das ausências. Não deveria ser já, não deveria ser deste modo. Mas a morte nada tem de justo, de merecido ou de justificável. É apenas assim. Inexplicável perante o nosso parco vocabulário. Talvez só mesmo Deus tenha os melhores à Sua mesa eterna. Sendo ela bastante crente, espero que assim seja.
Todos nós ficámos marcados pela sua presença e essa marca perdurará felizmente muito para além destes dias embaciados em que estamos todos a aprender a gerir a sua ausência. Agora, o meu pensamento vai para com a família Arruda, que terá de aprender a viver com a indentação irreparável da sua ausência física.