quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Diário dos dias ausentes

Desfio a memória e os dias ausentam-se. Batem em retirada a cada passo dado em sua direcção. Transformam-se em ténues paredes translucidas que se desfazem em névoa quando o gesto as tenta alcançar. Falha a acção, e o sentido apreende gotículas que prenunciam a ilha encantada, que nunca chega a apresentar-se ao gesto e ao olhar. Perde-se assim o registo dos dias ausentes. 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Rasgos

A literatura só me salvará enquanto ponto de partida para me reflectir e consequentemente consciencializar do que, não me agradando, é necessário transformar e passar à acção. Sem essa passagem, a literatura é só literatura. É inação. É uma parede que defende um inócuo espaço vital. Uma vez que na maioria das ocasiões me impede de interagir com quem me rodeia.

Estar em qualquer outro lugar, ainda que imaginário, impede-nos de viver. Mesmo que, segundo a maioria, esse viver seja o mero cumprimento de rotinas e expectativas, nem sempre nossas. E percebo que o que antes me parecia ingenuidade ou vergonha é na verdade inépcia.

Não fui feita para este correr, para esta formatação, para este despropósito. Por isso me refugio na literatura. E sabendo-a um refúgio, de quando em quando, faço pequenos rasgos para me integrar no mundo. Pequenos rasgos.


sábado, 14 de janeiro de 2017

Português para Estrangeiros


Esta semana, dei início à terceira edição deste projecto, que estava a dar os primeiros passos o ano passado, também por esta altura. Muita coisa aconteceu neste ano. Conheci muitas pessoas, de países que não me passaria pela cabeça, aprendi muito… e continuo a aprender. O que me deixa muito feliz!
Em jeito de síntese, saliento que nunca esperei receber tanta diversidade de participantes: desde a vizinha Espanha até ao mais longínquo Nepal. (Uau! O topo do mundo veio até mim. Ainda me parece inacreditável.) Destes, a sua maioria são mulheres. Dos mais variados estratos sociais e com os mais variados contextos culturais: desde jovens adolescentes em intercâmbio de estudantes até mães de família quase analfabetas. Passando por profissionais com formação académica a nível de doutoramento, funcionários de embaixadas e artistas. O mundo tem-se reunido regularmente numa pequena sala na Biblioteca da Penha de França.

Se no início tinha alguma insegurança. Afinal, questionava-me: o que tenho para oferecer a pessoas oriundas de países e realidades tão díspares. Hoje, sinto-me grata por ter abraçado este desafio e a questão que me coloco é outra: como levar este projecto mais além? Não só em termos de abarcar um maior número de participantes, mas de retornar este potencial humano e de conhecimento exactamente em prol da comunidade a que pertencem. Ainda não tenho uma resposta concreta, mas estou a pensar nisso!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Livro do Ano, Afonso Cruz

“Não é fácil fazer um dia. (…) Especialmente porque não há dias onde meta estes dias.” p. 136

Uma menina, insatisfeita por não existir o dia 30 de Fevereiro, uma menina inicia um diário em que pretende “… escrever as memórias dos dias que não existem no calendário.” (p. 136) O que resulta no curioso diário gráfico.

Editora: Alfaguara | Local: Carnaxide | Edição/Ano: 1ª, Fev. 2013 | Impressão: Rainho & Neves, Lda. | Págs.: 141 | Capa: Panóplia, sobre ilustração de Afonso Cruz | Ilustrações: Sim | ISBN: 978-989-672-161-9 | DL: 354548/13 | Localização: BLX PF 81P-1/CRU (80339749)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pára em mim!

Para o bem e para o mal, o que dizemos e o que fazemos tem repercussões. Na sua maioria inimagináveis. E tal como as máximas violência gera violência e gentiliza gera gentileza temos que estar cientes de que colhemos o plantamos e geramos. E também que colhemos os que outros plantam e nós permitimos.
Trabalho quase todos os dias no sentido de saber distinguir o que deve ou não ser plantado. Há coisas óbvias, mas outras são tão subtis que por vezes embarcamos simplesmente na onda de outros. É mais fácil. E é essa área difusa que pretendo clarear.
Procuro colocar pontos finais naquilo que considero ter uma mensagem negativa ou que pela sua natureza volátil e/ou ofensiva possa gerar discórdia e desentendimentos. Acabamos com as situações? Não, mas também não instigamos nem contribuímos para o seu avanço e, em última análise, promovemos a sua regressão.

E o que tento propagar? O que considero útil, positivo, que permita obter novas perspectivas, através da reflexão e consequente transformação dos nossos pensamentos e actos. Para melhor. Espero. Não por uma vã noção de perfeição. Mas por uma noção de aperfeiçoamento. 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Limpeza de ano novo

Aproveitei o fim-de-semana de final de ano para fazer uma limpeza no roupeiro. Afinal, tenho de me desfazer do velho se quero dar espaço ao novo. Não é que esteja a pensar adquirir novas indumentárias, estava mais era a necessitar de despedir-me das antigas. É que tenho muita dificuldade em virar a página e em desfazer-me seja de objectos, seja de roupas. Então, de quando em quando, tenho de me obrigar a tal feito.
Mas este processo, aparentemente simples, pode ser psicologicamente complexo, porque, se formos sinceros connosco, confronta-nos com algumas realidades incómodas. No que diz respeito à roupa, o que mais me custa é que, mesmo continuando a gostar de determinadas peças, o meu corpo já não se enquadra nelas. Seja pelas diferenças e oscilações de peso ou porque a gravidade já não é a mesma. Pode até ser que esta constatação contribua para que em 2017 volte às caminhadas.
Por falar em caminhadas, que tal o assunto sapatos? Pois é, a idade trouxe-me joanetes e estes obrigam-me a pensar o calçado que compro e também o que não voltarei a usar. Como os dois pares de calçado de cerimónia que não usava há mais de 10 anos, mas cujo salto e elegância fizeram com que fossem permanecendo no fundo do roupeiro. Na verdade, não espero participar em grandes cerimónias num futuro próximos e mesmo que as haja lá terei de encontrar outra opção mais viável inclusive para o dia a dia.
Separei-me igualmente de algumas peças que marcaram alguns momentos como algumas roupas que comprei por necessidades profissionais, ou porque queria logo novo para determinada situação, ou até para marcar alguns inícios. Gostamos sempre de marcar um início com uma nova toilette, não é? Percebi igualmente que não dei certas roupas por um receio de perder a memória afectiva a elas ligadas. Ou seja, funcionaram durante muito tempo como um atalho para viagens ao passado. Mas o passado não volta e a memória simples que permanece terá de bastar.
A nossa roupa reflete o que somos. Hoje. Não ontem. Mas não pensem que só possuo roupa nova. Não. Dou por mim a perceber que algumas roupas ainda têm valor para mim. Como uma camisola com cerca de 15 anos que ainda visto uma, duas vezes por mês. Ou uma saia de verão ao xadrez. Ou as botas dos escoteiros que herdei do meu sobrinho. Ou o casaco de inverno que herdei da minha mãe.

Quanto às indumentárias que saíram do roupeiro, foram depositadas num contentor de recolha de roupa para fins sociais. Quanto às minhas próximas aquisições, serão mais espaçadas, e antes de o fazer penso várias vezes se realmente necessito da peça em questão. Tenho pensado : que quantidade de roupa afinal necessitamos. Não chego às medidas drásticas que vejo em certas noticias, mas penso o seguinte: para encher uma máquina de roupa de sete quilos, necessito acumular roupa de praticamente duas semanas. Então tento manter o número de roupa quotidiana em quantidade para encher uma máquina, sendo que isto funciona um pouco por estação: verão, inverno e meia estação. Com variantes de roupa interior, de dormir, de fora e agasalhos. E, sim, continuo a ter duas ou três peças um pouco mais especiais para alguma eventualidade. Afinal, sou mulher. Agora, só me falta comprar uns sapatos para a ocasião!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

As minhas lembranças observam-me, Tomas Transtormer

Dando seguimento ao meu objectivo de ler pelo menos um livro de um premiado com o Nobel da literatura, peguei desta feita neste pequeno volume de Tomas Transtormer, laureado em 2011, pela sua poesia. Por ventura, este poderá não ser demonstrativo das suas competências literárias, ainda assim, era-me disponível e acessível, e demonstrou ser de leitura rápida.
O presente volume foi escrito aos 60 anos do autor e procurava, não olhar para o que foi a partir do olhar de hoje, mas sim regressar à sua visão de então, tanto quanto a sua memória o permita. (“Histórias recicladas, recordações de recordações.” p. 11) O autor relata as suas circunstâncias familiares (a separação dos país, a profissão da mãe, a família alargada) e também os seus primeiros gostos, paixões e ódios, destacando-se o impacto da II Guerra Mundial, a sua ideologia, a austeridade do sistema educativo vigente, o desejo de anonimato/invisibilidade. (“A arte de ser pisado conservando a dignidade." p. 35)
o volume finaliza com alguns dos seus poemas de juventude, recolhidos de algumas publicações escolares da época e que permitem comparar as lembranças e a produção literária contemporânea do autor.
"Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim todos os meus rostos anteriores, como uma árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores." p. 55
Tradução: Ana Diniz + Alexandre Pastor (poemas) | Editora: Sextante | Local: Porto | Edição/Ano: 1ª, Setembro 2012| Impressão: Bloco Gráfico, lda. | Imagens: sim | Págs.: 101 | Capa: Ateleier Henrique Cayatte | ISBN: 978-972-0-07176-7 | DL: 348141/12 | Localização: BLX PF 82-34/TRA (808316676)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

#93.16 @ 103/1003: 40

Tenho estabelecido, nos últimos anos, ler 40 livros por ano, porque considero que é um nº exequível e ajustado ao meu ritmo de leitura. Que não é exactamente célere. E tem-se revelado o nº certo.

Na prática, leio muitos mais livros, mas opto por não incluir neste computo os livros infantis, que leio, quase exclusivamente por necessidade profissional, e sobre os quais me exijo outro tipo de reflexão mais funcional. Ou seja, leio-os sempre sobre a premissa da sua adequação, ou não, a uma actividade no âmbito da promoção do livro e da leitura. E isso reservo para outras reflexões.

Então, como chego às minhas opções de leitura? Uma das minhas intenções ao estabelecer objectivos de leitura (que à partida eram 16) é colmatar algumas lacunas no conhecimento de autores e géneros. Por exemplo, os clássicos (#97). No entanto, e como considero outras leituras prioritárias, acabei por desistir deste objectivo. Outros objectivos, optei por colocar em stand-by e, se tudo correr bem, dedicar-me-ei a eles no próximo ano. É o caso da leituras das obras vencedores de alguns prémios literários nacionais, como o Prémio Saramago e o Prémio Leya. Entre os atingidos, um dos que me orgulho é ter lido 10 livros de autoras nacionais, que, muito erroneamente, nem sempre constam nos hábitos de leitura de demais leitores.

Estou satisfeita com o percurso de leituras que fiz este ano e que, por diversos motivos, ainda não consegui deixar aqui um registo das minhas impressões sobre as mesmas. No próximo ano, e se tudo correr de acordo com as minhas expectativas, este percurso terá algumas alterações e será composto, no último semestre, por leituras mais técnicas, o que talvez implique o não cumprimento de todas as minhas intenções de leitura. A ver vamos. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Outro Pé da Sereia, Mia Couto

A viagem termina quando encerramos as nossas fileiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar.” (p. 449)
Voltar a um livro, quase dez anos depois, não é voltar a um mesmo livro. É descobrir um novo. E não sei se me deva amedrontar com o facto de não recordar nada da história a não ser o facto de que a sereia emquestão era apenas figurada ou, melhor, figurante.
Esta é uma tipica história de Mia Couto em que predomina uma prosa poética que oscila entre o realismo e a magia do que não se sabe explicar. Desta feita, acompanhamos uma jovem mulher que retorna à sua aldeia para buscar um lugar sagrado para guardar uma imagem em madeira de uma santa, cujo pé lhe falta. Nessa viagem ao seu passado e às ruínas em que hoje consiste o lugarejo de Vila Longe cruzam-se outros passados, nomeadamente a história que levou a santa, cerca de 400 anos antes, até ali.
A meu ver, esta é uma história de fantasmas, que se reencontram uma vez mais para, quem sabe, finalmente poderem acertar as suas contas e deixar de vagar pelos espaços que anteriormente ocuparam, presos a um passado já inexistente. E, simultaneamente, destacam-se dois aspectos de reflexão: um sobre a condição do negro e outro sobre a condição da mulher.
O primeiro está muito presente nas personagens dos americanos, que buscam uma história do impacto da escravatura que se encaixe na sua imagem preconcebida da mesma, e na de Zeca Matambira, que ao relatar o seu mais famigerado combate de boxe nos explica que: “a sua cabeça tinha sido ensinada a não se defender de um branco. (…) tinha sido derrotado no palco da vida antes de subir para o ringue de boxe”. (p. 299)
Já a condição da mulher é nos apresentada através do relato de diversos níveis de violência, quer física e sexual, quer psicológica, como forma de “domar” o espírito que os homens não compreendem, mas pelo qual se sentem ameaçados.

Editora: Caminho | Local: Alfragide | Edição/Ano: 2ª (1000 ex.), Setembro 2013 | Impressão: Eigal | Págs.: ... | Capa: Rui Garrido | ISBN: 978-972-21-2638-0 | DL: 363963/13 | Localização: BLX Cor ROM ROM-EST COU (80343214)

domingo, 4 de dezembro de 2016

Traduzir-se, Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Trilogia Signo dos Sete, Nora Roberts

Há um grupo de leitoras que lê Nora Roberts, não direi de empreitada, mas que possuí a sua lista de titulo que segue, quase religiosamente. E isso intriga-me. O que terá esta autora, sobretudo romântica, que tanto apela a estas leitoras? Fui descobrir e não fiz a coisa por menos, ligo logo uma trilogia!

Esta situa-se na cidade de Hawkins Hollow, Maryland, onde, em 1987, três amigos, ainda crianças, libertam sem querer um demónio que, de 7 em 7 anos, provoca tragédias na pequena cidade. Passados 3 ciclos de 7 anos, surgem na cidade 3 mulheres, que, sem qualquer surpresa, começam a fazer par romântico com cada um dos amigos, e que se vem a saber são todos descendentes quer do demónio (elas) que do seu aprisionador no longínquo ano de 1652. Peripécia para aqui, susto para ali, referencias populares mas também do género fantástico, a trilogia acaba por ser composta em mais de metade por uma história fantástica do que por uma história romântica. O que me surpreendeu.

Sabia que Roberts se dedicava ao policial, sob o pseudónimo de JD Robb, mas não sabia que se dedicava ao fantástico. E no fundo esta trilogia é uma trama detectivesca com um pano de fundo sobrenatural, bem estruturada, que, embora saibamos o final, nos prende no sentido de saber como se chegará lá. Ou seja, embora não seja a minha praia, compreendo o apelo das suas narrativas. Não sei se voltarei um livro da autora tão cedo, mas sei que um dia destes ainda lerei uma trama escrita sob o pseudónimo de JD Robb.

Títulos: Irmãos de Sangue; Ritual de Amor; Pedra Pagã | Tradução: Fernanda Semedo | Editora: Chá das 5 | Local: S. Pedro | Edição/Ano: 1ª Nov, 2012; Fev, 2013; Ago, 2013 | Impressão: Cafilesa, Lda. | Págs.: 270; 285; 285 | ISBN: 978-989-710-404-6; 978-989-710-045-1; 978-989-710-061-1 | DL: 349441/12; 353118/12; 361450-13 | Localização: BLX NC 82-31/ROB (80316248; 80240627; 80243091)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

De que falamos quando falamos de acessibilidades?

Ao ler um texto sobre o tema na área cultural, não pude deixar de reflectir sobre o mesmo e sobre a realidade que me rodeia. Ao falar-se de acessibilidade, fala-se também dos diversos tipos de acessibilidade: física, social e intelectual. E, é claro, a influencia desta na criação e/ou tipificação de públicos. Mas será que os nossos responsáveis estão cientes e/ou sensibilizados para esta questão e a sua real e eficaz inclusão na gestão dos espaços e equipamentos.

Em termos de acesso físico, a minha questão começa logo pela localização. Quando se seleciona um espaço para um serviço ou um equipamento, este nem sempre é o desejado ou o ideal, mas sim o que está, de momento, disponível. Consequentemente, esses espaços podem ter logo condicionantes genéricas de acesso à zona no que diz respeito a, entre outros: proximidade de transportes públicos, estacionamento, sentimento de (in)segurança. Depois, há a questão do edifício. Está preparado para possibilitar o acesso a pessoa com mobilidade reduzida. Ou seja, tem rampas, elevadores, áreas de circulação para cadeiras de rodas ou muletas, ou tem qualquer outro tipo de barreiras físicas? E quando falamos de acesso, porque não falamos também de evacuação em caso de emergência? Sim, porque embora todos desejemos que nunca seja necessário, temos de estar preparados para essa situação. E, infelizmente, tenho-me deparado com situações de portas, que se querem de emergência, encerradas pelo exterior ou zona de fuga para varandas ou outras áreas fechadas.

Quanto à inclusão social, há todo um mundo a reflectir. E digo um mundo porque cada vez mais o nosso país acolhe diversas e tão dispersas nacionalidades que todos sentimos dificuldade em acompanhar na necessidade mais básica: a linguística. Sim, todos nós falamos um mínimo de inglês, quase nada de francês, arranhamos um portunhol. Mas para além disto? Conseguimos realmente comunicar com quem nos procura? Estamos preparados para atender devidamente invisuais? E falantes de língua gestual? E situações do foro mental? Não, não estamos e incluo-me nesse rol.

E por último, mas não menos importante, há a vertente intelectual. Cada utilizador de um espaço cultural tem apetências e necessidades específicas e, sendo impossível satisfazer todas, podemos ser o mais abrangente possível nas ofertas que disponibilizamos. Para tal não podemos esquecer que há um caminho a fazer e que este se faz a partir do diálogo entre os técnicos no terrenos e o(s) próprio(s) público(s). Para tal é necessário ter numa equipa elementos com formação adequada e transversal e confiar na capacidade dessa equipa para fazer o trabalho. Por vezes, começa-se por uma pequena actividade e dessa ou dos contributos (in)formais gerados parte-se para outra., quiçá de maior dimensão, até se chegar àquela dimensão que todos os responsáveis gostam e que lhes dá a maior visibilidade possível. Além disso, e porque os nossos públicos evoluem e são também cada vez mais exigentes e sedentos de uma oferta variada é necessário fazer uma aposta continua na formação profissional e em momentos de partilha interna e externa. Se o fizermos, tudo o resto acontecerá e ganhamos todos: o(s) público(s) por conseguir suprir as suas necessidades, os técnicos porque sentem a validade do seu contributo e os responsáveis porque consegue visibilidade.

E se tudo isto para simples e óbvio, infelizmente, só o é para alguns. Tentemos nós fazer a nossa parte. 
@ João Menéres

domingo, 20 de novembro de 2016

Que obras selecionar para uma comunidade de leitores?

(Comunidade de Leitores da biblioteca da Penha de França)

Há cerca de ano e meio, tive a oportunidade de integrar a Comunidade de Leitores da Biblioteca da Penha de França. Além do prazer pessoal, tem sido a oportunidade de colocar em prática muito do que tenho observado e aprendido, no que diz respeito à dinamização de comunidades de leitores. Uma dessas aprendizagens tem a ver com a adequação das propostas de leituras ao espaço, que, neste caso, é uma biblioteca pública, com uma missão e objectivos definidos.

Sendo uma biblioteca pública, o que é que faz (ou não) sentido promover em termos de leituras?


+ Explorar o acervo da biblioteca. As bibliotecas disponibilizam milhares de títulos aos seus leitores e utilizadores, e é ai que devemos buscar as nossas sugestões de leitura. Isto implica uma pesquisa e uma opção por títulos com o nº de exemplares suficientes para o nº de participantes na comunidade. Isto é uma lógica de economia, não faz sentido termos livros disponíveis, nem apresentar-nos como uma opção gratuita de acesso à informação, e pedirmos aos leitores que adquiram outros. Deixemos isso para outros espaços.


É claro que também coloca alguns impedimentos:


- A dificuldade em promover novidades literárias ou modas muito recentes ou, uma vez que não existem exemplares em número suficiente para todos. Por exemplo, neste momento não é possível seleccionar os livros de Elena Ferrante, uma vez que os poucos exemplares disponíveis da rede municipal de bibliotecas de Lisboa possuem uma lista de espera de cerca de 30 leitores. Existem, no entanto, livros que foram populares num dado momento do tempo e que fazem todo o sentido conhecer, mesmo que acabemos por entrar na onda do “clássico”.


Então em que podemos apostar?


+ Autores nacionais. Se somos uma biblioteca pública nacional, devemos, senão fazer bandeira, pelo menos, promover o maior número possível de autores nacionais, que nem sempre são do conhecimento do leitor. O que é nosso é bom e devemos defende-lo. Além de que possibilita apostar noutro tipo de actividade paralela ou subsequente: o encontro com o escritor. E, numa era de igualdade de oportunidades entre género, porque não tentar encontrar um equilíbrio entre autores do sexo masculino e feminino?


+ Autores internacionais. Uma das possibilidades que a literatura nos oferece é a de ver e conhecer o mundo pelos olhos do outro, neste caso, que melhor olhar do que o estrangeiro? Mas, sendo esta possibilidade tão abrangente, optou-se pela divulgação de premiados com o Nobel da literatura. Poderia haver outro(s) critério(s)? Poderia. Contudo, foi um ponto de partida consensual para todos os participantes e que nos levou à leitura, em 2016, de Orhan Pamuk, Ernest Hemingway e Nadine Gordimer.


+ Sugestões dos participantes. Aqui entra, não só a sensibilidade, mas a capacidade de análise do dinamizador de: perceber, durante as sessões, que autores não foram lidos pela maioria e avançar com essas mesmas propostas; registar as sugestões informais dos participantes; e incitá-los a sugerir, porque as comunidades são feita para os leitores e estes sentem-se mais identificados quando as suas sugestões são consideradas.


Outras comunidades terão outras opções e orientações de leituras. Estas, que não são estanques e imutáveis, apenas são uma continuidade do entendimento que, enquanto técnicos, fazemos do papel da biblioteca enquanto agente de promoção da leitura, com um acervo a potenciar e a divulgar, sem descurar a curiosidade dos seus leitores.