segunda-feira, 16 de abril de 2018

A ridícula ideia de não voltar a ver-te, Rosa Montero

Durante o processo de luto do seu companheiro de 21 anos, a autora deparou-se com o curto diário de Marie Curie em que esta deposita os desabafos relativos à morte do marido, Pierre Curie. Perante esta #coincidência, a autora efectua diversas reflexões, não só sobre a morte e o modo como os vivos lidam com ela, mas sobretudo sobre o papel da mulher na sociedade, tendo como base a vida única da cientista de origem polaca – e tudo o que esta teve de encarar e ultrapassar para chegar ao patamar de notabilidade que atingiu – e tecendo algumas comparações com o que actualmente possa ser o papel da mulher.
É um livro extremamente interessante por diversas razões. Primeiro, por nos dar a conhecer a peculiar vida de Marie Curie, os seus obstáculos, as suas vitórias, mas também o vislumbre da mulher para além da cientista. Depois, por, de modo muito simples e sentido, expor a sua experiência de luto. Uma experiência tão íntima que nem sempre é possível verbalizar de modo estendível para os demais. E nesta sua reflexão saliento a ideia tão verdadeira que subjaz ao título e a noção de que, após um processo de luto, não voltamos a ser os mesmos, mas reinventamos-nos, de modo a prosseguir e integrar essa perda. Por último, há uma constante ponderação sobre o papel da mulher, e, claro, do homem, na sociedade e o modo como as expectativas e pressões se têm alterado ao longo do tempo, de tal modo que, actualmente, não há qualquer clareza de papéis, seja para quem for. e se por um lado essa circunstância pode ser libertadora, no sentido de permitir todas as possibilidades. por outro, pode ser igualmente confusa e inibidora, porque não há nenhuma linha orientadora de suporte para ninguém.

Título Original: La ridicula idea de no volver a verte | Tradução: Helena Pitta | Editora: Porto Editora | Colecção: | Local: Lisboa | Edição/Ano: Agosto 2015 | Impressão: Bloco Gráfico | Págs.: 175 | Capa: Manuel Pessoa | Ilustrações: fotos | ISBN: 978-972-0-04712-0 | DL: 585437/14 | Localização: BLX PF 82-94/MON (80399936)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

A Casa Eterna, Hélia Correia

Esta é a história de um homem inexistente. Esta é a busca pelos últimos dias de um homem que fez de tudo para desaparecer em vida. Para suavizar, ao máximo, qualquer rasto da sua passagem num certo tempo, num certo espaço. Aceitemos então que o interesse desta história não está no homem que tenta encontrar, perceber e capturar, mas sim no retrato das pessoas que partilharam esse mesmo tempo, mas sobretudo, esse mesmo espaço. E nesse percurso encontramos uma apurada análise social, em que homens e mulheres desempenham uma coreografia de séculos em que ascensão, manutenção e queda parecem ter sempre os mesmos protagonistas. Servida por um humor indelével e um zelo linguístico de invejar. Nesta casa não há um principio, nem um fim, nem uma verdade. Há perspectivas, sempre parciais, em que o conflito, a frustração, o desejo, e a ambição são sempre repetidos. Ad eternum.
Editora: Círculo de Leitores | Colecção: | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1, Abril 1991 | Impressão: Resopal, Lda. | Págs.: 242 | ISBN: 9724202461 | DL: 444 9/91 | Localização: BLX Iti 82P31/COR (80126126)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Tenho cinco minutos para contar uma história, Fernando Assis Pacheco

Há já algum tempo que este título me chamava para a sua leitura. Cinco minutos = uma história, parece um bom contrapeso neste tempo tecnológico em que as histórias se atropelam sem que nenhuma se retenha mais do que alguns segundos na nossa atenção, e, claro, sem que nenhuma se finque na nossa percepção, na nossa memória. Então, que bom encontrar uma história que nos prenda, por cinco minutos que sejam.
Não sendo uma leitora rápida, já estava a acusar um certo cansaço de leituras extensas e densas, e estava a necessitar de uma mudança de registo. No tom, na cadência, na voz com que mentalmente ilustramos a ressonância das palavras que lemos. Este conjunto de crónicas radiofónicas permitiram, além deste diferente fluir, uma outra perspectiva dos dias que ainda ressoam em algumas memórias familiares, mas que os silêncios e as ausências já não conseguem materializar.
40 anos têm estas crónicas. 40 anos tinha o seu autor no momento da sua escrita. 40 anos tenho eu no momento da sua leitura. Apesar das vidas diametralmente opostas, alguns destes textos ainda são de hoje. Sejam porque me trazem memórias, seja porque o país ainda mantém algumas características enquanto povo. E sinto que a única diferença aportada pela passagem destes 40 anos é a ausência de referências tecnológicas actuais. As de então são, como já referi, uma memória de infância, uma memória de um tempo em que a passagem do tempo corria mais languidamente. Que bom foi retornar a outra cadência.

Editora: Tinta da China | Colecção: | Local: Lisboa | Edição/Ano: Março 2017 | Impressão: Guide, AG | Págs.: 196 | Capa: V. Tavares | Ilustrações: fotografias| ISBN: 978-989-671-357-7 | DL: 419731/16 | Localização: BLX PF 82P-94/PAC (80395855)

domingo, 1 de abril de 2018

(o meu) Curso de Cultura Geral


Tenho seguido, a destempos, alguns episódios do Curso de cultura Geral da autoria de Anabela Mota Ribeiro, em que esta desafia os seus convidados a partilharem 10 experiências culturais que tenham sido transformadoras no seu percurso pessoal. Tal fez-me reflectir nas minhas experiências e ponderar no modo como as mesmas me impactaram. Algumas dessas transformações fora-me óbvias no momento e não é à toa que acompanham os meus tops há tanto tempo quanto me dou ao trabalho e à ingenuidade de os fazer. Mas hoje, mais do que refazer o(s) top(s), interessa-me os conceitos e/ou sentimentos subjacentes aos mesmos. E a minha síntese – actual – é a seguinte:
- o silêncio. Conseguir captá-lo e torná-lo um elemento tão forte na narrativa e capaz de transportar consigo tudo o que um personagem não consegue pronunciar foi o que me fascinou em duas das minhas primeiras paixões artísticas, Le Gran Bleu de Luc Besson e Loucos por amor de Sam Shepard.
- educação pela arte / educação não formal. Estas duas expressões são relativamente recentes no meu percurso profissional, mas parecem-me ser suficientemente abrangentes para abarcar tudo o que aprendi nas páginas do extinto Se7e e nos filmes que a partir de 1986/8 – não consigo precisar o ano, mas consigo balizar entre estes 2 - passaram a ser consumidos em catadupa lá em casa, após a entrada no burgo familiar de um leitor de VHS.
- para lá do óbvio. É assim que hoje classifico a característica que me atrai em alguns dos actores que descobri a partir desse momento, sendo que a minha grande paixão, e agora um amor de longa data, Willem Dafoe é a sua epitome. Há vários outros, felizmente há vários outros cuja carreira, personagens e interpretações são para lá de óbvias.
- a transposição do eu como forma de tentar compreender o mundo. É talvez o resumo de toda a arte. E talvez a única forma de compreendermos o que nos rodeia seja percebendo como é que os acontecimentos – históricos ou pessoais - nos afectam como indivíduos e ganhando essa consciência sejamos capazes de ver o outro e compreende-lo e aceita-lo na sua própria caminhada. Compreender-nos para aceitar os outros, pode não ser a leitura que os demais fazem da pintura de Frida Kahlo, mas – na minha ignorância da sua vida – ao observar os detalhes de alguns dos seus trabalhos penso que, infelizmente, os nossos lutos podem ser belíssimas e introspetivas formas de arte.
- a liberdade do individuo como uma batalha sempre premente e continua. Não sendo dois livros iguais, seja pelo registo, seja pela intenção, na minha mente é a eles que recorro quando me sinto encurralada pelas engrenagens do quotidiano. Se isto é um homem de Primo Levi leva-me, claro, a relativizar tudo. A sua leitura não nos deixa indiferentes. De que nos podemos afinal queixar se há uma experiência humana como a do holocausto. Mas não é apenas o queixar são as pequenas formas de no dia a dia sem futuro ainda desafiar a desumanização sistematizada e intencional. E é esta indução sistematizada e intencional naquilo que de mais pode ser único e individual no ser humano, o espaço dos seus sonhos, que Ismail Kadaré alegoriza no seu Palácio dos sonhos, mas que sentimos não estar longe da nossa percepção do nosso quotidiano comunicacional.
- e ainda... e terá sempre de haver espaço para o que há-de vir. Porque, mal de mim, se não tornasse a ser surpreendida.

sábado, 31 de março de 2018

Leituras nos Transportes Públicos #18.03

Março
1
Heresia, S. J. Parris

Endurance, Scott Kelly

Les Halles’s Cookbook, Anthony Bourdain
2
Hoje estarás comigo no paraíso, Bruno Vieira Amaral

Histórias Possiveis, David MAchado
8
Contratos públicos
12
We before you,  Jojo Moyes

O Pianista de hotel, Rodrigo Guedes de Carvalho

Chegar novo a velho
14
Fica Comigo esta noite, Inês Pedrosa
15
O Monge que vendeu um ferrari, Robin Chopra
16
NYPD, James Patterson

O ano dos prazeres, elizabeth Berg

A rapariga no gelo, Robert Bryndza
20
O jogo do amor, Penny Vicenzi
21
A maldição de Hill House, Shirley Jackson

A cidade de Ulisses, Teolinda Gersão
23
Águas Profundas

O Luto de ELias Gro, João Tordo
28
Código civil
31
Tenho 5 minutos para contar uma história, Fernando Assis PAcheco

quarta-feira, 28 de março de 2018

não sejas injusto,
pedes palavras 
a quem só sabe
pronunciar silêncios

sexta-feira, 23 de março de 2018


Poderosos os que têm a possibilidade de escolha
Tristes os que escolhem mal
Felizes os que inconscientemente são guiados pelas as escolhas
Invisíveis os que sofrem as escolhas alheias
Loic Movellan


quarta-feira, 21 de março de 2018

A Cidade de Ulisses, Teolinda Gersão

Esta foi a minha primeira incursão na escrita desta autora e a verdade é que esta leitura me suscita mixed feelings, não sei se necessariamente contraditórios. Se por um lado gostei de alguns dos temas abordados, por outro a sua estratégia de abordagem deixa-me uma sensação de aquém. Mas vamos por partes.
A história é um relato na primeira pessoa de um artista plástico fictício que, a partir de um convite para uma exposição, revisita a sua grande paixão, também ela artista plástica, e um projecto em comum em que tinham como objectivo explorar a cidade de Lisboa. Pelo meio ficam reflexões sobre o processo de criação artística, as influências a partir das quais um artista pode conceber o seu projecto, a história da cidade, dos páis e do povo português e alguns dos seus contextos e caracterizações actuais, a as relações humanas – afinal, a base de tudo.
A opção da autora do relato na primeira pessoa, dividido em diversas fases, é que para mim deixou a sensação de aquém e tornou em momentos a leitura menos aliciantes. É um relato demasiado expositivo e por vezes, quando o tema é a história da cidade, demasiado “guia” histórico, no qual se pode aprender, mas que não nos prende. Já na abordagem das relações humanas fico com a sensação de que não se sai de algumas figuras tipo: o pai militar e castrador, a mãe a encontrar na arte um escape emocional mas acabando por perder a sanidade, a namorada que quer mais do que o pintor quer, e a criada de família pobre e honrada. Por último, há o final feliz que de tão circular se torna… inverosímil, insípido, insatisfatório.
Creio que necessito de voltar à escrita de Teolinda Gersão mais tarde, num outro trabalho. Por agora, a partir desta leitura, que ainda assim tem muitos pontos de reflexão e que creio permitirá um debate animado na próxima sessão da Comunidade de Leitores da Penha de França, fica-me a sensação de incumprimento.

Editora: Sextante Editora | Colecção: Ficção | Local: Porto | Edição/Ano: 3ª, Out 2012 (1ª Mar 2011) | Impressão: Bloco Gráfico, Lda. | Págs.: 206 | Capa: Atelier Henrique Cayatte | IISBN: 978-972-0-07137-8 | DL: 349575/12 | Localização: bLX DMF 82P-31/GER (80316450)

terça-feira, 20 de março de 2018

A mulher do poeta, Adelaide Bernardo

A mulher do poeta sabe que apenas algumas palavras são sobre si.

Derrama lágrimas ocasionais ao perceber outros corpos nas suas palavras.

Mas a beleza das palavras surpreende-a sempre, porque a mulher do poeta ama-o por amor à poesia.

A sua dádiva é o lar de alguém que não pretende subjugar as palavras. Ela sabe-se há muito subjugada por elas. Elas são as grandes subjogadoras.

A mulher do poeta acarinha-o puerilmente. Aceita que não haverá outras crianças. Que o poeta apenas tem olhos para as palavras mesmo quando estes se distraem noutros corpos ávidos de palavras, mas sem a sua serenidade.

A mulher do poeta sente o que este não sente, vê o que este não vê.

Mesmo sem o registo do seu corpo, ela sabe que aquelas palavras também são suas.

Só ela sabe a humildade das palavras por interposta pessoa.

(23/06/2011)
Composição Em Rosa e Verde (1931), Cathleen Man

sexta-feira, 16 de março de 2018

Experiências circulares


Por vezes relembro textos e reflexões escritas há algum tempo e que ainda me parecem fazer (quase) todo o sentido. Para o bem e para o mal. É a circularidade da experiência humana a que nem sempre podemos escapar. Podemos até quebrar certos círculos, mas isso não impede que situações semelhantes aportem novamente ao nosso quotidiano. No entanto, se a experiência nos ensinou algo, saberemos lidar melhor com essas situações. Lidaremos com elas de modo diferente ou até aprenderemos a criar em nosso redor uma espécie de escudo de protecção no qual essa situação não entra.
Por estes dias, as redes sociais devolveram-me a reflexão de um texto que intitulei relações viciadas. Foi escrito tendo em mente duas pessoas. Hoje, quando me sinto numa situação semelhante creio que lido com ela de forma diferente. Primeiro, tento perceber o que pode ser feito da minha parte para ultrapassar. Depois, tento perceber se a outra pessoa também o faz ou se intencionalmente persiste na sua postura. Por último, começo a minimizar o mais possível o diálogo e a erguer o tal escudo em meu redor. Poderá não ser a solução perfeita, claro que não. Mas entre a minha sanidade mental e o qualquer gozo que uma situação problemática possa dar à outra pessoa, está o meu bem-estar.
A experiência diz-nos que podemos mudar, mas só o faremos quando tomarmos essa consciência e por nossa iniciativa. Não podemos mudar os outros e o esforço de o fazermos será sempre inglório. Penso já ter atingido um determinado nível de discernimento para avaliar quando devo ou não investir numa mudança, quando esse investimento é bem-vindo e aceite. Quando não é, retorno a mim. ao meu silêncio e invisto na minha serenidade. Há momentos em que o egoísmo é necessário e recomenda-se.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Escrita Criativa: Bibliografia 2


Aqui fica mais um pequeno contributo para quem se interessa sobre os processos de escrita. Desta feita, são as impressões dos próprios autores, que valem pelo exemplo real de quem lida com as dúvidas e obstáculos que a escrita impõe, bem como das suas estratégias para os ultrapassar. Espero que seja útil.

REFLEXÕES (DE ESCRITORES) SOBRE O PROCESSO DE ESCRITA

CARVALHO, Mário. Quem disser o contrário é porque tem razão. Porto Editora, 2015.
ECO, Umberto. Confissões de um jovem escritor. Livros Horizonte, 2012.
LLOSA, Mario Vargas. Cartas a um jovem romancista. Dom Quixote, 2000.
MURAKAMI, Haruki. Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo. Casa das Letras, 2009.
KING, Stephen. Escrever: memórias de um ofício. Temas & Debates. Lisboa, 2001.
OATES, Joyce Carol. A Fé de um escritor. Casa das Letras, 2008.
PAMUK, Orhan. O Romancista ingénuo e sentimental. Editorial Presença, 2012.
RILKE, Rainer Maria. Cartas a jovens poetas. Relógio d’Água, 2014.
WOOLF, Virginia. Um quarto que seja seu. / Um Quarto só para si. (diversas edições)

Entrevistas da Paris Review. (vols. 1, 2 e 3). Tinta da China.



terça-feira, 13 de março de 2018

Conheço o sal, Jorge de Sena


Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.


Sarah Anne Johnson