quinta-feira, 22 de junho de 2017

Silêncio, isto (ainda) é uma biblioteca!?

As bibliotecas têm alterado as suas dinâmicas, acompanhando a evolução social. Hoje, são, sobretudo, espaços transversais de âmbito cultural, que procuram satisfazer as necessidades das comunidades para além do típico acesso à informação, actualmente, acessível a partir de um qualquer clique.
Sem falar do acesso à informação, pois já ninguém, técnicos e utilizadores, passam sem o acesso informático sem fios. Quando falamos destas como pontos de encontro e convívio da comunidade, há que lidar com uma das suas caracteristicas tradicionalmente associadas: o silêncio. Como é que se encontra alguém no silêncio? Como é que se convive em silêncio? É possível mudar-se sem perder determinadas características? Quais destas são abdicáveis?
Quando numa sala há uma reivindicação de silêncio, e dependendo do grau de ruído, é habitual um técnico defender-se com a afirmação: lamento, mas esta não é uma biblioteca de silêncio absoluto. Em várias situações, os utilizadores não sabem o que dizer e a reivindicação fica por aí.
Podemos falar na necessidade em estabelecer limites. Sim, mas e onde ficam esses limites? O que é isto de se solicitar silêncio (a alguém) quando, em nome do progresso, convivem num mesmo ambiente toques de telemóvel, sons de maquinaria vária como ar condicionado, alarmes, apitos, tamborilares em teclados, avisos informáticos, etc. e nós somos um dos seus produtores.
Seja enquanto técnica, seja enquanto utilizadora, o que mais me irrita é exactamente essa profusão de barulho de fundo irritante causado pelos mil e um aparelhometros que temos nos nossos espaços, na sua maioria desadequados. Quando ao barulho provocado pelo diálogo entre utilizadores, se moderado e feito de forma respeitadora, na sua maioria não me incomoda. Isto quer dizer o quê? Que os espaços não são apenas nossos e como tal não devemos impor o nosso diálogo a quem nos rodeia. Gosto de ver jovens a trabalhar em conjunto, a tirar dúvidas, a organizar trabalho. Não gosto de conversas sobre outros assuntos, não gosto de tons de voz elevados, de chamadas de atenção mais barulhentas que o ruído de origem.
Diria que os espaços para serem dinâmicos necessitam de uma comunicação e da sua expressão. As bibliotecas também. Aqui, enquanto técnica, o que muitas vezes posso e devo fazer é a consciencialização dos nossos públicos, mas sem dogmatismos. Nem todos os públicos foram educados para ser públicos e há indivíduos que não são educáveis. No entanto, através do diálogo chegamos a bom porto. Afinal, ainda estamos numa biblioteca!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Churchill (2017)

Um dos mais conhecidos estadistas a nível mundial, Winston Churchill fica igualmente na história da literatura ao ganhar, em 1953, o Prémio nobel correspondente, por "for his mastery of historical and biographical description as well as for brilliant oratory in defending exalted human values".[1]
O filme aborda as 96 horas prévias ao desembarque das forçar aliadas na Normândia e é um filme atípico. Dá-nos a imagem de um líder em crise, que não sabe qual o seu papel numa guerra em que não acredita na validade das estratégias adoptadas, nomeadamente este ataque. Um líder arredado da estratégia em que não acredita, mas chamado a galvanizar o povo para o continuo esforço de guerra. Um líder que se quer um farol de animo, coragem e persistência num tempo de calamidade, trágico com o fim e o estropiar de uma geração. Um líder enquanto combate com os seus demónios e uma depressão.
Este é um filme de palavras. Da acção pela palavra. De como a palavra certa pode ser a arma mais eficaz para galvanizar um povo. Da procura dessa palavra, no respeito pelo seu significado e pelo seu potencial transformador. Da palavra como resistência. Da palavra como procura para o significado da vida e da morte.

[1] Pela mestria na descrição histórica e biográfica, bem como pela oratória brilhante e exaltada na defesa dos valores humanos. (Tradução da minha autoria) 

terça-feira, 20 de junho de 2017

A transformação pela viagem não será também uma das muitas ilusões que nos oferecem, como resposta à necessidade que temos de alterar o percurso ou os resultados menos positivos das nossas vidas? O que encontramos noutro lugar que não sejamos capazes de encontrar no nosso quotidiano? E que garantias há, que algures nos caminho ou no destino que ignoramos, nos encontramos? Os relatos de viagem não são, afinal, sempre relatos de regressos?

segunda-feira, 19 de junho de 2017

vem como és, vem como tens na pele
o segredo do teu presente

Pavão, Patricia Ariel

domingo, 18 de junho de 2017

40º e o meu casaco de malha

Pertenço ao grupo das pessoas que não se dá bem com o calor excessivo. Andar na rua, nestes dias, se não houver uma sombra ou uma brisa, pode ser complicado.
Então, a existência de ar condicionado parece a solução ideal, certo? Errado.

Na maioria dos locais, os funcionários, técnicos, amadores, não sabem definir a temperatura correcta de um aparelho e ajusta-las às dimensões do espaço e ao número de horas consecutivas que é suposto trabalharem. O que resulta, demasiadas vezes, numa temperatura aquém do desejado. 
E o que é que eu faço? Visto um casaquinho de malha e lá estou, com olhares de lado e pensamentos assassinos na minha direcção. 
Lá fora estão 40º, deixa estar, eu trago sempre o casaquinho no saco e saco dele sempre que necessário. Sem stress, nem preocupações em adequar as temperaturas. Eu e o meu casaquinho estamos bem!
Sarolta Ban

sábado, 17 de junho de 2017

Eu sou o Monstro

Toshiaki Kato
Vi recentemente a nova versão de A Bela e o Monstro (2017) que se tornou um clássico da Disney quando, há cerca de 25 anos, rompeu com o padrão das suas denominadas “princesas.”
O filme é visualmente bonito. No entanto, há uma “rapidez” de edição que não nos deixa usufruir nem das canções, nem dos cenários, nem dos enésimos pormenores gráficos das personagens. Tudo está em constante movimento e a nossa atenção, quando é despertada, não consegue permanecer nesse foco porque ele simplesmente já não está ou está noutro local qualquer. Esta é uma evolução de certos filmes que me desagrada. Para efeitos comerciais foram encurtados e tudo nos é apresentado à pressão.
Voltemos então há 25 anos. Bela não era princesa, nem pertencia a uma aristocracia falida. Era a filha de um relojoeiro, que gostava de ler e cujos interesses não passavam pelo casamento com os pretendentes disponíveis. Mesmo quando esses eram muito apetecíveis às outras moças casadouras. E não era loura, mas sim uma morena cuja beleza, sem ser estonteante, advinha, sobretudo, das suas características interiores. Finalmente, uma heroína com que nos podíamos identificar, física e emocionalmente. (Pelo menos, até percebermos que esta poderá ser vítima de Síndroma de Estocolmo).
Agora, ao voltar a esta história e com uma experiência e outras perspectivas, percebo que a personagem com quem me identifico é o Monstro. Não somos o que há primeira vista se apresenta aos outros. Não no sentido do engano, mas no sentido de que normalmente ficamos presos a uma primeira percepção, muitas vezes condicionada por estereótipos sociais e estéticos. E quando não estamos dispostos a sacrificar-nos para entrar em conformidade com esses padrões, os demais podem-se afastar. Mas não é só isso.
O Monstro sofreu um revés que alterou profundamente o seu modo de ser. O seu modo de vida ruiu de um momento para o outro. Isso induziu-o a uma alteração dos seus valores, mas também da sua percepção dos valores que regem a sociedade. Ele sabe que já não corresponde ao que esperam dele, mas também sabe que dificilmente lhe darão a oportunidade de dar a conhecer a sua nova personalidade. Ele tinha valores fúteis, mas a sociedade também os tem e estes são mais difíceis de alterar do que os do individuo. Então, também voluntariamente, este isola-se e desiste de uma vida exterior. E só se abre ao mundo quando alguém, mesmo que inadvertidamente, encontra uma brecha na sua muralha emocional. E só aceite pela sociedade exterior quando em conformidade com as expectativas sociais e estéticas.

Quantas pessoas não conhecemos assim? Eu conheço-me...

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Sobre o feminismo

No rescaldo da leitura de Todos devemos ser feministas, de ChimamandaNgozie Adichie, aproveito algumas das suas frases para perceber melhor a minha posição e afinar a(s) minha(s) opiniõe(s), que, na sua maioria, ainda estão numa fase (embrionária) de sentimento. E, como tal, são ainda mutáveis e a seu tempo espero que mais compreensíveis.
Algumas frases sobre o preconceito relativo ao feminismo e às feministas:
  • p.13) são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido. Felicidade e casamento não são complementares. Logo, o casamento não é a única forma de se atingir a felicidade. Quem se propõe a conseguir a sua felicidade através do caminho menos percorrido tem momentos de infelicidade, tal como todas as pessoas. Muitas mulheres optam por não casar, não por negarem o casamento em si,mas porque os seus desejos mais íntimos nem sempre se conjugam com o que ainda se espera de uma mulher. Porque se as mulheres alteraram o seu papel na sociedade, consequentemente também o do homem se alterou. E nesta incerteza de papeis, nem todos têm a capacidade de assumir ou arriscar fora do registo daquilo que se espera. E há quem simplesmente não sabem lidar com esta alteração, então, a sua única opção é a de rebaixar que a assume.
  • [a mulher é] corrompida pelos livros ocidentais. Realmente, ainda está por aferir qual o papel exacto da leitura na definição do futuro individual de cada um. Todos nós sabemos que a leitura é transformadora, para o bem e para o mal. Todos lemos livros que alteraram as nossas percepções e os nossos actos. Por isso, a educação é a maior ferramenta para atingirmos a igualdade de oportunidades e de tratamento. Por isso, jovens como a Malala ainda são a maior ameaça às sociedades patriarcais.
  • p.14) [as mulheres odeiam os homens]. As mulheres não odeiam os homens. Apenas não aceitam submeter-se à sua vontade, às suas ordens, aos seus desejos.
  • [odeiam determinadas culturas]. Todas as culturas têm pontos positivos e negativos. Mas a cultura não é imutável e é feita pelas pessoas que a perpetuam ou que a adaptam. Mas qualquer cultura que não permita à mulher o designio do seu corpo, da sua vontade, dos seus sonhos e dos seus desejos, não é uma cultura fácil de aceitar. Quem o aceita, acredito que o faça por uma inerente clareza perante os papeis atribuidos a cada pessoa e o que se espera de si. Quando o papel é óbvio, também é mais fácil (ou não) de desempenhar. Mas há muito que nos deixámos de guiar pelo óbvio.
  • [não têm cuidados e beleza e/ou higiene]. Todas as mulheres têm cuidados de higiene, embora possam não se aplicar em cuidados de beleza. Há uma frase conhecida que afirma que não há mulheres feias, há mulheres pobres. Dito isto, a beleza é uma questão, por vezes, única e exclusivamente financeira. Agora, se despirmos algumas dessas mulheres de determinados artificialismos, o que resta delas? O que é que elas são, o que é que elas procuram? Porque é que consideram que só o conseguem alcançar transformando o seu exterior. Não seria mais interessante se apenas pudéssemos ser nós? 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

a capitalização do amor, valter hugo mãe

David Cutter
não escondemos que aprendemos a 
capitalizar o amor, entregando 
amplamente os nossos melhores 
momentos às raparigas mais carentes. 
o amor, sabemos bem, é o caminho directo 
para a inutilidade, e nós procuramos as 
raparigas que mais rapidamente se 
inutilizem perante as coisas clássicas 
da vida. não nos queremos atarefar com 
a vulgaridade, e gostaríamos até de 
impregnar cada gesto com características 
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o 
dinheiro também e, se só pensamos no amor, 
não temos como fazer de outro modo 
senão vendê-lo entusiasticamente, como 
fontes de trovões bonitos jorrando nas 
praças mais movimentadas das cidades. e 
as raparigas correm para nós urgentes 
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o 
amor se abate sobre elas, uma alegria rica 
de se ver, e nós a balançar os braços para 
chamar a atenção de mais e mais e 
já nem sabemos como parar, como forças 
incontroladas, à semelhança de mecanismos 
ferozes da natureza, e só sairemos daqui 
quando desfalecermos de amor até 
pelas raparigas mais feias 

in 'contabilidade' 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

sobre frases feitas

Todos recorremos às denominadas frases feitas. Por isso, independentemente da perspectiva de utilização, temos de lhes reconhecer a utilidade e o mérito. Seja porque nos falta engenho para algo mais, seja porque o seu fundo de verdade ofusca quaisquer outras palavras, ou até porque o tempoas cristalizou, seja porque nos confere nano segundos para alinhavar outros pensamentos.
Então, porque combatemos tanto a sua utilização?

Num período de marketings personalizados, que de tão eficazes, conseguem soar espontâneos, não queremos nada menos do que o sentimento de atenção. Atenção personalizada. E isso obtém-se através de uma linguagem e respostas feitas à medida, com a tenção ao detalhe. Não para nos vender algo, mas para nos comprar a alma. Porquê contentar-nos com frases de todos se queremos frases únicas. À medida das nossas exigências, expectativas e necessidades.

terça-feira, 13 de junho de 2017

2 anos, em jeito de balanço

Faz dia 17, deste mês, 2 anos que integrei o quadro da Câmara Municipal de Lisboa, ficando afecta à Biblioteca da Penha de França, onde tenho permanecido e desenvolvido um trabalho de continuidade.
Não tendo formação base em biblioteconomia, o trabalho que desenvolvo é maioritariamente enquadrado no Serviço de Promoção da Leitura e das Literacias. Nesse âmbito, o nosso público alvo é muito abrangente, quiçá até demasiado abrangente. Uma vez que a amplitude etária do nosso público pode ir dos 0 aos 100 e todos percebem que dinamizar uma sessão para bebés de um ano não é o mesmo que dinamizar uma sessão para um grupo com a média de idades de 80 anos. Além de que a abrangência da tipologia de Literacias é também, por sua vez, bastante vasta (linguística, funcional, artística, informática, pessoal, etc). Há uma enormidade de possibilidades e, individualmente, enquanto técnicos, não podemos, de modo eficaz, dar resposta a todas e há que saber identificar o nosso potencial e trilhar um caminho. Essa foi, e tem sido. uma das minhas prioridades.
Deste modo, e porque já tinha uma percepção clara de que a minha apetência era trabalhar com o público jovem e adulto, o meu caminho começou a delinear-se nesse sentido. Quer pela inclusão no projecto da Comunidade de Leitores já existente, quer no desenvolvimento - sob proposta das minhas colegas - do Português para Estrangeiros. Quanto ao público jovem, ainda não é uma realidade sistemática, mas há que dar tempo ao tempo, sabendo de antemão que a minha aposta será que estes adquiram competências sociais úteis em contexto profissional. Uma realidade constante, por que daí advém uma maior procura, é o público infantil. E aí penso que também já encontrei o meu caminho e que passa pela educação pela arte e pelo desenvolvimento da literacia artística, sendo esses os pilares do projecto Arte Ataque!

Assim, o meu propósito no próximo ano lectivo (e ano de “casa”) é sistematizar muito do trabalho feito até ao momento. Ou seja, colocar no papel, com as devidas contextualizações teóricas, a minha experiência quotidiana, com o objectivo de autonomizar os projectos e que os mesmos sejam replicáveis noutros contextos e locais. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Incumprimentos

não fui a Fátima
não compreendi o mistério das cartas
epistolas escritas de silêncio
em silêncio no silêncio
entre nós
arcanos de um amor menor
o francês resume-se a um
je t'aime moins que moins
sem sorriso sem coragem sem sonhos
e as unhas vítimas
das angustias da tristeza dos despedaço
que me tornei e quedei no caminho
que haveriamos de percorrer se um dia
soubessemos de um arco iris
no fim dos dias dos potes onde
as cinzas calaham a permanecer
até o barro se esboroar e misturar

nas cinzas que apenas seremos
Vesper, Patxi Cabrero

domingo, 11 de junho de 2017

acumulação sentimental

No meu coração, ou na parte do meu cérebro que comenda as memórias e a contabilização das mágoas, assentam alegrias que não sei explicar e tristezas que nunca entendi.
Nunca senti necessidade de explicar(-me) as minhas alegrias. Estas sentem-se, aceitam-se, aproveitam-se. Racionaliza-las é retirar-lhes o seu valor de espontaneidade e irreverência.

Já as tristezas... talvez tivesse a ganhar com a sua análise. Mas falta-me perspectiva. Então, deixo cair, sobrepostas, emoções que me afloram e não compreendo. Acumulando e sedimentando ou esboroando-se com o tempo. 
Ana Maria Sena

sábado, 10 de junho de 2017

Sobre concluir raciocínios

Quando desenvolvo um raciocinio e o procuro exprimir através de um texto escrito, há uma parte que raramente me agrada: a conclusão. Parece-me que, demasiadas vezes, não consigo eleborar uma conclusão sufucientemente lógica ou coerente com a explanação prévia ou que a termino de forma abrupta. Como se, em permeio, me faltasse atingir um qualquer nível de entendimento ou me falhasse a capacidade para o colocar em palavras, de forma compreensivel.
E nem tudo se conclui com um simples

FIM!
Tiago Afonso

sexta-feira, 9 de junho de 2017

modo de amar, valter hugo mãe

Jack Vettriano

prometo ser-te fiel se mo fores
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo

prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade

não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade

que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,

vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro

e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos

in 'contabilidade'