domingo, 20 de novembro de 2016

Que obras selecionar para uma comunidade de leitores?

(Comunidade de Leitores da biblioteca da Penha de França)

Há cerca de ano e meio, tive a oportunidade de integrar a Comunidade de Leitores da Biblioteca da Penha de França. Além do prazer pessoal, tem sido a oportunidade de colocar em prática muito do que tenho observado e aprendido, no que diz respeito à dinamização de comunidades de leitores. Uma dessas aprendizagens tem a ver com a adequação das propostas de leituras ao espaço, que, neste caso, é uma biblioteca pública, com uma missão e objectivos definidos.

Sendo uma biblioteca pública, o que é que faz (ou não) sentido promover em termos de leituras?


+ Explorar o acervo da biblioteca. As bibliotecas disponibilizam milhares de títulos aos seus leitores e utilizadores, e é ai que devemos buscar as nossas sugestões de leitura. Isto implica uma pesquisa e uma opção por títulos com o nº de exemplares suficientes para o nº de participantes na comunidade. Isto é uma lógica de economia, não faz sentido termos livros disponíveis, nem apresentar-nos como uma opção gratuita de acesso à informação, e pedirmos aos leitores que adquiram outros. Deixemos isso para outros espaços.


É claro que também coloca alguns impedimentos:


- A dificuldade em promover novidades literárias ou modas muito recentes ou, uma vez que não existem exemplares em número suficiente para todos. Por exemplo, neste momento não é possível seleccionar os livros de Elena Ferrante, uma vez que os poucos exemplares disponíveis da rede municipal de bibliotecas de Lisboa possuem uma lista de espera de cerca de 30 leitores. Existem, no entanto, livros que foram populares num dado momento do tempo e que fazem todo o sentido conhecer, mesmo que acabemos por entrar na onda do “clássico”.


Então em que podemos apostar?


+ Autores nacionais. Se somos uma biblioteca pública nacional, devemos, senão fazer bandeira, pelo menos, promover o maior número possível de autores nacionais, que nem sempre são do conhecimento do leitor. O que é nosso é bom e devemos defende-lo. Além de que possibilita apostar noutro tipo de actividade paralela ou subsequente: o encontro com o escritor. E, numa era de igualdade de oportunidades entre género, porque não tentar encontrar um equilíbrio entre autores do sexo masculino e feminino?


+ Autores internacionais. Uma das possibilidades que a literatura nos oferece é a de ver e conhecer o mundo pelos olhos do outro, neste caso, que melhor olhar do que o estrangeiro? Mas, sendo esta possibilidade tão abrangente, optou-se pela divulgação de premiados com o Nobel da literatura. Poderia haver outro(s) critério(s)? Poderia. Contudo, foi um ponto de partida consensual para todos os participantes e que nos levou à leitura, em 2016, de Orhan Pamuk, Ernest Hemingway e Nadine Gordimer.


+ Sugestões dos participantes. Aqui entra, não só a sensibilidade, mas a capacidade de análise do dinamizador de: perceber, durante as sessões, que autores não foram lidos pela maioria e avançar com essas mesmas propostas; registar as sugestões informais dos participantes; e incitá-los a sugerir, porque as comunidades são feita para os leitores e estes sentem-se mais identificados quando as suas sugestões são consideradas.


Outras comunidades terão outras opções e orientações de leituras. Estas, que não são estanques e imutáveis, apenas são uma continuidade do entendimento que, enquanto técnicos, fazemos do papel da biblioteca enquanto agente de promoção da leitura, com um acervo a potenciar e a divulgar, sem descurar a curiosidade dos seus leitores.



 

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