segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O pintor debaixo do lava-loiças, Afonso Cruz

"No fundo anda tudo aos círculos, desde as recordações às histórias." (p.24)

Esta foi a minha primeira leitura deste produtivo autor nacional, cuja obra se tem pautado pela versatilidade e transversalidade de géneros. Esta narrativa parece elaborada a partir de um quadro de Magritte, uma vez que as suas personagens parecem incoerentes com o pano de fundo temporal e social em que nos são apresentadas. (Além de não ser difícil imagina-las todas com um airoso chapéu de coco.) O que resulta numa narrativa que definiria de surrealismo mágico.
A partir de algumas pesquisas, parece-me o trabalho multifacetado de A.C. tem alguns pontos de contacto com a obra de Saramago, que as suas histórias tinham como ponto de partida um acontecimento impossível. Ora, as histórias de AC também parecem pautadas, não tanto por acontecimentos, mas sobretudo por personagens impossíveis.
O protagonista, Sors, é filho de uma engomadeira e de um mordomo que abomina armas, é incapaz de compreender uma metáfora ou de dizer algo que não seja o que pensa, o que, em última instância, o leva à morte. Sors é um personagem melancólico, incoerente com o mundo que o rodeia, e uma paixão por Frantiska. Ao acompanharmos o seu percurso ora atribulado, ora desligado, vamos acedendo a reflexões sobre a violência e a guerra, os portugueses, os afectos e como o cuidado por vezes chega de quem menos se espera. O final da narrativa é esperançosa, como deverá ser qualquer manifestação na capacidade de transformação humana. No entanto, tal como a narrativa, parece incoerente com o percurso do protagonista, sobretudo porque a pedra de toque da transformação é tão suave como um grão de areia.

Editora: Caminho | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, abril 2011 | Impressão: Multitipo | Págs.: 175 | Ilustrações: Autor | ISBN: 978-972-21-2418-8 | DL: 327110/11 | Localização: BLX PF 82P-31/CRU (80313787)

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