sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O Vale da Paixão, Lídia Jorge

"Falar de resultado, neste caso, seria o embelezamento duma ideia de vítima, e a filha (...) era ela mesma, e a herança consistia na mistura do que herdava com a transformação da herança, feita por sua vontade." (p. 127)
Esta foi a minha primeira incursão pela escrita de Lídia Jorge. Este romance, subdividido em 100 pequenos capítulos, relata-nos, ora na primeira, ora na terceira pessoa, a história da família Dias, e em especial do seu filho Walter, e o modo como a sua ousadia e ausência influência e molda a continuidade da mesma.
A narração está a cargo de uma mulher, cujo nome nunca é nomeado, e que se fica a saber ser a filha biológica de Walter, mas que é perfilhada pelo seu tio Custódio. Ela faz-nos então compreender como esta “verdade”, este acordo tácito, que é do conhecimento de todos, mas que nunca é verbalizada, se torna uma pedra basilar de todas as relações familiares, e sobretudo da sua personalidade. Porque a ausência de Walter, o trotamundos, como é chamado pelo pai, permite uma idealização e essa idealização pode ser a maior herança que ela alguma vez receberá. Esta é uma ideia que Mia Couto também refere no seu O Outro Pé da Sereia, quando uma das personagens afirma: “Vila Longe era uma terra de homens ausentes. Saiam dali adolescentes, sem idade para serem homens. Regressavam doente, demasiado tarde para serem maridos. Por fim, tornavam-se país quando as esposas ficavam viúvas.” (p. 243)
Mas este não é o único livro que esta narrativa me trouxe à memória. O outro livro é A História de meu filho, da nobelizada Nadine Gordimer. Ambas as narrativas resultam da tentativa dos filhos de colocar por escrito as suas histórias e assim compreender e ganhar consciência de como as relações parentais, seja de que nível forem, têm um papel primordial e inescapável na formação do individuo. E como as percepções dos filhos se alteram ao longo dos anos, à medida que estes vão amadurecendo e compreendendo outras subtilezas da suposta maturidade: “Será que alguma vez nos esquecemos deles, dos pais, por um momento? (…) Porque mesmo quando desafiamos os pais, quando os enganamos, confiamos neles.” (p. 33); “o que ele fez (…) fez de mim um escritor. / Eu sou um escritor e este é o meu primeiro livro – que não posso publicar nunca.” (p. 218)
os narradores, ao escreverem-se e às suas circunstâncias, conseguem assim ganhar o distanciamento necessário para compreender os seus progenitores fora do seu espectro parental, para os perceberem e aceitarem como adultos imperfeitos e assim conseguirem enterrar o passado, seja sob a forma de uma manta militar, seja pela catarse dos seus fantasmas.
Editora: Biis (Leya, SA) | Local: Alfragide | Edição/Ano: 6ª, 2009| Impressão: Litografia Rosés | Págs.: 189 | Capa: Rui Belo / Silva! Designers | ISBN: 978-989-65-3001-3 | DL: 283602/08 | Localização: BLX Oli ROM ROM-POR JOR (80319867)



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