segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A leitura primordial e única

Nas bibliotecas existem milhares de livros que nunca foram lidos. Aguardam serenos, com as lombadas alinhadas, as capas inibidas e as páginas lisas, à espera do momento em que dedos incautos as percorram, fecundando-as com o olhar e criando um universo entre palavras e imaginação, que o autor inicia e o leitor povoa. Estes livros são, por ventura, as meninas feias das festas que ninguém convida.
Não sei já dizer quantos destes livros iniciei na arte de serem lidos. Sei que alguns não serão lidos por mais ninguém. O que faz da minha, a leitura primordial e única. Por isso, não é vã. Fica marcada naquelas páginas, outrora virgens e intocadas, agora viúvas de outros olhares.

Imprimi a minha presença primeira nas suas páginas para que outros percebam: cheguei tarde a este novo mundo. Já não sou explorador nem colonizador destas páginas. Sou só e apenas aquele que veio depois e que tem de lidar com as marcas deixadas. Sim, marco a minha posse. Deixo a bandeira da minha descoberta. 

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