sexta-feira, 3 de março de 2017

Eu sou a árvore, Possidónio Cachapa

"As árvores sabem uma coisa que os homens negam. Que um segredo sobre o fim de tudo é, na verdade, apenas o começo de outra coisa qualquer." (p. 346)
Antes de mais, devo salientar que este foi o livro que mais me entusiasmou nos últimos tempos. Porquê? Vamos ver se consigo explica-lo.
Começamos por conhecer Hyperion, considerada a árvore mais antiga do mundo, e como tal talvez o ser vivo mais solitário ao cimo da terra e também o ser com uma perspectiva única sobre a passagem do tempo e as patetices do homem perante a sua passagem. Depois, conhecemos Samuel e gradualmente a sua família: Jude, a esposa, Laura, Esperanto e Vitória, os filhos. Esta família é marcada pela relação obsessiva de Samuel com a terra, o seu cultivo, que antepõe inclusive à sua relação familiar, dando-os como adquiridos mas nunca retribuindo o seu amor ou colmatando as suas necessidades da sua presença.
Aqui, esta relação obsessiva fez-me recordar duas leituras recentes: Lavoura Arcaica e O Vale da Paixão, em que o valor ancestral do cultivo da terra se sobrepõe a qualquer liberdade individual, o que, em ultima análise, acaba com uma implosão da(s) família(s). Porque a terra é uma amante cruel, que exige e nunca retribui como desejado. Como resume o narrador: “A terra dá e a terra tira. Porque a terra espera também o dia em que será vencedora sobre o corpo físico do homem. Nela entrará a sua carne ou pousarão as suas cinzas.” (p. 133)
Um dos temas explorados é o das consequências dos nossos actos. Seja pela negligência (de Samuel perante a família), seja pela justiça pouco poética (da vingança sobre Casaca), seja pelo sofrimento e pacto silencioso que une os três irmãos. Laura, a primogénita, é, aparentemente, a protagonista desta história, pois é através de si que vamos começando a conhecer a família. Mas, além de Samuel, no fundo a personagem central, é Vitória, a irmã mais nova, que nos fica na memória. Uma criança que, devido a limitações físicas, e um acompanhamento inexistente dessas limitações, acaba também por ter uma percepção muito própria e única do mundo que a rodeia, tornando-se incompreendida e incompreensível para todos. É uma daquelas personagens maiores do que a nossa percepção e como tal uma personagem que acaba cedo de mais.
Esta foi a minha primeira incursão na escrita deste autor, que de tal forma me surpreendeu e cativou, que neste momento, além de sentir que tenho de conhecer mais do seu trabalho, sinto igualmente que tenho de deixar passar algum tempo para o fazer, para essa leitura não ficar demasiado contaminada pelas expectativas.

Editora: Companhia das Letras | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Junho 2016 | Impressão: Printer Portuguesa | Págs.: 348 | Capa: Panóplia | ISBN: 978-989-665-099-5 | DL: 411737/16 | Localização: BLX Mar 82P-31 CAC (80372035)

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