quinta-feira, 15 de junho de 2017

a capitalização do amor, valter hugo mãe

David Cutter
não escondemos que aprendemos a 
capitalizar o amor, entregando 
amplamente os nossos melhores 
momentos às raparigas mais carentes. 
o amor, sabemos bem, é o caminho directo 
para a inutilidade, e nós procuramos as 
raparigas que mais rapidamente se 
inutilizem perante as coisas clássicas 
da vida. não nos queremos atarefar com 
a vulgaridade, e gostaríamos até de 
impregnar cada gesto com características 
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o 
dinheiro também e, se só pensamos no amor, 
não temos como fazer de outro modo 
senão vendê-lo entusiasticamente, como 
fontes de trovões bonitos jorrando nas 
praças mais movimentadas das cidades. e 
as raparigas correm para nós urgentes 
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o 
amor se abate sobre elas, uma alegria rica 
de se ver, e nós a balançar os braços para 
chamar a atenção de mais e mais e 
já nem sabemos como parar, como forças 
incontroladas, à semelhança de mecanismos 
ferozes da natureza, e só sairemos daqui 
quando desfalecermos de amor até 
pelas raparigas mais feias 

in 'contabilidade' 

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