quarta-feira, 5 de julho de 2017

Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, Haruki Murakami

“… trata-se de um livro em que me limito a fazer perguntas em voz alta sobre várias coisas e no qual procuro avançar as respostas.” (p. 8)

Não sou uma desportista. Posso ter uma certa inveja (e esta não é a palavra certa) de quem o é e retira prazer da sua prática. Racionalmente, entendo os benefícios e o prazer que a produção de certos níveis de adrenalina e outras substâncias conferem. Mas o esforço… o esforço necessário… esse investimento nunca me convenceu.
Já a escrita, e que sempre considerei como um processo semelhante ao da corrida de fundo, é algo que sempre busquei e na qual me tenho encontrado amiúde. O seu esforço não me assusta. Mas a resistência e a persistência que lhes são inerente não têm sido uma aquisição fácil ou rápida. Lenta e gradualmente tenho feito um percurso que está longe de dar frutos, mas a caminhada está iniciada.
Há muito que este livro me tinha suscitado curiosidade. E não me desiludiu. Ao longo do que me pareceu um suave passeio, o autor relata-nos a sua experiência enquanto corredor de fundo e o modo como esta moldou o seu carácter e, consequentemente, a sua escrita. Das várias comparações que o autor tece, saliento:
  • p. 18) … verdadeiramente importante é o facto de, com a sua escrita, o escritor atingir a finalidade a que se propôs, o nível que estabeleceu como meta. (…) o escritor possui uma motivação interior, uma força calma que não necessita de aprovação nem de ser validada através de critérios exteriores.
  • p. 84) … qual a qualidade mais importante para ser romancista?
    • Talento: … o dono … não domina nem a quantidade nem a qualidade do mesmo.
    • Concentração e persistência: adquiridas e melhoradas com a ajuda de exercícios.
  • p. 87) Para mim, escrever romances é fundamentalmente um trabalho físico. A escrita em si talvez seja um trabalho intelectual, mas dar forma a um livro inteiro, acabar de o escrever, tem mais que com o ofício manual.
Esta leitura sedimentou um pouco mais a minha vontade de persistir na escrita. Seja ela lida ou não, reconhecida ou não. É através dela que me vou entendendo e ao mundo. O que talvez tenha contribuído, algo inesperadamente, foi para a consciencialização da necessidade de cuidados físicos mínimos para que o corpo suporte as exigências mentais e físicas da escrita. Só quem escreve sabe o trabalho por trás de uma aparentemente simples página A4.


Título Original: What I talk about when I talk about running | Tradução: Mª João Lourenço | Editora: Casa das Letras | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, Nov. 2009 | Impressão: Multitipo AG, Lda. | Págs.: 186 | Ilustrações: fotos do autor | ISBN: 978-972-46-1923-1 | DL: 300616/09 | Localização: BLX PF 82-94 MUR (80260709)

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