segunda-feira, 17 de julho de 2017

Qual o perfil de um dinamizador de comunidades de leitores?

Já aqui escrevi sobre o meu processode dinamização de uma sessão de Comunidade de Leitores. No entanto, também me parece útil elencar e explicar algumas características que considero úteis a um dinamizador. Estas características não inatas a todas as pessoas, mas na sua maioria são capacidades que se desenvolvem com empenho e vontade. Juntei-as em pares, pois parece-me que algumas noções são indissociáveis e mais fáceis de explicar na sua dinâmica.
+ Gosto & Compromisso. No ensaio “Este vício ainda impune”, Michel Crépu afirma que a leitura pode ser “O descanso como forma de trabalho? Trabalho como forma de descanso.” Dinamizar uma comunidade de leitores deve ser um trabalho feito com gosto, porque esse prazer que, à partida, devermos retirar da leitura deve transparecer e é um dos elementos agregadores de um grupo de leitores e que o vai transformar nessa comunidade ideal. Mas haverá momentos da nossa vida pessoal e profissional em que a preparação das sessões será complexa. Aí, tem de entrar em cena o compromisso. É ele que nos vai fazer ler livros que afinal não serão tão aliciantes como julgávamos ou nos fará encarar um livro quando o nosso ânimo simplesmente não está para lá virado. É o que acontece em todas as relações. É fácil dizer que é simples ler um livro por mês. Contabilisticamente sim. Mas a leitura além de um gosto por vezes é um grande investimento sentimental e temporal, para o qual devemos estar preparados. E nem sempre a nossa vida, nas suas diferentes facetas, se coaduna com esta predisposição.
+ Pesquisa & Síntese. Não é obrigatório que um dinamizador seja especialista em, p. e., literatura, que é o género habitualmente lido. Mas, como em qualquer área, devemos preparar-nos o melhor possível. Não sabemos, pesquisamos. E, actualmente, o que não falta são partilhas de informação na internet que podem ser óptimas ferramentas de apoio. Depois, é claro, é necessário chegarmos as nossas conclusões e às nossas sínteses. Sem qualquer receio de que estas não sejam maioritárias ou correspondentes a tendências.
+ Capacidade de expressão & Escuta Activa. Nas sessões, deparamo-nos com as mais variadas opiniões e também com a incapacidade dos participantes de organizarem as suas opiniões e impressões de forma inteligível. Cabe-nos, enquanto dinamizadores, não perder essas participações igualmente válidas. Então, tem de entrar aqui o nosso papel de mediador em que, primeiro, temos de saber ouvir “nas entrelinhas” e depois ajudar a encontrar as palavras mais adequadas.  
+ Humor & Assertividade. Duas ferramentas essenciais para dar a volta e pôr um fim a questões mais sensíveis.
+ Autenticidade & Transparência. Se por algum motivo não gostamos das obras que lemos ou até, nesse mês, não a lemos. Não adianta fingir (a não ser que seja uma óptimo actor, e eu não sou). A nossa experiência de leitura sendo única, muitas vezes não difere assim tanto da dos outros leitores. Achamos a histórias e as estratégias do autor incoerentes. Ora aí está um tópico de debate. A leitura foi difícil. Porquê? Outro tópico. Como é que se chegou a este autor pela primeira vez? Quais as nossas resistências e as nossas preferências? Quais os contextos de leitura? São tudo questões que podem ajudar a dinamizar a sessão. E quanto mais autênticos e transparentes formos com as nossa opiniões e impressões, mais facilmente ganhamos a confiança e o à vontade dos participantes.

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