sábado, 16 de setembro de 2017

Dom Casmurro, Machado de Assis

Há muito que esta leitura era devida. Primeiro, iniciei-a há cerca de 2 anos, mas interrompi. Depois, li Os Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, um policial em jeito de homenagem literária a Machado de Assis e à Academia Brasileira de Letras. Pelo meio, sempre a encontrar referências constantes à sua obra que contribuem para a minha percepção de que Assis está para o Brasil como Camões e Pessoa estão para Portugal.
Os dois elementos distintivos deste livro são a mestria na utilização do humor, ora mais subtil, ora mais cáustico, mas sempre eficaz, que transformam o que poderia ser mais um drama inócuo na obra de renome que é. O segundo é o diálogo constante com o leitor, que afasta o narrador de registo tradicional para o coloquial do contador de histórias, que por acaso, neste caso, é a sua.
Depois, há Capitu, personagem que, com os seus olhos oblíquos e dissimulados de ressaca, ombreia com as grandes heroínas da literatura, como Ana Karenina, madame Bovary, Salomé, entre outras. Uma personagem que aos 14 anos é já mulher, ciente do seu papel na sociedade mas, sobretudo, ciente das suas possibilidades. Não necessariamente uma mulher calculista, mas pragmática ao ponto de saber que a(s) possibilidade(s) de um bom casamento, sendo parca(s), não pode descartar a mais óbvia e igualmente a mais simples: Bentinho. O juntar o útil ao agradável.
Já Bentinho é um menino ingénuo e imaturo e continuará a sê-lo mesmo na idade adulta, dependendo sempre da orientação da mãe, da família, de Capitu e de Escobar na resolução dos seus problemas e desafios. Até ao momento em que o desafio e a desconfiança vêm exactamente destes dois últimos e se materializa nas parecença física de Ezequiel, seu filho, com o seu melhor amigo Escobar. Mas será Capitu realmente adultera ou Bentinho apenas homem insuficiente, deixando que a dúvida o mine por completo. Certo é que Capitu é mais mulher do que Bentinho será homem e perante o confronto não cede nem hesita um milímetro que seja perante a desconfiança (como sempre). E o que faz Bentinho com isso? É incapaz de aceitar a putativa traição e impõe a separação, renegando todos os anos de felicidade, todo o orgulho (e vantagem) nas capacidades domésticas e de gestão de Capitu, e todo o amor de Ezequiel, incapaz de compreender a separação. Desde modo, vota todos a uma eventual infelicidade, embora o afastamento não lhe permite sequer nem demonstrar qualquer interesse ou sequer saber da eventual felicidade dos outros.
Esta acaba por ser uma história intemporal: a do homem que, consumido pelo ciúme, é incapaz de a falha no outro ou como se ele fosse um ser superior e que qualquer falha perante ele tenha de ser punida. E, tal como na vida, todos os personagens acabam por morrer, e tal como na vida, poderiam ter sido felizes até que a morte os separasse, se soubessem a arte do perdão e da aceitação.


P.S. No entusiasmo de escrever esta minha compreensão pessoal sobre esta obra, sobre a qual haveria, com certeza, muito mais a escrever, não posso deixar de agradecer as palavras trocadas com Sandra Raposo Tenório e Teresa Alves Martins, cujas opiniões são em muito consonantes.

Editora: BYs (Leya) | Local: Alfragide | Edição/Ano: 2ª, Set 2013 | Impressão: BlackPrint | Págs.: 318 | Capa: Rui Garrido | ISBN: 978-989-660-235-2 | DL: 351481/12 | Localização: BLX COR ROM  ROM-EST  ASS (80356414)

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