quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ARTE POÉTICA, Mário Dionísio

 A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia 
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida, nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos, nos ascensores constantes, na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores, nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica e no fumo da fábrica. A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais, no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo. Está no riso da loira da tabacaria, vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos. Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar. A poesia está na doca, nos braços negros dos carregadores de carvão, no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar — e só durou esse minuto. A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento, nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho de terras sempre mais longe, nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus, na angústia da vida.
está nos olhos abertos para amanhã.
A poesia está na luta dos homens,
In Poemas, 1941


1: «Monólogo a muitas vozes». óleo s/ tela, 45 x 34, 1976.

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