segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ser juiz em causa literária (própria e alheia)

Diz o ditado que somos maus juízes em causa própria. E embora tenhamos algum pejo em admitir, sabemos que é verdade. Isso poderia fazer supor que tornasse mais fácil submeter o nosso trabalho à apreciação de outros. Não necessariamente. Seja porque não reconhecemos mérito suficiente no avaliador, seja porque receamos que a afinal a apreciação seja mais negra do que queremos admitir.
Posto isto, já me tem sido solicitado a apreciação de alguns textos, quer em fase de preparação, quer já concluídos e publicados. Quando isso acontece, tento analisar os textos da forma mais completa possível que aminha bagagem de leituras e a minha experiência de escrita permite. Se estes apresentarem uma ideia interessante, devidamente desenvolvida e forma coerente e com uma linguagem compreensível e que sirva o objectivo do texto, qualquer opinião e/ou reparos de gralhas se torna fácil. No entanto, quando o contrário acontece nem sempre é fácil encontrar as palavras para – de modo assertivo, mas construtivo – dizer tudo o que não o que não foi conseguido com o texto.
Ter uma ideia interessante para um texto é por vezes o menos importante. Mais importante é dar corpo a uma ideia. É pena quando percebemos que o autor do texto que lemos não tem uma ideia precisa do que persegue ou quer atingir. Então, o seu texto, na verdade, é um acumular de divagações imprecisas que mina qualquer tentativa de desenvolvimento, bem como a linguagem utilizada. E tudo isso transparece para o leitor que, se conseguir terminar a leitura, o fará somente por respeito ao autor.
Se há textos que, pelo seu conteúdo, adoraria ter escrito. Outros há em que só consigo invejar a tenacidade em alinhavar frases suficientes para apresentar um texto que o autor considere completo. A minha bagagem de leituras – mais do que a minha experiência de escrita – faz-me elevar os níveis de comparação literária, que me impedem de considerar apresentáveis alguns dos meus textos. Também me impede de assim o considerar os textos alheios. E não julguem que sou mais crítica com os outros do que comigo. Muito pelo contrário. Mas questiono-me se os outros autores têm capacidade de autoanálise suficiente para, no mínimo, melhorarem os seus textos, e humildade para os mostrarem a um leitor atento e capaz de formular análises sinceras e fundamentadas. Alguns dos textos que leio ganhariam imenso com um humilde processo de edição, que os transformaria em trabalhos muito interessantes e consequentemente capazes de atrair mais público.

Parece-me, no entanto, que o inebriamento com o próprio trabalho e a falta de profissionalismo de alguns responsáveis editoriais deita tudo a perder. O que comprova que, em última análise, somos realmente maus juízes em causa própria. 

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