quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Se eu fosse chão, Nuno Camarneiro

Um quarto fechado é sempre uma história por contar, enquanto não o abrirem, cada um há-de ter a sua.” (p. 124)
O hotel Avenida Palace é, à partida, o cenário de tantas histórias quantos os seus quartos e os personagens que o percorrem, sejam hóspedes, visitantes ou trabalhadores. Mas só podemos vislumbrar as que se deixam ver no momento em que, por ventura, se entreabre a porta à nossa passagem. Na verdade, encerram em si infinitudes de vidas das quais nada jamais saberemos.
O hotel é um microcosmos: “um mundo pequeno feito à imagem do outro maior. Nós garantimos que a escala permaneça justa, sem nada aumentar ou reduzir.” (p. 86). mas é também uma alegoria possível para a literatura: “A literatura é a mais horrenda das artes, porque é feita da mesma matéria com que falamos e nos enganamos a nós e aos outros. … Lemos o que queremos ou precisamos de ler, lemos como amamos e caímos.” (p. 94)); e para o labor da escrita: “Não nos peçam para corrigir o que vai torto ou torcer o que anda certo. … Somos artífices do detalhe e da memória, e não nos peçam mais.” (p. 86)
Uma leitura rápida e cativante, mas não necessariamente simples e fácil, pois se reconhecemos alguns das referencias corporizadas por algumas das personagens – como é o caso do Professor António de oliveira (p. 13 e 14) -, há também a sensação de que outras tantas nos escapam: “Como serão os homens sem luz?” (p. 15)

A primeira sensação é de algum desconforto, pois não estou habituada à leitura de narrativas tão pequenas e tenho sempre a impressão de nunca permanecem. No entanto, e finda a leitura, alguns das histórias mantêm-se e, apesar da aparente pequena dimensão, a grandeza do livro reside na capacidade de reverberação das mesmas em nós. Numa segunda análise, são – talvez fruto da formação cientifica do autor - a rectidão da estrutura e o potencial – entre os seis graus de separação e a teoria do gato de Schrödinger – de histórias que nos cativam, porque no momento em que abrimos aquelas portas, foram estas que se apresentaram. Mas poderiam ter sido infinitamente outras.  
Editora: dom Quixote | Local: Alfrgide | Edição/Ano: 1ª, Maio 2015 | Impressão: Multitipo AG | Págs.: 126 | Capa: Neusa Dias, sobre imagem “Night in the city”, de Jack Vettriano | ISBN: 978-20-5749-3 | DL: 390590/15 | Localização: BLX PF (…)

Sem comentários:

Enviar um comentário