quinta-feira, 8 de março de 2018

Bruno Viera Amaral e a análise (quase forense) de uma geração


Quando, há uns meses atrás, li Aleluia!, não pude deixar de sentir um enorme grau de identificação, que sintetizei da seguinte forma:
Este ensaio é uma análise lúcida sobre fé pessoal, sobre religião organizada e, sobretudo, como por vezes esses caminhos parecem – para quem os percorre - incompatíveis e sujeitos a sentimentos demasiado subtis, muitos incompreensíveis, e até contraditórios e aleatórios.[1]
Embora a minha “formação” religiosa fosse católica apostólica romana, lá pela adolescência ganhei a percepção de que o corporativismo aqui identificado[2] afastava a religião organizada do cerne da sua palavra. É uma herança que aceito, mas que deixou de me fazer sentido, mas nem por isso deixei de tentar perceber qual o seu papel e a sua importância nas nossas vidas.

As primeiras coisas foram lidas em duas etapas[3]. O que não impediou um novo sentimento de identificação. O fictício Bairro Amélia (BA) é um (não tão) microcosmos da nossa aldeia global nacional. Resulta da visualização ao microscópio de uma lamela da nossa idiossincrasia nacional num determinado local, num determinado período da história linear do nosso país:
O BA é transversal a muitas vivências à margem da urbe lisboeta. O BA é um state of mind geográfico-geracional.
Isto é o mesmo que dizer que algumas daquelas pessoas, alguns daqueles lugares me são familiares, embora a minha se situe em Agualva-Cacém e a maior diferença seja o meu “bairro” seja habitado, não tanto por quem teve de sair dos diversos países africanos, mas por quem teve de sair do interior do país em prol das ambições e esperança de uma vida melhor, muitas vezes gorada pela engrenagem de uma herança social que poucas possibilidades permitia.

Então, eis que cheguei a hoje estarás comigo no paraíso. E com ele a uma nova identificação. Esta mais pessoal: a do impacto familiar que uma morte mal esclarecida pode ter[4]. É também um relato sobre luto. Mas é sobretudo sobre como olhamos para a nossa família, a nossa primordial referencia para o mundo que nos rodeia, e como a maioridade significa tão somente sabermo-nos sentar junto dos nossos, por vezes heróis de infância, e vê-los como os homens e mulheres que são, na maioria das situações, apenas sobrevivendo às (suas) escolhas possíveis. Ou como o autor sintetiza: Onde é que a história da nossa família contamina a nossa história individual?” (p. 297)

Olhando agora os três livros em perspectiva, parece-me que cada um – no seu jogo de registo pessoal a tocar o documentário e a ficção a partir da experiência pessoal – procuram explorar a tríada basilar da formação identitária do individuo: fé, pátria e família. E estando estas três vertentes tratadas, é com curiosidade que aguardo o futuro trabalho do autor.

Deixei propositadamente para último a alusão ao Guia para 50 personagens da ficção Portuguesa. Este não se enquadra, pelo menos à primeira vista, nesta tríade identitária. Mas… se a nossa opção profissional diz muito sobre o que somos e o modo como encaramos o mundo, e a minha opção recaiu sobre o mundo dos livros e de como os podemos levar aos demais, então este livro revelou-se uma interessante ferramenta para o meu trabalho e, claro está, para mim, contribuindo um pouco mais para o meu desenvolvimento profissional e não só.



[1] A auto-citação pode parecer presunçosa, mas nos tempos que correm, não quero ser acusada de auto-plágio e ter de me auto-despedir da escrita deste blogue que, apesar de público, é auto-pessoal.
[2] E a cada passagem em que substituía a palavra igreja ou religião por outra igualmente institucional, como entidade patronal, associação, entre outros, e a identificação é a mesma.
[3] Constrangimentos de quem faz da biblioteca pública a sua biblioteca privada e de quem quer ler mais e melhor e se deixa levar por leituras intercalares.
[4] Há muito que convive em mim a ideia de colocar no papel a possível história de Adelaide Lucinda. E sim. Qualquer semelhança com o meu nome é puramente intencional.   

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