sábado, 3 de março de 2018

hoje estarás comigo no paraíso, Bruno Vieira Amaral

Todas as famílias têm a sua quota parte de mistérios, histórias que se calam. Seja por falta de conhecimento, seja porque levantar o véu do seu esclarecimento passa também por desvendar facetas dos seus elementos que se querem longe de julgamentos e censuras. Quem julga que não tem histórias caladas no seu passado familiar é porque escolhe não as ver ou porque foi privado de um tal seio, e só isso é já um silêncio desarmante.
Neste seu trabalho, Bruno Vieira Amaral (BVA) abre-nos a porta para o seu contexto: a morte, em circunstâncias nunca devidamente apuradas, de um primo cuja memória era feita de outras parcas referências familiares, e o lastro que deixou na família e na comunidade, inclusive em gerações com nenhum contacto com o mesmo. O apuramento, passados mais de 30 anos depois, do que levou à morte de João Jorge torna-se uma viagem obsessiva para encontrar respostas, que no fundo nunca surgem, porque são impossíveis de obter, e resulta sobretudo numa (re)descoberta de todo o restante contexto familiar. Ou seja, descobrir ou constatar, uma vez mais, que “a família é uma empresa complicada de hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações.” (p. 41) E que os que amamos são detentores de uma história, quando apreendida, que nos obriga a avaliar ou a testar os nossos sentimentos por eles. Que descem do pedestal de heroicidade que a nossa infância lhe dota, para os percebermos, afinal, capazes de tudo o que julgamos não fazer parte da nossa história, da nossa memória.
Qual o impacto desse conhecimento, “Onde é que a história da nossa família contamina a nossa história individual?” (p. 297) É uma questão que só cada um pode responder e tentar descobri-lo através dos nossos mortos é uma demanda vã, pois “Porém, bem sei, não são os mortos que falam connosco, nós é que precisamos desesperadamente de os ouvir. (…) Somos nós que imploramos por sentido, para que os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas.” (p. 359)

Editora: Quetzal | Colecção: língua comum| Local: LX | Edição/Ano: 1ª, abril 2017 | Impressão: Bloco Gráfico | Págs.: 363 | Capa: Rui Rodrigues | Ilustrações: algumas fotografias | ISBN: 978-989-722-358-7 | DL: 421906/17 | Localização: Pax 

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