domingo, 1 de abril de 2018

(o meu) Curso de Cultura Geral


Tenho seguido, a destempos, alguns episódios do Curso de cultura Geral da autoria de Anabela Mota Ribeiro, em que esta desafia os seus convidados a partilharem 10 experiências culturais que tenham sido transformadoras no seu percurso pessoal. Tal fez-me reflectir nas minhas experiências e ponderar no modo como as mesmas me impactaram. Algumas dessas transformações fora-me óbvias no momento e não é à toa que acompanham os meus tops há tanto tempo quanto me dou ao trabalho e à ingenuidade de os fazer. Mas hoje, mais do que refazer o(s) top(s), interessa-me os conceitos e/ou sentimentos subjacentes aos mesmos. E a minha síntese – actual – é a seguinte:
- o silêncio. Conseguir captá-lo e torná-lo um elemento tão forte na narrativa e capaz de transportar consigo tudo o que um personagem não consegue pronunciar foi o que me fascinou em duas das minhas primeiras paixões artísticas, Le Gran Bleu de Luc Besson e Loucos por amor de Sam Shepard.
- educação pela arte / educação não formal. Estas duas expressões são relativamente recentes no meu percurso profissional, mas parecem-me ser suficientemente abrangentes para abarcar tudo o que aprendi nas páginas do extinto Se7e e nos filmes que a partir de 1986/8 – não consigo precisar o ano, mas consigo balizar entre estes 2 - passaram a ser consumidos em catadupa lá em casa, após a entrada no burgo familiar de um leitor de VHS.
- para lá do óbvio. É assim que hoje classifico a característica que me atrai em alguns dos actores que descobri a partir desse momento, sendo que a minha grande paixão, e agora um amor de longa data, Willem Dafoe é a sua epitome. Há vários outros, felizmente há vários outros cuja carreira, personagens e interpretações são para lá de óbvias.
- a transposição do eu como forma de tentar compreender o mundo. É talvez o resumo de toda a arte. E talvez a única forma de compreendermos o que nos rodeia seja percebendo como é que os acontecimentos – históricos ou pessoais - nos afectam como indivíduos e ganhando essa consciência sejamos capazes de ver o outro e compreende-lo e aceita-lo na sua própria caminhada. Compreender-nos para aceitar os outros, pode não ser a leitura que os demais fazem da pintura de Frida Kahlo, mas – na minha ignorância da sua vida – ao observar os detalhes de alguns dos seus trabalhos penso que, infelizmente, os nossos lutos podem ser belíssimas e introspetivas formas de arte.
- a liberdade do individuo como uma batalha sempre premente e continua. Não sendo dois livros iguais, seja pelo registo, seja pela intenção, na minha mente é a eles que recorro quando me sinto encurralada pelas engrenagens do quotidiano. Se isto é um homem de Primo Levi leva-me, claro, a relativizar tudo. A sua leitura não nos deixa indiferentes. De que nos podemos afinal queixar se há uma experiência humana como a do holocausto. Mas não é apenas o queixar são as pequenas formas de no dia a dia sem futuro ainda desafiar a desumanização sistematizada e intencional. E é esta indução sistematizada e intencional naquilo que de mais pode ser único e individual no ser humano, o espaço dos seus sonhos, que Ismail Kadaré alegoriza no seu Palácio dos sonhos, mas que sentimos não estar longe da nossa percepção do nosso quotidiano comunicacional.
- e ainda... e terá sempre de haver espaço para o que há-de vir. Porque, mal de mim, se não tornasse a ser surpreendida.

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