quarta-feira, 16 de maio de 2018

Matteo Perdeu o Emprego, Gonçalo M. Tavares

Esta nova incursão na escrita de GMT deveu-se ao desafio colocado por Isabel Zilhão, que dinamiza uma nova comunidade de leitores dedicada à relação entre ciência e Literatura e que tem lugar na biblioteca Galveias. E sobre isso falarei num novo post.
Como sempre, a leitura de GMT é algo que me resulta estranho e incómodo… mas que, simultaneamente, sinto necessidade de reincidir. Creio que esta estranheza aporta da sensação de que há inúmeras referências que me escapam. A sua erudição, que é transversal a tantas áreas de conhecimento, coloca uma fasquia de compreensão que o meu património de leituras e referências não é capaz de atingir. E este é um dos motivos do meu desconforto, afinal, quem gosta de ser confrontado com as suas limitações? O segundo motivo é a extrema racionalidade da sua escrita. Nada é aleatório e sem intenção. O que parece deixar a emoção de fora. Vence-nos a estranheza, e por vezes a bizarria e o grotesco, das suas personagens, mas não as suas emoções e sentimentos, de que, na maioria das vezes, parecem desprovidos ou, no mínimo, demasiado anestesiados para que possam ser deveras sentidos.
Então, o que nos instiga e conquista na leitura de GMT? As reflexões a que nos obriga em virtude do confronto em que nos coloca com as mais inusitadas, e por vezes abjectas, situações e personagens.  
Neste Matteo…, é nos apresentado um conjunto de personagens peculiares ordenado alfabeticamente, como o poderia ter sido de outra forma qualquer, sem o qual seria impossível chegar a Matteo. Como qualquer “sistema de ligações”, este confere uma “ordem externa”, mas ainda assim necessária, para uma tentativa de entendimento de uma possível realidade entre “infinitas ordens.” E através destas personagens somos levados a diversas reflexões como: o que é a escolha e se existe realmente escolha; o que é loucura ou sensatez, razão ou verdade, o que as difere, se é que há alguma diferença; a nossa educação serve-nos ou é somente lixo ao qual necessitamos sobreviver para singrar; o impacto construtivo do não; a circularidade da narrativa e da vida quotidiana; a supremacia actual da racionalidade como forma de apreensão do que nos rodeia; o erotismo do grotesto; o homem perante o labirinto que nos reduz a respostas únicas como sendo verdades únicas; a necessidade humana de organizar e dar sentido aos caos e ao aleatório; a incapacidade de aceitar o outro, a diferença, o aleatório e o inexplicável. E mais… muito mais…

Editora: Porto Editora | Local: Porto | Edição/Ano: 2ª, Dez 2010  | Impressão: Bloco Gráfico, Lda. | Págs.: 210 | Capa & Ilustração Fotográfica: Diogo Castro Guimarães & Luís Maria Baptista | ISBN: 978-972-0-04290-3 | DL: 314969/10 | Localização: BLX PF 82P-34/TAV (80238835)

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