quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Damas, Ases e Valetes, Ana Benavente e Maria Manuel Viana


Esta é a minha terceira incursão na escrita de MMV, após Teoria dos Limites e A Gramática do Medo (cujo registo de leitura percebi agora ainda não ter deixado aqui, situação que sanarei em breve). Este é igualmente o terceiro livro da autora (os dois primeiros são já um tanto ou quanto complexos de encontrar) e o primeiro escrito a quatro mãos com outra autora (experiência que repetiria com Patrícia Reis em A Gramática do Medo).
Como não poderia deixar de ser, no percurso de escrita desta autora, esta é uma história de mulheres. Duas primas, mais do que primas, irmãs de alma, e as suas filhas. E o modo como, num pós 25 de Abril, procuraram viver as suas vidas dentro da liberdade que ansiavam, libertas de alguns dos constrangimentos sociais e familiares anteriores, mas aceitando as consequências, mesmo que duras e sofridas, das suas escolhas, algumas pouco habituais.
É também uma história sobre desencanto político, sobretudo partidário, de uma geração que acreditou – e lutou – pelas liberdades recém adquiridas e pela ambição de tornar este (e outros) um local melhor, mas que, passados anos, ainda não obteve a igualdade e equidade desejadas. É sobre uma geração de mulheres que se viu cilindrada pelo peso do poder no masculino (datado de 2006, sente-se ainda mais esta clivagem com que a participação feminina da política é vivida) e do poder pelo poder, que tem como objectivo único perpetuar-se e não resolver e amenizar a vida de quem o alimenta.  
Sinto este livro como um romance de juventude, não pela idade das autoras, mas pelo seu ainda curto, no caso da MMV, e inexistente, no caso de AB, percurso de escrita. Ainda não se verifica um domínio de um conjunto de técnicas ficcionais que lhes permita fazer o romance perdurar além deles e, consequentemente, no tempo. Transparece demasiado a sensação de que estão a transpor a sua experiência pessoal, mas sem um afastamento ficcional reflexivo que lhes permita obter uma análise mais marcante e perdurável. Talvez não seja comparável, mas estava constante temente a recordar como, por exemplo, Ferreira de Castro em A Curva da Estrada e Ismael Kadaré conseguem levar a análise politica e até partidária a outros níveis. Por isso, considero que este seja um romance de juventude, cujos temas seriam beneficiados com outra experiência de escrita. Mas a experiência obtém-se experienciando e percebe-se outra maturidade nos livros seguintes de MMV.
Lamentavelmente, tenho a notar, pois por vezes atrapalha a leitura, esta edição não possui uma revisão tipográfica conseguida.
Editora: Teorema | Colecção: outras estórias | Local: LX | Edição/Ano: 1ª, Jan 2007 | Impressão: Rainho & Neves, Lda. | Págs.: 187 | Capa: Fernando Mateus | ISBN: 978-972-695-696-9 | DL: 251184/06 | Localização: BLX It. 82P-31/BEN (80186744)

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