terça-feira, 25 de julho de 2017

Não escrevo para me expor, Fabricio Carpinejar

Não escrevo para me expor, mas transpor o escrito,
Reavivar a matéria-morta. As palavras, como peras,
Perecem ao toque. E é tarde para não mastiga-las.

Palavras e palavras, destruíram as que me dariam significado.

Mudei de endereço e nenhum sinónimo me localiza.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Caixa de Sapatos, Carpinejar

“escrevo para ser reescrito.
Depois de morto, tudo pode ser lido.” (p.60)
Por vezes, muitas das vezes, perco a noção de como chego a determinado livro: uma recomendação, uma citação, um programa, uma qualquer listagem… são várias as formas de chegar, embora considere mais importante a partida. Como agora parto é o que resta aferir, pois, embora não sinta um deslumbre por esta escrita, certamente me identifiquei com ela. Sinto que muitas das frases apresentadas poderiam, a seu tempo, ser escritas por mim.
“Condiciono os meus amores a uma expectativa.
Mas é exactamente ela que me impede de ser real.” (p. 43)

Editora: Edições Quasi | Local: V. N. Famalicão | Colecção: Biblioteca “Arranjos para assobios” | Edição/Ano: 1ª, Fev. 2005 | Impressão: Papelmunde | Págs.: 74 | ISBN: 989-552-071-9 | DL: 222010/04 | Localização: BLX Gal DL 081951 (80119157)

domingo, 23 de julho de 2017

Entardeço sem ênfase, Fabricio Carpinejar

Entardeço sem ênfase.
Não sei fechar um livro
Ou vedar uma frase.

As confissões são inventadas.
Meus personagens foram maiores

Do que o enredo.



segunda-feira, 17 de julho de 2017

Qual o perfil de um dinamizador de comunidades de leitores?

Já aqui escrevi sobre o meu processode dinamização de uma sessão de Comunidade de Leitores. No entanto, também me parece útil elencar e explicar algumas características que considero úteis a um dinamizador. Estas características não inatas a todas as pessoas, mas na sua maioria são capacidades que se desenvolvem com empenho e vontade. Juntei-as em pares, pois parece-me que algumas noções são indissociáveis e mais fáceis de explicar na sua dinâmica.
+ Gosto & Compromisso. No ensaio “Este vício ainda impune”, Michel Crépu afirma que a leitura pode ser “O descanso como forma de trabalho? Trabalho como forma de descanso.” Dinamizar uma comunidade de leitores deve ser um trabalho feito com gosto, porque esse prazer que, à partida, devermos retirar da leitura deve transparecer e é um dos elementos agregadores de um grupo de leitores e que o vai transformar nessa comunidade ideal. Mas haverá momentos da nossa vida pessoal e profissional em que a preparação das sessões será complexa. Aí, tem de entrar em cena o compromisso. É ele que nos vai fazer ler livros que afinal não serão tão aliciantes como julgávamos ou nos fará encarar um livro quando o nosso ânimo simplesmente não está para lá virado. É o que acontece em todas as relações. É fácil dizer que é simples ler um livro por mês. Contabilisticamente sim. Mas a leitura além de um gosto por vezes é um grande investimento sentimental e temporal, para o qual devemos estar preparados. E nem sempre a nossa vida, nas suas diferentes facetas, se coaduna com esta predisposição.
+ Pesquisa & Síntese. Não é obrigatório que um dinamizador seja especialista em, p. e., literatura, que é o género habitualmente lido. Mas, como em qualquer área, devemos preparar-nos o melhor possível. Não sabemos, pesquisamos. E, actualmente, o que não falta são partilhas de informação na internet que podem ser óptimas ferramentas de apoio. Depois, é claro, é necessário chegarmos as nossas conclusões e às nossas sínteses. Sem qualquer receio de que estas não sejam maioritárias ou correspondentes a tendências.
+ Capacidade de expressão & Escuta Activa. Nas sessões, deparamo-nos com as mais variadas opiniões e também com a incapacidade dos participantes de organizarem as suas opiniões e impressões de forma inteligível. Cabe-nos, enquanto dinamizadores, não perder essas participações igualmente válidas. Então, tem de entrar aqui o nosso papel de mediador em que, primeiro, temos de saber ouvir “nas entrelinhas” e depois ajudar a encontrar as palavras mais adequadas.  
+ Humor & Assertividade. Duas ferramentas essenciais para dar a volta e pôr um fim a questões mais sensíveis.
+ Autenticidade & Transparência. Se por algum motivo não gostamos das obras que lemos ou até, nesse mês, não a lemos. Não adianta fingir (a não ser que seja uma óptimo actor, e eu não sou). A nossa experiência de leitura sendo única, muitas vezes não difere assim tanto da dos outros leitores. Achamos a histórias e as estratégias do autor incoerentes. Ora aí está um tópico de debate. A leitura foi difícil. Porquê? Outro tópico. Como é que se chegou a este autor pela primeira vez? Quais as nossas resistências e as nossas preferências? Quais os contextos de leitura? São tudo questões que podem ajudar a dinamizar a sessão. E quanto mais autênticos e transparentes formos com as nossa opiniões e impressões, mais facilmente ganhamos a confiança e o à vontade dos participantes.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ciclos

anos lectivos, anos civis, aniversários
semestres, trimestres, messes, semanas
somos circunscritos pelos mais variados ciclos cronológicos
mas os mais importantes, os do coração
não tem um calendário óbvio ou igual para todos

estamos sempre a começar e a terminar ciclos
a viagem ora termina ora começar ora se sobrepoe
começamos antes de terminar
terminamos para não começar
começamos para terminar
começamos e não terminamos

há tantas possibilidades e tantos ciclos que se cruzam
que me admira não andarmos ainda mais desorientados
que norte, que sul

que direcções tomar, que paragens, que saídas


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Menina a caminho, Raduan Nassar

“… a maior aventura humana é dizer o que se pensa.” (p. 75)
Este pequeno volume encerra 5 contos. E com a sua leitura encerro a minha leitura da contida obra de Nassar. Uma obra que, tida como emblemática, porque o autor considera que escreveu o que tinha de escrever e nada mais teria a escrever. E é exactamente esta atitude que lhe granjeou o nome e estatuto, mas que, analisando a obra, aos olhos de hoje, fico com a sensação de aquém. Ou seja, realmente o Lavoura Arcaica é uma obra admirável e com inúmeras leituras possíveis. Um Copo de Cólera apresenta-nos uma perspectiva das relações entre homem e mulher pouco usual.
Estes 5 contos têm uma nota mais humorística e visível intenção de depuração. Apenas o primeiro – que dá nome ao volume - é protagonizado por uma mulher, uma jovem púbere, oscilando entre a inocência, as incoerências dos adultos e a descoberta – sem juízos - do seu corpo. Todos os demais são protagonizados por homens. Nos dois últimos, as mulheres não estão sequer presentes. Mas o papel da mulher nas histórias de Nassar foi algo que me intrigou e creio ter chegado a uma conclusão. Nas relações homens-mulheres apresentadas a mulher é sempre um objecto de subjugação, como se estas fossem o único meio dos protagonistas exercerem algum tipo de poder e assim sentirem-se machos alfa. Mais, estas são sempre mais jovens. Ou seja, há sempre a relação e um homem mais velho que se deslumbra (à falta de melhor palavra) pela juventude e depois a despreza pela sua imaturidade e inconstância. E a sensação que me fica é que estes homens querem relações subjugáveis, mas depois não têm, ainda assim, poder para tal.

Editora: Cotovia | Local: Lisboa | Edição/Ano: Out. 2000 | Impressão: Tipografia Guerra | Págs.: 82 | ISBN: 972-8423-92-6 | DL: 156134/00 | Localização: BLX Galveias 082742 (00407266)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, Haruki Murakami

“… trata-se de um livro em que me limito a fazer perguntas em voz alta sobre várias coisas e no qual procuro avançar as respostas.” (p. 8)

Não sou uma desportista. Posso ter uma certa inveja (e esta não é a palavra certa) de quem o é e retira prazer da sua prática. Racionalmente, entendo os benefícios e o prazer que a produção de certos níveis de adrenalina e outras substâncias conferem. Mas o esforço… o esforço necessário… esse investimento nunca me convenceu.
Já a escrita, e que sempre considerei como um processo semelhante ao da corrida de fundo, é algo que sempre busquei e na qual me tenho encontrado amiúde. O seu esforço não me assusta. Mas a resistência e a persistência que lhes são inerente não têm sido uma aquisição fácil ou rápida. Lenta e gradualmente tenho feito um percurso que está longe de dar frutos, mas a caminhada está iniciada.
Há muito que este livro me tinha suscitado curiosidade. E não me desiludiu. Ao longo do que me pareceu um suave passeio, o autor relata-nos a sua experiência enquanto corredor de fundo e o modo como esta moldou o seu carácter e, consequentemente, a sua escrita. Das várias comparações que o autor tece, saliento:
  • p. 18) … verdadeiramente importante é o facto de, com a sua escrita, o escritor atingir a finalidade a que se propôs, o nível que estabeleceu como meta. (…) o escritor possui uma motivação interior, uma força calma que não necessita de aprovação nem de ser validada através de critérios exteriores.
  • p. 84) … qual a qualidade mais importante para ser romancista?
    • Talento: … o dono … não domina nem a quantidade nem a qualidade do mesmo.
    • Concentração e persistência: adquiridas e melhoradas com a ajuda de exercícios.
  • p. 87) Para mim, escrever romances é fundamentalmente um trabalho físico. A escrita em si talvez seja um trabalho intelectual, mas dar forma a um livro inteiro, acabar de o escrever, tem mais que com o ofício manual.
Esta leitura sedimentou um pouco mais a minha vontade de persistir na escrita. Seja ela lida ou não, reconhecida ou não. É através dela que me vou entendendo e ao mundo. O que talvez tenha contribuído, algo inesperadamente, foi para a consciencialização da necessidade de cuidados físicos mínimos para que o corpo suporte as exigências mentais e físicas da escrita. Só quem escreve sabe o trabalho por trás de uma aparentemente simples página A4.


Título Original: What I talk about when I talk about running | Tradução: Mª João Lourenço | Editora: Casa das Letras | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, Nov. 2009 | Impressão: Multitipo AG, Lda. | Págs.: 186 | Ilustrações: fotos do autor | ISBN: 978-972-46-1923-1 | DL: 300616/09 | Localização: BLX PF 82-94 MUR (80260709)

domingo, 2 de julho de 2017

Os livros do final da tua vida, Will Schwalbe (Os livros)


Deixar aqui uma lista exaustiva dos livros apresentados por Will Schwalbe n’ Os livros do final da tua vida, no âmbito do seu clube de leitura intimo ao longo do processo oncológico da mãe, resultaria numa publicação extensa, desinteressante e pouco produtiva. Seria uma listagem como outra qualquer e creio que de listagens estamos todos fartos. Interessa-me mais perceber tendências do autor ou eventuais pontos de contacto com o meu percurso e intenções pessoais de leitura.
Dos cerca de 90 livros mencionados (lidos ou a propósito de contextualização), apenas li 3, sendo que um ainda não está acabado: A última aula, de Randy Pausch; O Senhor das moscas, de William Golding (inacabado); e Os homens que odeiam as mulheres, de Stieg Larsson.
Para um leitor é sempre aliciante ler algo com que se identifica, nomeadamente o fascínio pela leitura e pelos livros. Daí, fiquei com a curiosidade de conhecer Os detectives selvagens, de Robert Bolaño, A Leitora Real, de Alan Bennett, e As memórias do livro, de Geraldine Brooks. Vão ficar para próximas núpcias. Outros títulos com que já me tinha cruzado através de adaptações ao cinema e à televisão são: Olive Kitteridge, de Elizabeth Strout; O Fundamentalista relutante, de Moshin Hamid; O bom nome, de Jhumpa Lahiri, além dos seus outros livros O Interprete de enfermidades e Em Terra Estranha; e  do inevitável Ken Follett (que deve ser o autor com que mais me cruzo nos transportes públicos).
Outros livros mencionados e que também (já) me suscita(av)m curiosidade são O ano do pensamento mágico, de Joan Didion, e Noite, de Elie Wiesel, pelas temáticas abordadas. Mas sinto que não é este o momento para me dedicar a eles.
Já no âmbito da pura curiosidade despertada pelo título, ficaram na minha mira: A elegância do ouriço, de Muriel Barbery; The bite of the mango, de Mariatu Kamara (sem edição portuguesa); e Outros quartos, outras maravilhas, de Daniyal Mueenuddin.
Em síntese, foi interessante perceber igualmente o percurso de leituras de duas pessoas de gerações e de uma geografia diferentes da minha, o que se percebe com: apenas três livros lidos em comum, uma enormidade de livros não publicados em Portugal; e até autores que desconhecia por completo. E como os livros são como as cerejas, o benéfico é que se juntaram mais possibilidades às minhas intenções de leitura. Onde elas me levarão não sei, mas sei que irei registando aqui as minhas impressões e espero que as mesmas possam ser de utilidade a quem despenda os seus minutos nestas breves palavras. 

sábado, 1 de julho de 2017

Leitura nos Transportes Públicos #17.06

Junho
1
A ordem oculta, Brad thor

Todos devemos ser feministas, Chimamanda Adichie Ngozie
5
O nosso reino, valter hugo mãe

O velho e o mar, Hemingway
6
quando as pombas desaparecerem, Sofi Oksanen
7
Como vento selvagem, Sveva Casati Modignani

Como uma flor de plástico na montra de um talho, Golgona Anghel
8
A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafon

Um violino na noite, Jojo Moyes
  
    O que vemos quando lemos, Peter Mendelsund

O voo das águias, Ken Follett

1984, George Orwell

A rua na ilha dos pássaros, Uri Orlev

A queda dos Gigantes, Ken Follett

A Herança, John Grisham


Podemos salvar a Europa, Thomas Piketty
30
Intimidade, Osho

Os livros do final da tua vida, Will Schwalbe