segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O que escrevemos não muda quem o lê, muda quem o escreve

Todos gostamos da ideia de que, quando decidimos partilhar os nossos escritos, poderemos influenciar ou mudar a opinião de alguém sobre um tema. Mas essa consequência é muito mais rara do que julgamos. Ainda assim, não devemos menosprezar essa raridade. Afinal, é especial.
O poder transformador da escrita não é exterior, é interior. Quem o pratica, ao delinear ideias, argumentos, palavras, vê-se confrontado com as suas limitações, incompreensões e preconceitos. Através da escrita (e da sua (re)leitura) conseguimos colocar-nos num lugar suficientemente distante para nos observarmos, como fariamos a outra pessoa. O que vemos nem sempre é apaziguador. É uma experiência extra-sensorial ou corpórea, que pode ser aterradora. Mas a vantagens de enfrentarmos os nossos terrores é a perspectiva de os ultrapassar.

Não sei quantificar todos os momentos em que me percebi diferente depois de escrever um texto. Mas consigo identificar alguns desses momentos cruciais. Gostaria de constactar que estes resultaram numa maior compreensão do outro, numa maior capacidade de aceitação e tolerância. Sim, quero pensar que sim... mas o certo é que me obrigaram a olhar para partes de mim que desconhecia e muitas delas tenho até pudor em admitir. Escrever transforma-me. Qual a abrangência ou impacto dessa transformação, só o futuro o dirá. O certo é que o futuro começa hoje...

domingo, 19 de novembro de 2017

Táctica estética ou estava difícil, Tiago Gomes

Segue-se uma estética
para chegar ao íntimo das coisas
e sugar-lhes o sumo
ou antes, o néctar,
ou melhor, o licor,
quero dizer, o elixir,
isto é, a essência,
porra, a poesia.

Erotica, Blommers Niels Schumm

sábado, 18 de novembro de 2017

Os editores apostam na promoção da leitura?

Assisti, esta semana, à iniciativa “O que vamos ler em 2018? Receitas para leitores atentos?”, promovida pela Associação Nacional de Farmácias e que decorreu no, muito interessante, Museu da Farmácia, no Largo do Calhariz. Além de uma apresentação de sugestões de leitura, o encontro foi antecedido por um debate moderado por Luís Caetano (quando for grande quero ter esta capacidade de expressão, de articulação, de timming), sobre a edição, entre diversos editores nacionais, a saber: Diogo Madre Deus, pela Cavalo de Ferro; Mª do rosário Pedreira, pela Leya; Manuel Alberto Valente, pela Porto Editora; Francisco Vale, pela Relógio d’água; e Barbara Bulhosa, pela Tinta da china.
Como seria de esperar, foram abordadas questões como o mercado da edição, as experiências e apostas de cada editor, os hábitos de leituras nacionais, as perspectivas de futuro… bem o habitual. E não é que o habitual não tenha importância. Tem.
A minha questão é: porque é que nunca vejo um debate entre editores que aborde a questão da promoção da leitura? Ou seja, falam sempre dos (baixos) hábitos da leitura dos portugueses e das perspectivas poucos animadoras para o futuro devido à cada vez maior abrangência das tecnologias no nosso quotidiano. De quando a quando vem à baila a importância do Plano Nacional de Leitura e as incoerências e/ou incongruências. Mas o certo é que, até ao momento, nunca vi um editor que afirmasse algo do género: a nossa editora está a desenvolver um plano estratégico, em parceria com a instituição y, no sentido de apoiar iniciativas de promoção da leitura.
E não nos enganemos. As suas estratégias de promoção (comercial) do livro não são estratégias de promoção da leitura. São estratégias de mercado.
Porque é que nestes debates nunca vejo representadas as bibliotecas? Seja pelos seus responsáveis, seja pelos seus técnicos. Aqueles que quotidianamente fazem um trabalho sistemático de promoção do livro, da leitura e das literacias e que tem perspectivas diferentes sobre os hábitos de leitura dos portugueses. Na prática, e em última análise, os editores ganham, ainda que a longo prazo, com o nosso esforço, empenho e dedicação. Mas raramente os vejo ter uma palavra de apreço. Esquecem-se que se têm o público que têm, o devem muito a nós. Esquecem-se que, se o nosso trabalho cessar repentinamente, são eles que mais perdem a curto prazo. Mas a longo prazo, perde toda uma sociedade. E isso sim, é uma perspectiva negativa de futuro.

Então e que tal partilhar esforços e responsabilidades na criação de hábitos de leitura para o futuro? Pensem nisso, senhores editores… Agradeço!

Foto de Museu da Farmácia.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

de profundis amamus, Mário Cesariny

Ruminant Reserve
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua    os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal    abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados    maravilhosos    únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Uma abelha na chuva, Carlos de Oliveira

A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.” (p. 153)
há livros e autores que, quando finalmente os conhecemos, nos questionamos: porque é que perdi tanto tempo até descobrir esta pequena maravilha? Em última análise, estivemos a preparar-nos para conseguir apreender toda a sua grandeza, dentro da sua ínfima singeleza.
Este é o meu sentimento ao concluir esta leitura. Uma história que, de tão simples, nos poderia suscitar indiferença. No entanto, o seu leque de personagens variadas, mas todas reféns das tramas impossibilitantes impostas por uma vida sem perspectivas ou exterminadas pelos danos colaterais de acções terceiras. São todas pequenas abelhas apanhadas na torrente da chuva, perante a qual não têm qualquer hipótese de combate ou sobrevivência.
Silvestre e a culpa destrutiva, Mª dos Pazeres mas sem paixão, Leopoldino catalizador ausente, Abel temente e talvez pecador, Violante irmã suspeita, Neto missionário a ser, claúdia mulher a não ser, Jacinto sonhador podado, Clara amada fatal, velho oleiro cego manipulado, Marcelo ordenado passivo. Colmeia que apenas pode aspirar à sobrevivências aos dias.

Editora: círculo de Leitores | Colecção: Obras completas | Local: Mem Martins | Edição/Ano: Dez, 2000 | Impressão: Printer Portuguesa | Págs.: 754 | Capa: Mário Caeiro | ISBN: 972-42-2411-2 | DL: 156874/00 | Localização: … (…)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Ainda sobre o modo como a minha escrita se alterou...

Até recentemente, sentia necessidade de publicar aqui, na blogosfera, tudo o que escrevia. No entanto, percebi que não me era benéfica tamanha exposição. Senti necessidade de selecionar o que pretendia mostrar. Para tal, foi necessário perceber o que pretendia, actualmente, com esta plataforma. A conclusão é que, neste momento, pretendo que esta seja uma plataforma de sistematização e de divulgação profissional. Só assim, consegui começar a deixar alguns registos na gaveta. Ou porque são demasiado pessoais. Ou porque são tentativas ficcionais, que ainda necessitam de desenvolvimento. São textos com outros potenciais que se perderiam no nada se fossem aqui publicados pela metade ou pelo génese.

Não sei ainda que destino terão estes textos embrionários. É certo que gostaria de começar a participar noutros registos e noutras plataformas de divulgação. Alguns textos poderão ter esse destino. Nem todos. Alguns necessitam de maior maturação e o seu futuro é ainda demasiado incerto. É demasiado cedo para ganharem assas e se afastarem de mim… 


terça-feira, 14 de novembro de 2017

cadastro

Nome: Simplesmente Adelaide, como poderia ter sido Lucinda ou Piedade Jacinta
Idade: tristemente a querer permanecer na infância
Naturalidade: estupidamente ingénua
Nacionalidade: convencionada
Profissão: a evitar o desemprego e iludida entre as páginas dos livros
Religião: indecisa e descrente em omnisciências e omnipresenças
Política: céptico-hipócrita

Motivações: sobreviver à voragem da chuva 

Sally Nixon

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Comunidades de Leitores em Livrarias

Esta semana, chegou-me a informação que a Leya Bucholz vai voltar a albergar uma Comunidade de Leitores, depois de um interregno de aproximada mente um ano. Anteriormente, era dinamizada por Ricardo Duarte, que abraçou um projecto profissional que o levou a cessar a organização da mesma. Agora, será dinamizada por Filipa Melo e terá características semelhantes: período de debate entre os participantes, seguido de encontro com o escritor. A primeira sessão será com Mia Couto, no dia 28 de Novembro, das 19h às 21h, e terá por tema a sua mais recente obra O Bebedor de Horizontes, último volume da trilogia As Areias do imperador. A participação é feita mediante inscrição e inclui um pagamento de 13€, que, até ao momento, e nesta nova vida, não sei exactamente o que abrange.
Mas esta não é a única livraria que, em Lisboa, oferece este tipo de iniciativa. Torna-se cada vez mais óbvio para estes espaços que a sua oferta de serviços tem de passar não só pela dinamização dos seus espaços, como pela criação de laços com os seus putativos e reais clientes. Ou seja, o serviço já não passa pela mera venda de um produto ou bem cultural, este passa por um apoio ao cliente que vise a sua fidelização pela capacidade de uma oferta diferenciada e a diversos níveis de exigência. As Comunidades de Leitores são uma possibilidade, que nos seus diversos formatos, podem ser uma ferramenta eficaz nesta abrangência de oferta.
Então, e quais são as outras ofertas disponiveis actualmente em Lisboa? As livrarias Almedina e Bertand há muito que disponibilizam esta oferta, com uma variedade que exige a consulta das suas páginas on line, que poderá fazer clicando nas palavras. Estas livrarias pertencem a grupos editoriais e têm é claro uma maior disponibilidade financeira par apostar na dinamização dos seus espaços comerciais. Mas existem outros espaços como a Fábula Urbis, junto à Sé, a Leituria, a Tigre de Papel, em Arroios, e a Ler, em Campo de Ourique. Relativamente a esta últimas, a Comunidade da Tigre é dinamizada por Rita Oliveira Dias, enquanto a da Ler é dinamizada pela também escritora Cristina Drios, cujo trabalho já tive o prazer de conhecer e de que sou apreciadora.

O propósito deste texto é apenas dar a conhecer mais algumas das opções de comunidades de leitores existentes em Lisboa. Convém esclarecer que não conheço ainda muitos destes espaços, nem os seus dinamizadores. Não por uma questão de (falta de) vontade, mas apenas por questões de agenda pessoal. Não há igualmente qualquer tipo de interesse comercial da minha parte na sua divulgação destes espaços. Mas, a seu tempo, gostaria de deixar aqui mais informações sobre a dinâmica destes espaços. Creio que só temos a ganhar em saber como os outros dinamizam, para dinamizarmos melhor. 
@ Inoffensive 

domingo, 12 de novembro de 2017

Nos últimos tempos, tenho assistido a diversos eventos e actividades, cujo lastro nem sempre me é fácil concretizar e de transformar em palavras para aqui registar. Na minha obsessão por deixar aqui as minhas impressões, sinto-me muitas vezes engolida pela multiplicidade e contrariedade entre as mesmas. O que me impede de ordenar seja o que for em palavras ou num discurso coerente e claro. Talvez necessite de mais tempo para que as mesmas sedimentem e amadureçam antes de se materializarem em palavras. Ainda assim, necessito de iniciar um registo. Uma elencagem. Talvez o primeiro passo para que as palavras que dão corpo aos pensamentos se ordenem.
  • Festa do Livro Amadora (15 a 18/09, Amadora)
  • Dia Europeu das Línguas (23/09, Palácio Galveias)
  • Mulheres nas Artes: Percursos de desobediência (16/10, Gulbenkian)
  • 10x10. Ensaios entre Arte e Educação (28/10, Gulbenkian)

Entre outros... Ufa...

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Pinoy Stitch

Lembrem-se,
o que escrevo (não) é uma referência à pessoa que julgam ser.
Se se identificam nestas linhas,
não é por vós que escrevo.
É pelo meu interesse dramático. 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Vida SMART ou simplesmente irónica?

A partir de determinado momento nas nossas vidas, incutem-nos que devemos definir objectivos para quase todas as áreas da mesma. Estes devem ser SMART (anagrama inglês para eSpecificos, Mensuráveis, Atingiveis, Realistas e definidos no Tempo).
Mas a vida, no seu decorrer, é tudo menos SMART e no máximo é de uma ironia atroz! Caracterizada por uma teia complexa de relações e consequências de actos próprios e alheios. Nem tudo é quantificável, apenas inqualificável. Os nossos parametros e critérios alteram-se a cada (grande) mudança no nosso percurso. O tempo cura e é rápido na alegria, detendo-se vagarosamente na dor. Sabemos lá nós executar o sonho, sonho que é por definição longínquo e difícil de alcançar. Apenas podemos colocar-nos a caminho.
Posto isto, há objectivos cujo cumprimento é o desafio de uma vida inteira: manter a capacidade de deslumbramento; não nos deixarmos abater pelas rasteiras do caminho, manter uma certa candura; manter a crença de que há impossíveis possíveis; que o amor impele a saltar barreiras salvando-nos em conjunto.

É fácil tornarmo-nos cínicos, cépticos, descrentes ao longo do caminho. O difícil é manter uma certa infância dentro de nós. Isso é um propósito para a vida inteira.

Samantha Lee

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sugestões de livros para Comunidades de Leitores: sobre o fascínio da pintura

Seguindo o desafio de listar sugestões concretas para exploração em sessões de comunidade de leitores, desta feita o tema é o fascínio que pintura exerce nos autores. Além destes, há muitos mais títulos que podem ser explorado, é claro. Mas deixo-vos os  fazem parte do meu património de leituras e com os quais já me cruzei.

Há primeira vista, estamos perante um mistério policial. Mas, depois das primeiras páginas, percebemos que não estamos perante este tipo clássico de história. Estamos, na verdade, perante 4 histórias de indivíduos em busca da redenção que se dividem em dois planos temporais, Itália da década de 80 e Itália do início do século 17. E em cada história encontramos o individuo na sua batalha pela beleza através da criação artística; como nele convivem o bem e o mal e como o mal não é necessariamente intrínseco, mas consequência inerente das suas escolhas; como o vazio é também um elemento (incontornável) da vida; e que para alguns homens o reequilíbrio só se estabelece através da morte.

E este foi mais um capítulo na vida das personagens Jaime Ramos e Isaltino de Jesus e fornece uma maior viagem ao passado de Ramos. É um policial em que poucos ou nenhuns pormenores são revelados e que nos permite também uma incursão por terras brasileiras – ou não fosse esta outra paixão do autor – e pela sua pintura. Para quem viu há uns anos a série Um Só Coração alguns destes pintores brasileiros que se seguem não são novidade, mas aqui ficam: Tarsila do Amaral - Llasar segall - Ismael nery - Vicente do Rego Monteiro - António Gomide - Victor Brecheret - John Graz - Cicero Dias - Di Cavalcanti - Candido Portinari- Anita Malfatti

Manual de Pintura e Caligrafia, José Saramago
«O Manual de Pintura e Caligrafia é uma obra ímpar no género da literatura autobiográfica entre nós e oferece-nos, no seu conjunto, um semental de ideias e uma carta de rumos da ficção de José Saramago até à data.Nele se fundem as escritas de uma complexa e rica tradição literária e a experiência de um tempo vivido nos logros do quotidiano e das vicissitudes da história, que será a substância da própria arte.» Luís de Sousa Rebelo (in www.josesaramago.org)

A rapariga do brinco de pérola, Tracy Chavalier
Holanda, 1665. Depois do pai ficar cego na sequência de uma explosão, Griet, uma jovem de 17 anos, é obrigada a trabalhar para ajudar a família. Torna-se então criada na casa do pintor Johannes Vermeer. Vermeer é um perfeccionista, que demora meses a terminar os seus quadros. Gradualmente, Griet torna-se a sua inspiração, a sua musa. Essa inspiração dará origem a um dos mais belos quadros do grande mestre holandês, a "Rapariga com brinco de pérola", mas também a inúmeras perturbações familiares (Vermeer era casado) e pessoais. (in cinecartaz.publico.pt)


Na escrita de Perez-Reverte reúnem-se vários elementos como o thriller, a literatura e a arte. Em a Tábua junta-se a estes a lógica e a estratégia do xadrez. Tem como protagonista Júlia, uma jovem restauradora de arte cujo mais recente trabalho é restaurar A Partida de Xadrez do pintor flamengo Pieter van Huys. Ao tratar do quadro descobre nele uma inscrição que leva à investigação de um crime cometido cerca de 500 anos antes e envolvendo os protagonistas do quadro. É um enredo interessante que nos permite passear um pouco pelas obras dos mestres flamengos e também nos dá vontade de conhecer melhor o xadrez, o elemento fundamental na resolução de todos os crimes da trama.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Leituras nos Transportes Públicos #10.17

Outubro
3
Startup, Chris Guillebeau
4
7
Sapiens, breve História da humanidade, Yuval Noah Harari
9
Só nós dois, Nicholas Sparks

O reino do meio, José rodrigues dos santos

Acusada de traição, Robert Hillman e Zarah Ghahramani

 O Mistério de Charles Dickens, Vol. II, Dan Simmons

Franny e Zooey, J. d. Salinger
10
Morte Branca, Clive Cussler
11
Homens sem Mulheres,  Haruki Murakami 
17
Legado nos Ossos, de Dolores Redondo 

Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez
20
A Arte do Pensamento Criativo, de Rod Judkins 

Steve Jobs, Walter Isaacson 
21
Os livros das nossas vidas, Mendo Henriques & Nazaré Barros
23
O amante japonês, Isabel Allende

Frio na Espinha, KArin Slaughter

Comer, Mexer-Se, Dormir, Tom Rath 
24
Acabem com esta Crise Já! , Paul Krugman

Quem Governa o Mundo?, Noam Chomsky
25
Granta 9 (Portugal)
26
As ondas, Virginia Woolf

Os homens que odeiam as mulheres, Lars Stiegson
27
A soma dos dias, Isabel Allende
28
Autismo, Conceitos, Mitos e Preconceitos, Carlos Nunes Filipe 
30
A cruz de Santo André, Camilo José Cela

domingo, 29 de outubro de 2017

♪ Tous Les Visages De L'amour ♪, Charles Aznavour

Toi, parée de mille et un attraits
Je ne sais jamais qui tu es
Tu changes si souvent de visage et d'aspect
Toi, quel que soit ton âge et ton nom
Tu es un ange ou le démon
Quand pour moi tu prends tour à tour
Tous les visages de l'amour

Toi, si Dieu ne t'avait modeler
Il m'aurait fallut te créer
Pour donner à ma vie sa raison d'exister
Toi qui est ma joie et mon tourment
Tantôt femme et tantôt enfant
Tu offres à mon coeur chaque jour
Tous les visages de l'amour

Moi je suis le feu qui grandit ou qui meurt
Je suis le vent qui rugis ou qui pleure
Je suis la force ou la faiblesse
Moi je pourrais défier le ciel et l'enfer
Je pourrais dompter la terre et la mer
Et réinventer la jeunesse

Toi, viens fais de moi ce que tu veux
Un homme heureux ou malheureux
Un mot de toi, je suis poussière ou je suis Dieu
Toi sois mon espoir sois mon destin
J'ai si peur de mes lendemains
Montre à mon âme sans secours
Tous les visages de l'amour
Toi, tous les visages de l'amour

(A propósito da enésima exibição de Notting Hill na televisão)

sábado, 28 de outubro de 2017

Sugestões de livros para Comunidades de Leitores: sobre o impacto da leitura

Que livros aconselhas para abordar numa (nova) comunidade de leitores? Como é que escolhes as leituras a realizar? São questões e tantas e não há uma fórmula certa. Depende do nosso património de leituras, da nossa percepção do grupo, de objectivos estabelecidos entre todos. São tantas as condicionantes ou, melhor, os desafios. Mas foi exatamente sob este desafio de definir sugestões concretas, que decidi criar algumas listas de sugestões temáticas com 5 livros para ajudar a quem queira dar o primeiro passo na organização de comunidades ou simplesmente esteja à procura de algumas ideias de livros a explorar. As sugestões efectuadas partem de leituras que já realizei e são seguidas de um pequenos resumo e/ou o porque da minha sugestão, bem como uma ligação para textos que já escrevi sobre os mesmos. Como não poderia deixar de ser, o primeiro tema é sobre o impacto da leitura:

A base da narrativa é aparente impossível história de amor entre o jovem Michael Berg, de 16 anos, e a misteriosa Hannah Schmitz, uma mulher mais velha. Fala-nos sobre o modo como a leitura, e a informação e conhecimento que lhes são inerentes, é capaz de transformar alguém e como essa consciência pode influenciar quem não tenha essa capacidade e conhecimento.Esta obra questiona a nossa capacidade e legitimidade para julgar o outro sem sabermos se este era livre nas suas acções. Ou seja, se conseguia perceber que havia outras escolhas possíveis. Bem como a ter um olhar mais compreensivo sobre as eventuais origens dos comportamentos de quem nos rodeia.

Farenheit 451, Ray bradbury
“O romance apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. O personagem central, Guy Montag, trabalha como "bombeiro" (o que na história significa "queimador de livro"). O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius. Através dos anos, o romance foi submetido a várias interpretações primeiramente focadas na queima de livros pela supressão de ideias dissidentes. Bradbury, porém, declarou que Fahrenheit 451 não trata de censura, mas de como a televisão destrói o interesse pela leitura.” (in Wikipedia.org)

Esta Biblioteca é composta por um conjunto de 6 contos surreais que têm como pedra de toque a paixão/obsessão não só pelo livro, enquanto objecto, mas também pelo conceito de literatura. O que seria poder aceder, ainda que efemeramente, a todos os livros ainda por escrever? e aos já escritos? e se todas as histórias de apresentassem num único volume? estaria a nossa vida lá inscrita? Qual o seu impacto nas nossas vidas? Redenção ou castigo? Alimento ou punição da alma?

A rapariga que roubava livros, Markus Zuzak
“Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga Que Roubava Livros, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência.” (in www.wook.pt)


É uma ode ao poder transformador da leitura e o impacto que esta pode ter não só na vida do individuo, no seu contexto familiar, social e até político, com consequências internacionais. É através de uma personagem incomum, nada mais que a rainha Isabel II de Inglaterra que vamos perceber este percurso. 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ARTE POÉTICA, Mário Dionísio

 A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia 
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida, nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos, nos ascensores constantes, na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores, nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica e no fumo da fábrica. A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais, no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo. Está no riso da loira da tabacaria, vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos. Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar. A poesia está na doca, nos braços negros dos carregadores de carvão, no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar — e só durou esse minuto. A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento, nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho de terras sempre mais longe, nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus, na angústia da vida.
está nos olhos abertos para amanhã.
A poesia está na luta dos homens,
In Poemas, 1941


1: «Monólogo a muitas vozes». óleo s/ tela, 45 x 34, 1976.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Ponderações a ter na implementação de uma comunidade de leitores

Provavelmente, nada do que escreverei será novidade. No entanto, quando falo com pessoas interessadas em desenvolver uma comunidade de leitores, mesmo que tenham de profissionalmente apresentar um projecto escrito, percebo que alguns aspectos ainda não estão definidos na sua mente. Por isso, creio que não faz mal fazer uma revisão ou até uma introdução à matéria. Aqui vão alguns tópicos a ter em contas e algumas questões associadas. As respostas cabem a cada um, embora não me coiba de fazer umas quantas sugestões. Alguns dos pontos possuem links onde abordo as questões mais pormenorizadamente.
- o que é que já é feito na sua área geográfica de abrangência? Em que moldes? Em que horários? Não faça o que já está a ser feito e mesmo que faça algo diferente não o faça em horário e datas coincidentes. Não há necessidade de impossibilitar troca de públicos quando os podemos partilhar.
- e o que é que você, enquanto leitor, gostaria de debater a propósito de livros? Já existe? Se não, ótimo. Bom caminho. Se sim, visite e aprenda. Depois, pergunte-se: o que poderá fazer diferente? Não tenha pejo em assumir-se como o seu próprio público, esse será sempre um dos primeiros critérios para avaliar a perentoriedade das suas acções.
- que modelo de organização de sessão pretende adoptar? Orientado, livre, misto? Maioritariamente de partilha de opiniões ou de leitura de textos?
- que local acolherá esta comunidade? Público, privado, associativo? Que especificidades possui e que características terá de ter em conta? Há uma sala própria, é uma área partilhada? Que outros serviços se prestam nesse local?
- em que horário decorrerá? Parece um dos aspectos mais simples, mas na verdade é o que mais condicionará a participação.
- Que público(s) quer abranger? Geral? Especifico? Pretende (ou exigem que venha a) ter um grande número de público? Que apoio institucional tem?
- que objectivos pretende atingir com a organização de uma comunidade de leitores?
- que tipo de dinamizador se considera? Não se esqueça que há características importantes, mas que, sejam elas quais forem, são passiveis de se desenvolver. Devendo imperar sobretudo a transparência (assumindo lacunas e gostos) e a paixão com que faz o que faz.

Espero que estes tenham sido tópicos úteis para a reflexão do tipo de comunidade que pretende desenvolver. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Utilidade, Mário Dionísio

Só as mãos que se estendem para a frente interessam.
só os olhos que vêem para além do que se vê,
só o que vai para o que vem depois,
só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,
só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda, nem nunca, será nossa
interessa.

«Reunião Clandestina», óleo s/ tela, 97 x 130. Exposto na III EGAP (1948), na exposição Arte Moderna -Vértice (1949), em Almada (1949), com o título «Interior»; na Galeria Nasoni (1989), no Celeiro da Patriarcal de Vila Franca de Xira (1991), CAM da FCG (1991), na exposição Neo-Realismo/Neo-Realismos (1996), no Museu da Resistência e Coimbra (1996), na Abril em Maio (2001), na exposição «Um tempo, um Lugar» em Vila Franca de Xira (2005).
Reunião Clandestina, 1947

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Português para Estrangeiros: 5º Ciclo | Balanço Intermédio

Está neste momento a decorrer, na Biblioteca da Penha de França, o 5º ciclo do Projecto Português para estrangeiros. E, como já vem sendo hábito, continuo a ser surpreendida pelos participantes, seja pela sua origem, seja pelas suas histórias de vida, que, por vezes, me fazem sentir pequenina… e com tanto a aprender sobre a humanidade e sobre resiliência.
Este ciclo inclui 8 nacionalidades, a saber: francesa, ucraniana, egípcia de origem nubiana, ruandesa, italiana, chinesa, nepalesa e senegalesa. Os participantes são maioritariamente mulheres, sendo três repetentes, que em edições anteriores não puderam assistir a todas as sessões.
Em termos de formação, a maioria tem formação superior, sendo que duas são na área da saúde (farmácia e enfermagem), que, enquanto não dominarem a língua, não conseguirão trabalho na sua área.
No que diz respeito a participantes financeiramente mais desfavorecidos, é relevante constatar que as diversas instituições de cariz social locais nos reencaminham diversos utentes e que é junto destes que detectamos as situações que poem à prova o nosso lado mais humano. Deparamos com casos de solidão e quase exclusão social por falta de domínio da língua, mas também casos de problemas familiares que estão na origem de situações depressivas sobre as quais mais não podemos fazer do que sinalizar junto dessas mesmas instituições.

Contribuir para a melhoria da auto-estima destas pessoas e perceber que elas encaram este espaço como um local de segurança para poderem experimentar sem qualquer exigência ou repressão sobre eventuais falhas e erros, é, para mim e para os meus colegas, uma validação do nosso esforço e empenho. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Comunidades de leitores: quando a nossa aprendizagem se expande

A participação e a dinamização de uma comunidade de leitores é um incentivo contínuo à minha aprendizagem. Não só conheço novos autores e temas, como reaprendo conceitos já esquecidos. Procurar informações e tecer novas ligações é uma fonte de adrenalina e só tenho a agradecer por as comunidades serem estes catalisadores.
Na última sessão, dedicada a Machado de Assis, veio-me à mente uma memória ténue de que Umberto Eco, ao escrever O Nome da Rosa, procurou demonstrar a sua tese de que uma obra de arte deve conseguir corresponder às necessidade e expectativas de três tipos de público. Mas já não conseguia precisar a sua terminologia e fui pesquisar. Ao faze-lo, recordei que esses três tipos de público, na verdade, correspondiam aos conceitos de baixa, média e alta cultura. Ou seja, Eco defendia que o valor da obra é tão grande quanto a sua capacidade de dialogar com os públicos em diferentes níveis, desde a simples narrativa, passando pelas nuances, referências culturais e estruturas. E o que tem isto a ver com Machado de Assis? O acolhimento desta obra por diversas gerações e abrangências geográfica é uma prova da sua capacidade de dialogar com os públicos de baixa, média e alta cultura.
Já para a próxima sessão, dia 25 de outubro, foi com grata surpresa que li O dia cinzento e outros contos, de Mário Dionísio. Consequentemente, descobri um pouco sobre a sua poesia e a sua pintura. E, claro, agora estou curiosa para descobrir mais.

Estes são apenas dois exemplos de como uma comunidade de leitores expande os nossos horizontes, não só literários, mas de percepção do mundo e de como podemos agir nele. 


domingo, 15 de outubro de 2017

Blade Runner 2049 (2017)

Há uns meses atrás, revi Perigo Eminente, título português para o filme Blade Runner original. Tinha na memória a mítica cena em que o vibrante olhar azul de Rutger Hauer se extingue, cumprindo-se, assim, a sua programação andrónica que possuía um prazo de validade.
Esta era uma versão futurista de um frankenstein biónico que procurar ultrapassar os horizontes (neste caso temporais) a que o seu criador o veta. Criador este que, como todos os demais, querem sempre que as suas criaturas cumpram os seus objectivos e nunca as aceitam como potencialmente iguais, já para não dizer superiores. Mas, tal como todas as criaturas, estas rebelam-se. Para as capturar e exterminar, entra em cena Deckard. Mas, ah a ironia, este acaba por se apaixonar por um modelo mais recente de Replicantes (nome aqui dado aos androides), que não possui o tal prazo de validade, e acabam por fugir, também eles, à perseguição.
O que nos traz a Blade Runner 2049…
E (spoiler alert!), afinal, dizem-nos que o próprio Deckard é um Replicante e a sua relação com Rachel possibilitou um tremendo avanço evolutivo, até ao momento, irreplicável. O que nos leva a uma nova perseguição, que, não sendo surpreendente, tem mais reviravoltas e elementos de despiste do filme original. Ou seja, em termos de enredo, embora possibilitasse reflexões profundas, o filme original tinha uma história linear e simples. O filme actual (que não é um remake, mas uma sequela) já apresenta estratégias narrativas mais complexas, embora estejamos todos já tão habituados às mesmas, cujo resultado não é exatamente nenhuma surpresa. É-nos dada toda a informação, apenas temos de ligar os pontos de forma diferente da que nos é primeiramente apresentada.
A maior dificuldade na ligação desses pontos não é a nível de coerência interna, mas sim de relacionamento com a nossa realidade. Ou seja, as questões ou a realidade explorada no filme original continua a estar mais próxima de nós, o que nos permite reflectir, mas não nos suscita dúvidas, digamos, “técnicas”. Já a actual proposta de enredo, mantem as mesmas possibilidades de reflexão, mas é muito mais distante do nosso estado actual de realidade, o que nos deixa mais dúvidas “técnicas” que aumentam a sensação de inverosimilhança. Dúvidas essas, claro, que não são respondidas, nem sequer apontados caminhos.
Em termos de estética e ambiência, há um excelente compromisso entre o original e a incontornável evolução tecnológica e possibilidades digitais actuais. E, aí, se possível, recomendo ver o filme no cinema (com ou sem outras opções mais avançadas).
Uma das sensações que transparece neste filme é a de sentida homenagem ao filme de 1982 e nesse sentido nenhuma das personagens é esquecida, seja através da sua recuperação, seja na replicação de momentos chave da história. E a chuva transforma-se em neve...

sábado, 14 de outubro de 2017

but, aren't we replicants, after all?
aren´t we sheep chasing electronic crumbs
of false affection, of false happiness?
We live fake lives as we struggle through foggy days
of uncertain future
we perpetuate ourselves in empty, mindless jobs
we pay the mortgages we were stupid enough to take in
sharing nights with aperson we no longer recon (if we ever did)
raising kids hoping for tax return or elderly support.
Yes, we are just mere replicants of a social order
that doesn't give a damn for us. 

The Mad Hatter