terça-feira, 25 de julho de 2017

Não escrevo para me expor, Fabricio Carpinejar

Não escrevo para me expor, mas transpor o escrito,
Reavivar a matéria-morta. As palavras, como peras,
Perecem ao toque. E é tarde para não mastiga-las.

Palavras e palavras, destruíram as que me dariam significado.

Mudei de endereço e nenhum sinónimo me localiza.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Caixa de Sapatos, Carpinejar

“escrevo para ser reescrito.
Depois de morto, tudo pode ser lido.” (p.60)
Por vezes, muitas das vezes, perco a noção de como chego a determinado livro: uma recomendação, uma citação, um programa, uma qualquer listagem… são várias as formas de chegar, embora considere mais importante a partida. Como agora parto é o que resta aferir, pois, embora não sinta um deslumbre por esta escrita, certamente me identifiquei com ela. Sinto que muitas das frases apresentadas poderiam, a seu tempo, ser escritas por mim.
“Condiciono os meus amores a uma expectativa.
Mas é exactamente ela que me impede de ser real.” (p. 43)

Editora: Edições Quasi | Local: V. N. Famalicão | Colecção: Biblioteca “Arranjos para assobios” | Edição/Ano: 1ª, Fev. 2005 | Impressão: Papelmunde | Págs.: 74 | ISBN: 989-552-071-9 | DL: 222010/04 | Localização: BLX Gal DL 081951 (80119157)

domingo, 23 de julho de 2017

Entardeço sem ênfase, Fabricio Carpinejar

Entardeço sem ênfase.
Não sei fechar um livro
Ou vedar uma frase.

As confissões são inventadas.
Meus personagens foram maiores

Do que o enredo.



segunda-feira, 17 de julho de 2017

Qual o perfil de um dinamizador de comunidades de leitores?

Já aqui escrevi sobre o meu processode dinamização de uma sessão de Comunidade de Leitores. No entanto, também me parece útil elencar e explicar algumas características que considero úteis a um dinamizador. Estas características não inatas a todas as pessoas, mas na sua maioria são capacidades que se desenvolvem com empenho e vontade. Juntei-as em pares, pois parece-me que algumas noções são indissociáveis e mais fáceis de explicar na sua dinâmica.
+ Gosto & Compromisso. No ensaio “Este vício ainda impune”, Michel Crépu afirma que a leitura pode ser “O descanso como forma de trabalho? Trabalho como forma de descanso.” Dinamizar uma comunidade de leitores deve ser um trabalho feito com gosto, porque esse prazer que, à partida, devermos retirar da leitura deve transparecer e é um dos elementos agregadores de um grupo de leitores e que o vai transformar nessa comunidade ideal. Mas haverá momentos da nossa vida pessoal e profissional em que a preparação das sessões será complexa. Aí, tem de entrar em cena o compromisso. É ele que nos vai fazer ler livros que afinal não serão tão aliciantes como julgávamos ou nos fará encarar um livro quando o nosso ânimo simplesmente não está para lá virado. É o que acontece em todas as relações. É fácil dizer que é simples ler um livro por mês. Contabilisticamente sim. Mas a leitura além de um gosto por vezes é um grande investimento sentimental e temporal, para o qual devemos estar preparados. E nem sempre a nossa vida, nas suas diferentes facetas, se coaduna com esta predisposição.
+ Pesquisa & Síntese. Não é obrigatório que um dinamizador seja especialista em, p. e., literatura, que é o género habitualmente lido. Mas, como em qualquer área, devemos preparar-nos o melhor possível. Não sabemos, pesquisamos. E, actualmente, o que não falta são partilhas de informação na internet que podem ser óptimas ferramentas de apoio. Depois, é claro, é necessário chegarmos as nossas conclusões e às nossas sínteses. Sem qualquer receio de que estas não sejam maioritárias ou correspondentes a tendências.
+ Capacidade de expressão & Escuta Activa. Nas sessões, deparamo-nos com as mais variadas opiniões e também com a incapacidade dos participantes de organizarem as suas opiniões e impressões de forma inteligível. Cabe-nos, enquanto dinamizadores, não perder essas participações igualmente válidas. Então, tem de entrar aqui o nosso papel de mediador em que, primeiro, temos de saber ouvir “nas entrelinhas” e depois ajudar a encontrar as palavras mais adequadas.  
+ Humor & Assertividade. Duas ferramentas essenciais para dar a volta e pôr um fim a questões mais sensíveis.
+ Autenticidade & Transparência. Se por algum motivo não gostamos das obras que lemos ou até, nesse mês, não a lemos. Não adianta fingir (a não ser que seja uma óptimo actor, e eu não sou). A nossa experiência de leitura sendo única, muitas vezes não difere assim tanto da dos outros leitores. Achamos a histórias e as estratégias do autor incoerentes. Ora aí está um tópico de debate. A leitura foi difícil. Porquê? Outro tópico. Como é que se chegou a este autor pela primeira vez? Quais as nossas resistências e as nossas preferências? Quais os contextos de leitura? São tudo questões que podem ajudar a dinamizar a sessão. E quanto mais autênticos e transparentes formos com as nossa opiniões e impressões, mais facilmente ganhamos a confiança e o à vontade dos participantes.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ciclos

anos lectivos, anos civis, aniversários
semestres, trimestres, messes, semanas
somos circunscritos pelos mais variados ciclos cronológicos
mas os mais importantes, os do coração
não tem um calendário óbvio ou igual para todos

estamos sempre a começar e a terminar ciclos
a viagem ora termina ora começar ora se sobrepoe
começamos antes de terminar
terminamos para não começar
começamos para terminar
começamos e não terminamos

há tantas possibilidades e tantos ciclos que se cruzam
que me admira não andarmos ainda mais desorientados
que norte, que sul

que direcções tomar, que paragens, que saídas


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Menina a caminho, Raduan Nassar

“… a maior aventura humana é dizer o que se pensa.” (p. 75)
Este pequeno volume encerra 5 contos. E com a sua leitura encerro a minha leitura da contida obra de Nassar. Uma obra que, tida como emblemática, porque o autor considera que escreveu o que tinha de escrever e nada mais teria a escrever. E é exactamente esta atitude que lhe granjeou o nome e estatuto, mas que, analisando a obra, aos olhos de hoje, fico com a sensação de aquém. Ou seja, realmente o Lavoura Arcaica é uma obra admirável e com inúmeras leituras possíveis. Um Copo de Cólera apresenta-nos uma perspectiva das relações entre homem e mulher pouco usual.
Estes 5 contos têm uma nota mais humorística e visível intenção de depuração. Apenas o primeiro – que dá nome ao volume - é protagonizado por uma mulher, uma jovem púbere, oscilando entre a inocência, as incoerências dos adultos e a descoberta – sem juízos - do seu corpo. Todos os demais são protagonizados por homens. Nos dois últimos, as mulheres não estão sequer presentes. Mas o papel da mulher nas histórias de Nassar foi algo que me intrigou e creio ter chegado a uma conclusão. Nas relações homens-mulheres apresentadas a mulher é sempre um objecto de subjugação, como se estas fossem o único meio dos protagonistas exercerem algum tipo de poder e assim sentirem-se machos alfa. Mais, estas são sempre mais jovens. Ou seja, há sempre a relação e um homem mais velho que se deslumbra (à falta de melhor palavra) pela juventude e depois a despreza pela sua imaturidade e inconstância. E a sensação que me fica é que estes homens querem relações subjugáveis, mas depois não têm, ainda assim, poder para tal.

Editora: Cotovia | Local: Lisboa | Edição/Ano: Out. 2000 | Impressão: Tipografia Guerra | Págs.: 82 | ISBN: 972-8423-92-6 | DL: 156134/00 | Localização: BLX Galveias 082742 (00407266)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo, Haruki Murakami

“… trata-se de um livro em que me limito a fazer perguntas em voz alta sobre várias coisas e no qual procuro avançar as respostas.” (p. 8)

Não sou uma desportista. Posso ter uma certa inveja (e esta não é a palavra certa) de quem o é e retira prazer da sua prática. Racionalmente, entendo os benefícios e o prazer que a produção de certos níveis de adrenalina e outras substâncias conferem. Mas o esforço… o esforço necessário… esse investimento nunca me convenceu.
Já a escrita, e que sempre considerei como um processo semelhante ao da corrida de fundo, é algo que sempre busquei e na qual me tenho encontrado amiúde. O seu esforço não me assusta. Mas a resistência e a persistência que lhes são inerente não têm sido uma aquisição fácil ou rápida. Lenta e gradualmente tenho feito um percurso que está longe de dar frutos, mas a caminhada está iniciada.
Há muito que este livro me tinha suscitado curiosidade. E não me desiludiu. Ao longo do que me pareceu um suave passeio, o autor relata-nos a sua experiência enquanto corredor de fundo e o modo como esta moldou o seu carácter e, consequentemente, a sua escrita. Das várias comparações que o autor tece, saliento:
  • p. 18) … verdadeiramente importante é o facto de, com a sua escrita, o escritor atingir a finalidade a que se propôs, o nível que estabeleceu como meta. (…) o escritor possui uma motivação interior, uma força calma que não necessita de aprovação nem de ser validada através de critérios exteriores.
  • p. 84) … qual a qualidade mais importante para ser romancista?
    • Talento: … o dono … não domina nem a quantidade nem a qualidade do mesmo.
    • Concentração e persistência: adquiridas e melhoradas com a ajuda de exercícios.
  • p. 87) Para mim, escrever romances é fundamentalmente um trabalho físico. A escrita em si talvez seja um trabalho intelectual, mas dar forma a um livro inteiro, acabar de o escrever, tem mais que com o ofício manual.
Esta leitura sedimentou um pouco mais a minha vontade de persistir na escrita. Seja ela lida ou não, reconhecida ou não. É através dela que me vou entendendo e ao mundo. O que talvez tenha contribuído, algo inesperadamente, foi para a consciencialização da necessidade de cuidados físicos mínimos para que o corpo suporte as exigências mentais e físicas da escrita. Só quem escreve sabe o trabalho por trás de uma aparentemente simples página A4.


Título Original: What I talk about when I talk about running | Tradução: Mª João Lourenço | Editora: Casa das Letras | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, Nov. 2009 | Impressão: Multitipo AG, Lda. | Págs.: 186 | Ilustrações: fotos do autor | ISBN: 978-972-46-1923-1 | DL: 300616/09 | Localização: BLX PF 82-94 MUR (80260709)

domingo, 2 de julho de 2017

Os livros do final da tua vida, Will Schwalbe (Os livros)


Deixar aqui uma lista exaustiva dos livros apresentados por Will Schwalbe n’ Os livros do final da tua vida, no âmbito do seu clube de leitura intimo ao longo do processo oncológico da mãe, resultaria numa publicação extensa, desinteressante e pouco produtiva. Seria uma listagem como outra qualquer e creio que de listagens estamos todos fartos. Interessa-me mais perceber tendências do autor ou eventuais pontos de contacto com o meu percurso e intenções pessoais de leitura.
Dos cerca de 90 livros mencionados (lidos ou a propósito de contextualização), apenas li 3, sendo que um ainda não está acabado: A última aula, de Randy Pausch; O Senhor das moscas, de William Golding (inacabado); e Os homens que odeiam as mulheres, de Stieg Larsson.
Para um leitor é sempre aliciante ler algo com que se identifica, nomeadamente o fascínio pela leitura e pelos livros. Daí, fiquei com a curiosidade de conhecer Os detectives selvagens, de Robert Bolaño, A Leitora Real, de Alan Bennett, e As memórias do livro, de Geraldine Brooks. Vão ficar para próximas núpcias. Outros títulos com que já me tinha cruzado através de adaptações ao cinema e à televisão são: Olive Kitteridge, de Elizabeth Strout; O Fundamentalista relutante, de Moshin Hamid; O bom nome, de Jhumpa Lahiri, além dos seus outros livros O Interprete de enfermidades e Em Terra Estranha; e  do inevitável Ken Follett (que deve ser o autor com que mais me cruzo nos transportes públicos).
Outros livros mencionados e que também (já) me suscita(av)m curiosidade são O ano do pensamento mágico, de Joan Didion, e Noite, de Elie Wiesel, pelas temáticas abordadas. Mas sinto que não é este o momento para me dedicar a eles.
Já no âmbito da pura curiosidade despertada pelo título, ficaram na minha mira: A elegância do ouriço, de Muriel Barbery; The bite of the mango, de Mariatu Kamara (sem edição portuguesa); e Outros quartos, outras maravilhas, de Daniyal Mueenuddin.
Em síntese, foi interessante perceber igualmente o percurso de leituras de duas pessoas de gerações e de uma geografia diferentes da minha, o que se percebe com: apenas três livros lidos em comum, uma enormidade de livros não publicados em Portugal; e até autores que desconhecia por completo. E como os livros são como as cerejas, o benéfico é que se juntaram mais possibilidades às minhas intenções de leitura. Onde elas me levarão não sei, mas sei que irei registando aqui as minhas impressões e espero que as mesmas possam ser de utilidade a quem despenda os seus minutos nestas breves palavras. 

sábado, 1 de julho de 2017

Leitura nos Transportes Públicos #17.06

Junho
1
A ordem oculta, Brad thor

Todos devemos ser feministas, Chimamanda Adichie Ngozie
5
O nosso reino, valter hugo mãe

O velho e o mar, Hemingway
6
quando as pombas desaparecerem, Sofi Oksanen
7
Como vento selvagem, Sveva Casati Modignani

Como uma flor de plástico na montra de um talho, Golgona Anghel
8
A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafon

Um violino na noite, Jojo Moyes
  
    O que vemos quando lemos, Peter Mendelsund

O voo das águias, Ken Follett

1984, George Orwell

A rua na ilha dos pássaros, Uri Orlev

A queda dos Gigantes, Ken Follett

A Herança, John Grisham


Podemos salvar a Europa, Thomas Piketty
30
Intimidade, Osho

Os livros do final da tua vida, Will Schwalbe

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Os livros do final da tua vida, Will Schwalbe

Há livros que se revelam uma pequena surpresa. Seja porque avançamos suavemente pelas suas páginas, seja porque nos identificamos com o seu conteúdo. E neste livro senti uma dupla identificação. A mais óbvia, para quem me conhece quotidianamente, é o da minha paixão por Clubes de Leitura/Comunidades de Leitores. Foi aliás esta temática que me fez encontrar o livro e no qual encontrei algumas reflexões que partilho, e a que me dedicarei noutros textos a publicar proximamente. Um dos méritos deste livro é que me deu muita vontade de escrever e também de revisitar textos antigos, que necessitarão, é certo de um upgrade.
O segundo factor de identificação que senti foi ter passado por uma situação de vida semelhante: a experiência de acompanhar a nossa mãe na sua batalha oncológica. Reconheço uma enorme sensibilidade e fidelidade na sua reprodução dos ambientes hospitalares, as rotinas das consultas e tratamentos, os efeitos secundários das diferentes quimio e radioterapias, os estados de espírito e físicos dos doentes e seus acompanhantes, bem como, em última instância, o definhar físico do corpo, que pode ser bem mais drástico do que aqui é apresentado.
Neste caso, o autor relata-nos como a sua relação com a mãe - nos cerca de dois últimos anos de vida dela – foi pautada por um clube de leitura a dois, que teve o grande beneficio servir de ponte para a sua mãe transmitir muitas das suas experiências e aprendizagens de vida, mas também para os diálogos onde ainda transmite os seus sonhos, intenções e desejos.
Numa nota puramente pessoal, com a leitura deste livro sinto que fechei um ciclo de leituras que me ajudou a superar os meus processos de luto. Uma dessas leituras é A Última Aula, de Randy Pausch, mencionada ao longo da obra é que também li há cerca de 2 anos. Outro livro que não faz parte desta listagem é o Nunca te distraias da Vida, de Manuel Forjaz, e que li há cerca de 3 anos. Os 3 livros, e tantos outros pelo caminho, ajudaram-me a atingir uma serenidade e uma aceitação nem sempre fáceis e nem sempre constantes, mas possíveis, e cuja leitura pode ser benéfica para colocarmos em harmonia razão e emoção.

Título Original: The end of your life book club | Tradução: Eugénia Antunes | Editora: Clube do Autor | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Out. 2013 | Impressão: Guide – AG, Lda. | Págs.: 326 | ISBN: 978-989-724-075-1 | DL: 363162/13 | Localização: BLX Olivais OUT-GEN OUT-GEN-EST SCH (80335911)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Comunidade de Leitores da Penha de França: Balanço 2016-2017

Terminámos esta quarta-feira, mais um ciclo de sessões da Comunidade de Leitores da Biblioteca da Penha de França. O balanço é positivo.
Em termos de participantes, somos um grupo pequeno. No entanto, nas últimas sessões tivemos a presença de novos leitores, que manifestaram o seu interesse em continuar. Assim, as expectativas para Setembro, quando retomarmos os encontros, são aliciantes. Em termos de reacções às leituras, embora nem todas tenham cativado os nossos leitores, há uma unanimidade em reconhecer o valor das mesmas. Ou seja, navegamos por autores cujas obras desconheciam, o que foi uma mais-valia, e a troca de experiências de leitura, destes e de outros livros, contribuiu para novas perspectivas.
Em termos pessoais, foi mais um ciclo de aprendizagem. Não só da dinamização das sessões propriamente ditas, mas também do modo como posso contribuir para a divulgação desta iniciativa e manter um contacto positivo com estes parceiros de leituras.
Agora, é tempo de planificar as leituras para o próximo ciclo. Foram feitas propostas, que estão em fase de “votação”, e em breve contamos poder finalizar as nossas sugestões de leitura para 2017-2018. 
Keep calm e boas leituras! J

Comunidade de Leitores da Penha de França
Leituras 2016/2017
Data
Autor
Título
28 de Setembro
Ferreira de Castro
A Curva da Estrada
26 de Outubro
Ernst Hemingway
Fiesta / O Sol brilha sempre
30 de Novembro
Nadine Gordimer
A história do meu filho
28 de Dezembro
Mia Couto
O outro pé da sereia
25 de Janeiro
Lídia Jorge
O vale das paixões
22 de Fevereiro
Ana Zanatti
Os sinais do medo
29 de Março
Luísa Costa Gomes
A pirata
26 de Abril
Richard Zimler
O último cabalista de lisboa
31 de Maio
valter hugo mãe
o apocalipse dos trabalhadores
28 de Junho
Ondjaki
os da minha rua

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Silêncio, isto (ainda) é uma biblioteca!?

As bibliotecas têm alterado as suas dinâmicas, acompanhando a evolução social. Hoje, são, sobretudo, espaços transversais de âmbito cultural, que procuram satisfazer as necessidades das comunidades para além do típico acesso à informação, actualmente, acessível a partir de um qualquer clique.
Sem falar do acesso à informação, pois já ninguém, técnicos e utilizadores, passam sem o acesso informático sem fios. Quando falamos destas como pontos de encontro e convívio da comunidade, há que lidar com uma das suas caracteristicas tradicionalmente associadas: o silêncio. Como é que se encontra alguém no silêncio? Como é que se convive em silêncio? É possível mudar-se sem perder determinadas características? Quais destas são abdicáveis?
Quando numa sala há uma reivindicação de silêncio, e dependendo do grau de ruído, é habitual um técnico defender-se com a afirmação: lamento, mas esta não é uma biblioteca de silêncio absoluto. Em várias situações, os utilizadores não sabem o que dizer e a reivindicação fica por aí.
Podemos falar na necessidade em estabelecer limites. Sim, mas e onde ficam esses limites? O que é isto de se solicitar silêncio (a alguém) quando, em nome do progresso, convivem num mesmo ambiente toques de telemóvel, sons de maquinaria vária como ar condicionado, alarmes, apitos, tamborilares em teclados, avisos informáticos, etc. e nós somos um dos seus produtores.
Seja enquanto técnica, seja enquanto utilizadora, o que mais me irrita é exactamente essa profusão de barulho de fundo irritante causado pelos mil e um aparelhometros que temos nos nossos espaços, na sua maioria desadequados. Quando ao barulho provocado pelo diálogo entre utilizadores, se moderado e feito de forma respeitadora, na sua maioria não me incomoda. Isto quer dizer o quê? Que os espaços não são apenas nossos e como tal não devemos impor o nosso diálogo a quem nos rodeia. Gosto de ver jovens a trabalhar em conjunto, a tirar dúvidas, a organizar trabalho. Não gosto de conversas sobre outros assuntos, não gosto de tons de voz elevados, de chamadas de atenção mais barulhentas que o ruído de origem.
Diria que os espaços para serem dinâmicos necessitam de uma comunicação e da sua expressão. As bibliotecas também. Aqui, enquanto técnica, o que muitas vezes posso e devo fazer é a consciencialização dos nossos públicos, mas sem dogmatismos. Nem todos os públicos foram educados para ser públicos e há indivíduos que não são educáveis. No entanto, através do diálogo chegamos a bom porto. Afinal, ainda estamos numa biblioteca!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Churchill (2017)

Um dos mais conhecidos estadistas a nível mundial, Winston Churchill fica igualmente na história da literatura ao ganhar, em 1953, o Prémio nobel correspondente, por "for his mastery of historical and biographical description as well as for brilliant oratory in defending exalted human values".[1]
O filme aborda as 96 horas prévias ao desembarque das forçar aliadas na Normândia e é um filme atípico. Dá-nos a imagem de um líder em crise, que não sabe qual o seu papel numa guerra em que não acredita na validade das estratégias adoptadas, nomeadamente este ataque. Um líder arredado da estratégia em que não acredita, mas chamado a galvanizar o povo para o continuo esforço de guerra. Um líder que se quer um farol de animo, coragem e persistência num tempo de calamidade, trágico com o fim e o estropiar de uma geração. Um líder enquanto combate com os seus demónios e uma depressão.
Este é um filme de palavras. Da acção pela palavra. De como a palavra certa pode ser a arma mais eficaz para galvanizar um povo. Da procura dessa palavra, no respeito pelo seu significado e pelo seu potencial transformador. Da palavra como resistência. Da palavra como procura para o significado da vida e da morte.

[1] Pela mestria na descrição histórica e biográfica, bem como pela oratória brilhante e exaltada na defesa dos valores humanos. (Tradução da minha autoria) 

terça-feira, 20 de junho de 2017

A transformação pela viagem não será também uma das muitas ilusões que nos oferecem, como resposta à necessidade que temos de alterar o percurso ou os resultados menos positivos das nossas vidas? O que encontramos noutro lugar que não sejamos capazes de encontrar no nosso quotidiano? E que garantias há, que algures nos caminho ou no destino que ignoramos, nos encontramos? Os relatos de viagem não são, afinal, sempre relatos de regressos?

segunda-feira, 19 de junho de 2017

vem como és, vem como tens na pele
o segredo do teu presente

Pavão, Patricia Ariel

domingo, 18 de junho de 2017

40º e o meu casaco de malha

Pertenço ao grupo das pessoas que não se dá bem com o calor excessivo. Andar na rua, nestes dias, se não houver uma sombra ou uma brisa, pode ser complicado.
Então, a existência de ar condicionado parece a solução ideal, certo? Errado.

Na maioria dos locais, os funcionários, técnicos, amadores, não sabem definir a temperatura correcta de um aparelho e ajusta-las às dimensões do espaço e ao número de horas consecutivas que é suposto trabalharem. O que resulta, demasiadas vezes, numa temperatura aquém do desejado. 
E o que é que eu faço? Visto um casaquinho de malha e lá estou, com olhares de lado e pensamentos assassinos na minha direcção. 
Lá fora estão 40º, deixa estar, eu trago sempre o casaquinho no saco e saco dele sempre que necessário. Sem stress, nem preocupações em adequar as temperaturas. Eu e o meu casaquinho estamos bem!
Sarolta Ban

sábado, 17 de junho de 2017

Eu sou o Monstro

Toshiaki Kato
Vi recentemente a nova versão de A Bela e o Monstro (2017) que se tornou um clássico da Disney quando, há cerca de 25 anos, rompeu com o padrão das suas denominadas “princesas.”
O filme é visualmente bonito. No entanto, há uma “rapidez” de edição que não nos deixa usufruir nem das canções, nem dos cenários, nem dos enésimos pormenores gráficos das personagens. Tudo está em constante movimento e a nossa atenção, quando é despertada, não consegue permanecer nesse foco porque ele simplesmente já não está ou está noutro local qualquer. Esta é uma evolução de certos filmes que me desagrada. Para efeitos comerciais foram encurtados e tudo nos é apresentado à pressão.
Voltemos então há 25 anos. Bela não era princesa, nem pertencia a uma aristocracia falida. Era a filha de um relojoeiro, que gostava de ler e cujos interesses não passavam pelo casamento com os pretendentes disponíveis. Mesmo quando esses eram muito apetecíveis às outras moças casadouras. E não era loura, mas sim uma morena cuja beleza, sem ser estonteante, advinha, sobretudo, das suas características interiores. Finalmente, uma heroína com que nos podíamos identificar, física e emocionalmente. (Pelo menos, até percebermos que esta poderá ser vítima de Síndroma de Estocolmo).
Agora, ao voltar a esta história e com uma experiência e outras perspectivas, percebo que a personagem com quem me identifico é o Monstro. Não somos o que há primeira vista se apresenta aos outros. Não no sentido do engano, mas no sentido de que normalmente ficamos presos a uma primeira percepção, muitas vezes condicionada por estereótipos sociais e estéticos. E quando não estamos dispostos a sacrificar-nos para entrar em conformidade com esses padrões, os demais podem-se afastar. Mas não é só isso.
O Monstro sofreu um revés que alterou profundamente o seu modo de ser. O seu modo de vida ruiu de um momento para o outro. Isso induziu-o a uma alteração dos seus valores, mas também da sua percepção dos valores que regem a sociedade. Ele sabe que já não corresponde ao que esperam dele, mas também sabe que dificilmente lhe darão a oportunidade de dar a conhecer a sua nova personalidade. Ele tinha valores fúteis, mas a sociedade também os tem e estes são mais difíceis de alterar do que os do individuo. Então, também voluntariamente, este isola-se e desiste de uma vida exterior. E só se abre ao mundo quando alguém, mesmo que inadvertidamente, encontra uma brecha na sua muralha emocional. E só aceite pela sociedade exterior quando em conformidade com as expectativas sociais e estéticas.

Quantas pessoas não conhecemos assim? Eu conheço-me...

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Sobre o feminismo

No rescaldo da leitura de Todos devemos ser feministas, de ChimamandaNgozie Adichie, aproveito algumas das suas frases para perceber melhor a minha posição e afinar a(s) minha(s) opiniõe(s), que, na sua maioria, ainda estão numa fase (embrionária) de sentimento. E, como tal, são ainda mutáveis e a seu tempo espero que mais compreensíveis.
Algumas frases sobre o preconceito relativo ao feminismo e às feministas:
  • p.13) são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido. Felicidade e casamento não são complementares. Logo, o casamento não é a única forma de se atingir a felicidade. Quem se propõe a conseguir a sua felicidade através do caminho menos percorrido tem momentos de infelicidade, tal como todas as pessoas. Muitas mulheres optam por não casar, não por negarem o casamento em si,mas porque os seus desejos mais íntimos nem sempre se conjugam com o que ainda se espera de uma mulher. Porque se as mulheres alteraram o seu papel na sociedade, consequentemente também o do homem se alterou. E nesta incerteza de papeis, nem todos têm a capacidade de assumir ou arriscar fora do registo daquilo que se espera. E há quem simplesmente não sabem lidar com esta alteração, então, a sua única opção é a de rebaixar que a assume.
  • [a mulher é] corrompida pelos livros ocidentais. Realmente, ainda está por aferir qual o papel exacto da leitura na definição do futuro individual de cada um. Todos nós sabemos que a leitura é transformadora, para o bem e para o mal. Todos lemos livros que alteraram as nossas percepções e os nossos actos. Por isso, a educação é a maior ferramenta para atingirmos a igualdade de oportunidades e de tratamento. Por isso, jovens como a Malala ainda são a maior ameaça às sociedades patriarcais.
  • p.14) [as mulheres odeiam os homens]. As mulheres não odeiam os homens. Apenas não aceitam submeter-se à sua vontade, às suas ordens, aos seus desejos.
  • [odeiam determinadas culturas]. Todas as culturas têm pontos positivos e negativos. Mas a cultura não é imutável e é feita pelas pessoas que a perpetuam ou que a adaptam. Mas qualquer cultura que não permita à mulher o designio do seu corpo, da sua vontade, dos seus sonhos e dos seus desejos, não é uma cultura fácil de aceitar. Quem o aceita, acredito que o faça por uma inerente clareza perante os papeis atribuidos a cada pessoa e o que se espera de si. Quando o papel é óbvio, também é mais fácil (ou não) de desempenhar. Mas há muito que nos deixámos de guiar pelo óbvio.
  • [não têm cuidados e beleza e/ou higiene]. Todas as mulheres têm cuidados de higiene, embora possam não se aplicar em cuidados de beleza. Há uma frase conhecida que afirma que não há mulheres feias, há mulheres pobres. Dito isto, a beleza é uma questão, por vezes, única e exclusivamente financeira. Agora, se despirmos algumas dessas mulheres de determinados artificialismos, o que resta delas? O que é que elas são, o que é que elas procuram? Porque é que consideram que só o conseguem alcançar transformando o seu exterior. Não seria mais interessante se apenas pudéssemos ser nós?