terça-feira, 19 de setembro de 2017

Como a leitura influenciou a minha escrita

Sally Nixon
A minha prática de escrita teve início na adolescência, com qualquer coisa parecida com um diário. Cedo, a descrição do quotidiano per si me desinteressou. Mas a escrita, como forma de me organizar mentalmente e de me perceber, ficou como hábito enraizado. Ainda mais do que a leitura. Creio até que a leitura veio como forma de (me) saber escrever melhor.
Numa primeira fase, o resultado da escrita era privado. Só com o advento da internet e dos blogues é que a escrita se tornou pública e isso sempre influi o modo como escrevo. Sempre almejei uma escrita clara e acessível e, se possível, concisa. Algo que resultou também de uma curta, mas marcante, experiência redatorial.
Hoje, além do processo de organização mental, encontro na escrita o espaço para exprimir a minha (in)compreensão do mundo e uma forma de partilhar (o pouco ou o nada) que tenho aprendido. Além disso, aquilo que decido partilhar tem uma visibilidade acrescida. E a noção dessa visibilidade e eventual impacto trouxe outra noção de responsabilidade sobre o que opto por partilhar.
Essa responsabilidade passa pelo respeito pelas “fontes”. Não que me dedique a citações ou a reproduções apuradas das leituras que faço. Procuro, sem omitir a origem das minhas reflexões, fazer uma síntese pessoal e transmissível, reflectindo sobre diversos pontos de vista e, sempre que possível, contribuindo para uma conciliação. Embora na maioria das situações sinta, sobretudo, dúvida, dúvida, dúvida. Ou seja, exprimimo-nos à luz do que sabemos no momento e, quase sempre, a nossa perspectiva tem limitações.

Também sinto uma apreensão que há alguns anos não tinha. Sinto que alguns dos meus escritos são demasiado impulsivos e imponderados para partilhar e que não acrescentam nada a ninguém. Ou seja, o que escrevemos pode ser uma excelente ideia mas enquanto não atingir determinado grau de maturação é preferível ficar connosco. A seu tempo, se se justificar, há de ver a luz do dia. E esse dia também chega, porque também é certo que ganhei outra segurança e outra maturidade no modo como escrevo. E é com a tranquilidade do percurso feito até ao momento que vos deixo estas linhas de balanço de cerca de 13 anos de blogosfera e mais de 25 de divagações pessoais. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Comunidade de Leitores da Penha de França - Leituras 2017/2018

É já no final deste mês que retomamos as nossas tertúlias literárias na Biblioteca da Penha de França. Este ano, a maioria das escolhas recaiu sobre autores portugueses, o que evidencia a curiosidade e vontade de conhecer o que é nosso. Deixo-vos aqui o nosso desafio de leituras para esta temporada e o convite para nos visitarem e partilharem as vossas opiniões. Boas leituras!

Data
Autor
Título
27 de Setembro
Machado Assis
Dom Casmurro
25 de Outubro
Mário Dionísio
O dia cinzento
29 de Novembro
Camilo José Cela
A cruz de Santo André
27 de Dezembro
Carlos de Oliveira
Uma abelha na Chuva
31 de Janeiro
Clarice Lispector
Laços de Família
28  de Fevereiro
David Mourão Ferreira
Gaivotas em terra
28 de Março
Teolinda Gersão
A cidade de Ulisses
18 de Abril (25=F)
Hélia Correia
A casa Eterna
30 de Maio
Possidónio Cachapa
O mar por cima
27 de Junho
Gonçalo m. Tavares
Aprender a rezar na era da técnica


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O fim da imaginação, Arundhati Roy

“O nosso Ministério da Compreensão do Horror é irremediavelmente obsoleto.” (p. 10)
Em Maio de 1998, a índia encetou testes nucleares, como forma de aumentar o seu potencial bélico, no seu combate fratricida com o Paquistão. É neste contexto que Arundhati Roy, no rescaldo da notoriedade internacional recentemente adquirida após a publicação de O Deus das Pequenas Coisas, escreve este texto publicado numa revista do seu país.
Quase 20 anos depois, é impossível não ler nestas linhas a actual situação da Coreia do Norte, com as quase diárias ameaças e notícias dos seus testes e bombas. E pensar que realmente o homem não aprende com os seus erros. Aliás, continua a insistir na sua prossecução e que só a humanidade maioritariamente anónima receia o inevitável desfecho. Porque, como a autora demonstra, a Teoria da Dissuasão tem duas falhas (dai ser apenas uma teoria):
1.    “Presume um entendimento entendimento integral e sofisticado do nosso inimigo. Presume que aquilo que nos dissuade (o medo da aniquilação) também o dissuade. (…) a posição do bombista suicida (…) ser-nos-á algo estranho?
2.    Baseia-se no medo. Mas o medo baseia-se no conhecimento. Na compreensão das verdadeiras proporções e escala de devastação. (…) não funciona nem consegue os níveis de ignorância e analfabetismo que impendem sobre os nossos dois países como véus densos e impenetráveis.” (p.14)
E nós, nos nossos cantinhos do mundo (que não é quadrado, mas é muito bicudo) assistimos ao escalar dos testes e das ameaças, pouco veladas, de um futuro sem futuro. O fim está perto. Pelo menos, assim parece. E sentimo-nos impotentes, porque o nosso potencial de acção é quase inexistente ou inconsequente. Mas somos cientes que seremos vítimas das inconsciências inconsequentes de líderes mundiais ignorantes.

Título Original: The End of Imagination (1998) | Tradução: Teresa Casal | Editora: Asa II | Local: Porto | Edição/Ano: 1ª, Set. 1999 | Impressão: Divisão Gráfica | Págs.: 48 | ISBN: 972-41-2111-9 | DL: 138360/99 | Localização: BLX DR5066927 (0926079)

domingo, 10 de setembro de 2017

A Lagosta (2015)

Durante os meus zappings noturnos, por vezes, dou com estranhos fenómenos fílmicos. O mais recente foi este A Lagosta.
De acordo com a sinopse, num futuro indefinidos, qualquer adulto que esteja ou fique solteiro é encaminhado para um hotel, onde, no prazo de 45 dias, deve encontrar um par, sob o risco de ser transformado num animal à sua escolha. Caso encontre, deve ainda permanecer 15 num quarto de casal e outros 15 isolados num iate, períodos que servem para consolidar a relação, antes de regressarem à cidade, e durante os quais, caso surjam atritos, lhes é atribuída uma criança para ajudar a solucionar os problemas.
Esta distopia sobre as relações a dois vale é um modo irónico de olhar para estas na sua actualidade. Ou seja, o “exagero” com que algumas situações nos são apresentadas não esconde que, no fundo, ninguém sabe conviver com os seus (e demais) sentimentos, nem sabe sequer que sentimentos nutre. E esta situação é mais usual que muitas vezes vemos ou queremos ver. O filme esmiuça ou levanta questões como: o que esperamos de uma relação? O que é o amor? Qual o papel dos interesses/gostos comuns na construção de uma relação? O que estamos dispostos a sacrificar por alguém? Qual o nosso lugar social quando não incluído num relacionamento padrão? Há lugares marginais? Quais as suas regras? Qual o papel (do medo) da solidão na constituição de relacionamento? Há lugar há mudança? Há lugar para o sentimento a dois?

Título Original: The Lobster * Realização:  Yorgos Lanthimos * Argumanto:  Yorgos LanthimosEfthymis Filippou * Elenco: Colin FarrellRachel WeiszJessica Barden

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Os possíveis enquadramentos institucionais de Comunidades de Leitores

Imagem de capa de Eléctrico 16, de Filomena Marona Beja.
Existem espaços ideais para a realização de Comunidades de Leitores? Habitualmente, que espaços associamos a esta prática? Só?
A minha experiência leva-me a constatar que qualquer espaço que permita a reunião de um grupo de pessoa pode ser palco da realização de uma Comunidade de leituores, mesmo que esse espaço, à partida, não tenha nenhuma relação aparente com essa dinâmica. A verdade é que numa comunidade de leitores o único denominador comum é o exercício da leitura e desafio da sua partilha. Então, o espaço é um pormenor secundário e pode ser o que estiver disponível a esse mesmo grupo.
Os espaços que mais facilmente associamos a esta prática são os que têm o livro na sua génese: bibliotecas e livrarias. Mas ambos têm missões e objectivos diferentes, que podem condicionar os moldes desta prática. Numa livraria, para além que qualquer móbil de difusão cultural, não podemos esquecer que é um negócio. Há sempre um objectivo de retorno financeiro. Então, na sua prática de dinamização de comunidades de leitores a rentabilização da “novidade” é sempre uma prioridade. E é uma rentabilização tão válida como outra qualquer e é uma ferramenta de divulgação utilizada por livrarias como Bertrand, Almedina e Leya. Basta consultar as suas páginas intitucionais.
No entanto, a aquisição de “novidades” implica um investimento financeiro que nem todos os leitores (e instituições) podem despender. Mas esta situação é contornável e aí as bibliotecas têm um papel preponderante, pois podem rentabilizar o acervo disponível. Isso poderá implicar alguma criatividade no momento de lançar propostas de leitura e optar por modelos de dinamização menos restritos à habitual leitura periódica única. por outro lado, e não esquecendo que também somos avaliados quantitativamente, a dinamização de comunidades permite uma redescoberta e uma nova vida de leituras do acervo. E sem esquecer a missão inerente às bibliotecas de equidade ao acesso à informação e cultura.
Mas estes não são, de longe, os únicos espaços passiveis de acolher uma comunidade de leitores. Por exemplo, o Museu Ferreira de Castro dinamiza uma comunidade desde Maio de 2008 e que, de acordo com o seu responsável, já conheceu várias “gerações” de participantes. E como os locais podem (e devem) influenciar as dinâmicas, este tem como desafio anual a leitura de uma das obras do autor.
Se calhar, também não estranhamos que uma associação cultural dinamize uma comunidade de leitores. Então, e se for uma associação de moradores ou o condomínio do seu prédio? Parece inusitado, mas já pensou que esta pode ser a forma, por exemplo, de colmatar a oferta cultural na sua área de residência. Ou até ser um factor de coesão e partilha social. E quem diz uma associação, também pode dizer a sala de assembleia da sua junta de freguesia. E a sua empresa? Já ponderou como a partilha de leituras pode ser um elemento da politica social da sua empresa e uma forma de teambuilding a explorar?
Estes são apenas exemplos de locais que podem acolher uma comunidade de leitores. Em jeito de conclusão, quero apenas frisar que, se existir a vontade de encetar novos percursos e de partilhar leituras, não há local impeditivo à sua realização. Aliás, até estou a ponderar propor à CP a dinamização de uma comunidade numa carruagem, nas minhas viagens de ou para o trabalho. Que acham?

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A terra das Ameixas Verdes, Herta Muller

 “Eu teria preferido não estar ali onde a minha mão segurava a caneca.” (p. 156)
Há leituras que se entrelaçam inadvertidamente. À primeira vista é surpreendente, embora não deva. Porque é deste entrelaçar que se tecem as várias nuances de uma história universal.
No rescaldo da leitura de A Guerra não tem Rosto de Mulher, e com vários dos seus relatos e sensações provocadas ainda a palpitar na minha mente, dei por mim a aportar numa outra obra nobelizada1, através deste A Terra das Ameixas Verdes. E a sensação que me trespassou durante toda a leitura é que esta narrativa poderia muito bem ser um verso de alguns dos relatos de Alexievitch. Um verso dos relatos de resistência.
Esta é uma outra história, e outra e mais outra e ainda outra, história no feminino. A narradora (sem nome, igual a tantas outras mulheres), Lola, Tereza e a modista são os principais eixos narrativos. Mas há ainda a(s) mãe(s) e a avó cantadeira e a avó rezadeira. Diversas mulheres, em diferentes fases da vida, que atravessam a vida e os homens lutando contra as expectativas sociais, a ameaça e a perseguição política e a morte que espreita a cada esquina.
Já a escrita, foi uma lição. A conjugação de frases, de modo a demonstrar emoções e sensações, foi para mim uma descoberta e uma aprendizagem.
Título Original: Herztier | Tradução: Mª Alexandra A. Lopes | Editora: Difel | Local: Lisboa | Edição/Ano: 2009 | Impressão: Tipografia Peres | Págs.: 204 | ISBN: 978-972-29-0971-6 | DL: 301028/09 | Localização: BLX PF 81-31/MUL (…)

1) Nobel 2009, “que, com a densidade da sua poesia e franqueza da prosa, relata o universo dos desapossados.”

domingo, 3 de setembro de 2017

A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Alexievich

"A guerra é uma vivência demasiado intima. E tão infinita como a vida humana..." (p. 19)
Esta foi uma leitura na qual não me foi fácil entrar. Ler, quase, em 2020 os registos vida de mulheres nascidas há quase um século, com uma educação, dispare da que usufrui, inserida numa cultura ideológica e que participaram voluntariamente num cenário de guerra, parecia-me amiúde um combate no intuito de vencer diversos desfasamentos (temporal, geracional, geográfico e cultural). A cerca de um terço do livro esse confronto tornou-se mais ténue e a leitura, nem sempre cómoda, fluiu espontaneamente.
Esta guerra não tem rosto de mulher (como tantas outras) porque a História é relatada pelos vencedores (homens). E as mulheres que participaram no esforço de guerra russo (à falta de melhor conhecimento histórico-geográfico) foram arredadas do relato de Vitória, apesar de terem contribuído ombro a ombro com os homens. Foram combatentes de guerra e vencidas no seu regresso ao quotidiano. Foi-lhes negado, durante décadas, o seu lugar e o seu valor. E o que Alexievich procura é que exactamente esse seu sacrifício duplo (no cenário de guerra e pós guerra) não caia no esquecimento. Para tal, compila centenas de entrevistas das quais selecciona excertos que lhe parecem revelar momentos únicos (embora universais) do que estas mulheres viveram e sentiram, vivem e sentem. Para nós, leitores, por vezes os registos parecem demasiados e até repetitivos, no entanto, esta é talvez a única forma dos nomes destas mulheres ficarem registados para memória futura.
É um livro que não é simples. É um registo pouco usual e de difícil classificação. Mas é um registo necessário para que a memória não se extinga. Mesmo que a memória seja difícil, revoltante e até mesmo incompreensível.

Título Original: U vojny ne zenlkoe lico | Tradução: Galina Mitrakhovich | Editora: Elsinore | Local: Amadora | Edição/Ano: 1ª, Set. 2016 (3000 exemplares) | Impressão: Publito | Págs.: 392 | Capa: Ideias com Peso | ISBN: 978-989-8843-57-9 | DL: 413389/16 | Localização: BLX Galv. 355.48 (100)”41/45”/ALE (80382837)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Leituras nos Transportes Públicos #17.08

AGOSTO
2
O tempo entre costuras, Maria Dueñas

Ser feliz é ser saudável, Dave Romanelli

Valorize mais a sua vida, A. Balbach
7
A estrela do Diabo, Jo Nesbo

O segredo da modelo perdida, E. mendonza

O estreito caminho para o longinquo norte, Matsuo Bashô
8
Para lá de Bagdade, Alberto S. Santos
9
A leitora real, Alan Bennett
10
Carta à minha filha, Maya Angelou
11
Toda sua, Silvia Day

No limiar da eternidade, Ken Folett

O alquimista, paulo Coelho

Como vencer a fome emocional,

Mães arrependidas, Orna Donath
14
2999. Roberto Bolaño
16
After (5), Anna Todd

A forma das ruinas, J. G. Vasquez

A amante, James PAtterson
30
After (1), Anna Todd

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

terça-feira, 22 de agosto de 2017

A acalmia está prestes a terminar
o tumulto está em ponto de eclosão
o silêncio anunciador é ensurdecedor
a gota soltou-se
a superfície agita-se
a onda cresce
quando e quanto arrastará na sua força destruidora
não é tempo de saber
o momento é de encher o peito
de construir as barricadas possíveis
e aguentar o impacto
reerguer
tanto quanto necessário
tanto quanto possível
até à vitória

ou ao cansaço final 


sábado, 19 de agosto de 2017

Geração Perene (Perennial)

Cheguei recentemente a esta definição que me levou a algumas reflexões. A definição de perene advém da botânica e refere-se a plantas cuja folha se mantem, durante, pelo menos, 2 anos. Ou seja, o oposto das plantas de folha caduca, que caem anualmente. Mas quando se fala da actual geração perene, o significado torna-se mais abrangente. Representa as pessoas cuja estrutura mental não se define pela idade. Ou seja, pessoas de todas as idades cuja atitude é de constante renovação, acompanhando as evoluções tecnológicas e com amizades em todos os espectros etários. São pessoas que se envolvem, que mantêm a curiosidade sobre o que as rodeia, que ajudem os outros, que desenvolvem atividades (profissionais ou não) que as motivam, sendo criativas, confiantes, colaborativas e sem medo de arriscar.
Esta abordagem simples, parece demasiado boa para ser verdade. Mas será que, no mundo em constante mudança em que as actuais gerações vivem, poderemos realmente sobreviver se não for deste modo? Claro, que não estamos todos nestes níveis de postura perante as sociedades, as comunidades, as tribos e os grupos que nos rodeiam. E o nosso instinto de sobrevivência poderá não apontar neste sentido. O que também não é totalmente irreal. Mas também temos a capacidade de constatar diariamente que as mudanças exigem flexibilidade e esta passa muitas vezes pela capacidade de ajudar mas se calhar mais ainda da humildade em perceber que necessitamos de ajuda e em não hesitar em solicita-la.
Ao tentar perceber até que ponto me identifico com esta “geração” o mais engraçado é perceber que esta é também uma multigeração, embora apareça associada aos habitantes na casa dos 40. mas faz sentido pertencermos a uma única geração? Não. Mas, a ter de escolher alguma, esta parece a mais abrangente a uma geração entre o analógico e o digital e que acompanhou, ainda que mediaticamente, a muitas alterações entre diversas percepções do mundo e de mentalidades.

Que seja perene, então. 
👦👷👧👪👨👫👭👩👬👮👰👲
👯👲👴👳👸👵👷👶💁💂💃

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Valorizar os planos C e D ou F

Na prática, quando sentimos uma série de resistências à prossecução de um objectivo é porque este não nos é “natural”. Claro que nem sempre podemos escapar a alguns objectivos que nos são socialmente impostos. Mas há outros que nos impomos sem realmente fazerem sentido para quem somos e quem queremos ser. Nem sempre é fácil, mas há momentos que necessitamos de nos questionar:
  • se não fizer isto, o que posso fazer em alternativa?
    • Como;
    • porquê;
    • quando;
    • onde;
    • com quem;
    • que valor tem para mim o plano A, o plano B e até o C;
    • o que é que me vão acrescentar enquanto pessoa.

Se formos sínceros, muitas vezes percebemos que essa resistência significa que aquele não é realmente o nosso objectivo primordial. É apenas algo que gostaríamos de fazer, porque acreditamos que isso nos daria outra dimensão social ou reconhecimento profissional. Mas o que realmente nos motiva e faz borboletas nos estômago são os planos C e D ou F. por isso, mais vale avançar um pouco na lista de projectos e objectivos e deixar os A e B para outros momentos. Vamos ignorar o óbvio e prestar atenção ao caminho menos percorrido. 

🔜⏭↷👉👇👆👍

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Não sei qual é o meu destino
E de entre os caminhos possíveis

Encetei o que não me permite ver o final.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Bibliotecas: que oportunidades estamos a perder?

Cada vez mais, vejo o crescimento de ofertas comerciais na área da denominada biblioterapia, da escrita criativa, seja enquanto ferramenta de entretenimento, aumento de competências na língua materna e até o seu efeito terapêutico, coaching literário, comunidades de leitores, entre outras. Se há oferta comercial é porque há quem esteja disposto a pagar por estes serviços. Muito bem, nada contra. Óptimo.
Mas porque é que não vemos esse tipo de serviço oferecido nas bibliotecas? E pelas bibliotecas? À partida temos os técnicos, o espaço e os materiais necessários. E serviços gratuitos, o que é sempre apelativo para o público.
Então o que nos impede de assumir a capacidade para o oferecer?
Não me digam que é necessária qualquer formação médica, uma vez que os exemplos nacionais actuamente mais mediáticos a formação mais próxima que têm é de coaching, sendo que os mesmos declinam qualquer responsabilidade na área da psicologia ou da psicoterapia. Se, à partida, já fazemos aconselhamento e mediação leitora porque é que não assumimos outro nível de oferta? Será por medo? Ou será porque, afinal, grande parte dos técnicos não sentirem qualquer tipo de segurança ou por não possuírem competências de relacionamento interpessoal necessários para o aconselhamento e a mediação?
Acredito que somos responsáveis por criar e desenvolver os nossos postos de trabalho. Acredito igualmente que se nos demitirmos de arriscar certas funções e projectos o mais certo é tornar-nos obsoletos nos serviços que oferecemos. Criar oferta é criar novos públicos. E eles existem. Só estão apenas à espera que os aliciemos.

Então o que nos falta ao certo? Creio que, como sempre, se reduz à gestão e à escassez de recursos humanos. Não só são necessários técnicos disponíveis para arriscar e com algumas competências base, como em número suficiente para o fazer. Quantas bibliotecas se podem gabar de ter o número suficiente de técnicos para oferecer os serviços que almejam? Acredito que muito poucas.

domingo, 13 de agosto de 2017

Sobreviver, Maya Angelou

As oscilações emocionais dos eventos e a impermanência
Dos edíficios espelham a forma como o amor fenece.

Descobri que os afectos platónicos
Da amizade e o amor pelos filhos
São pilares sólidos
Para erguer as almas feridas
E reparar os espíritos magoados.
Não quero mais romances eróticos.


Até que…

sábado, 12 de agosto de 2017

Saudações aos velhos amantes, Maya Angelou

...
Vejam, familiares e amigos,
Que não negamos os anos
Que nos deixaram nos corpos as marcas
Nem os votos passados que ficaram por cumprir
E nos calejaram as almas.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

De todas as cartas de amor,
esta talvez seja a mais tola de todas,
porque te escrevo num futuro improvável,
a partir deste presente

Espero-te na curva de pequenos sorrisos
Em curiosidades cúmplices
Em cumplicidades sonhadas
Em palavras proferidas porque sentidas
Em gestos na medida certa para a minha impaciência
Em companhia para a solitude

Talvez seja o nosso desencontro o tema dos grandes livros
Olhares que não se souberam corresponder

Meu amor, de um futuro improvável
Se um dia vislumbrares a possibilidade de traçar um passado
E encontramos a sabedoria para unir um presente
Talvez o improvável aconteça

Talvez o amor aconteça...

💜💗💛❤💙♥💚♡💟💓💝💔💖💜

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Carta à minha filha, Maya Angelou

“Acabei por compreender que jamais poderei esquecer-me de onde vim. A minha alma irá sempre olhar para trás e admirar-se com as montanhas que subi, os rios que atravessei e os desafios que ainda tenho pela frente. Fico mais forte por saber isso.” (p. 106)
Maya Angelou é um nome maior na literatura e cultura americanas sobretudo pelo seu activismo em prol dos direitos civis e da mulher, estando alguma da sua poesia associada a momentos recentes da história americana.
Este livro é uma súmula das suas experiências, aprendizagens e lições que considera válidas transmitir às gerações seguintes de mulheres. Se o formato e algumas das lições parecem tornar este um livro de auto-ajuda (“Podes não controlar todos os acontecimentos da tua vida, mas pode decidir não deixar que eles te debilitem” p. 12), no entanto, a mensagem maior é: esta é a minha experiência, a partir das minhas circunstâncias. Foi a partir daqui que tirei as minhas conclusões, que me parecem válidas transmitir, para que não se percam, mas não quer dizer que sejam as vossas. (“o que eu sei pode não ser sempre verdade.” P. 116)

Título Original: Letter to my daughter | Tradução: Mª do Carmo Figueira | Editora: Estrela Polar (Leya) | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1º, Out 2009 | Impressão: Multitipo, AG | Págs.: 186 | Capa: Margarida rolo | ISBN: 978-989-8206-35-0 | DL: 300099/09 | Localização: BLX PF 82-94/ANG (80272194)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A Leitora Real, Alan Bennett

“O apelo da leitura, pensou, vinha da sua indiferença: havia na literatura algo de nobre. Os livrosa não se importavam com quem os lia, nem se os liamos ou não. Todos os leitores eram iguais, incluindo ela própria. (…) Os livros não se submetiam. Todos os leitores eram iguais e aquele livro levou-a ao princípio da sua via. (…) Era anónima, partilhada, comum. E ela, que levara uma vida aparte, ansiava por isso. Aqui, nestas páginas e entre estas capas, podia seguir incógnita.” (p. 34/35)

Cheguei a esta divertida novela através de Os Livros do Final da Tua Vida, de WillSchwalbe. É uma ode ao poder transformador da leitura e o impacto que esta pode ter não só na vida do individuo, no seu contexto familiar, social e até político, com consequências internacionais. É através de uma personagem incomum, nada mais que a rainha Isabel II de Inglaterra que vamos perceber este percurso. Quando um dia ao passear os seus famosos cães a rainha se depara com uma biblioteca itinerante nos jardins do palácio, apara não parecer mal – requisita um livro. Vai ser o início de um processo de auto-descoberta através do qual o autor cómica e ironicamente nos alerta e confronta com os benefícios da leitura, enquanto forma de conhecer o outro, de viver o que não podemos, a partilha de opiniões, mas também a ansiedade da privação da leitura, a censura de hábitos de leitura e a incompreensão dos demais. A história culmina com a maior transformação que a leitura pode provocar: a vontade e a urgência da escrita e como essas podem induzir alterações radicais e insuspeitas na nossa vida e na de quem nos rodeia. Muito divertido!

Título Original: The Uncommon Reader | Tradução: Helena Cardoso | Editora: Asa | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, Novembro 2009 | Impressão: CEM-AG, Lda. | Págs.: 128 | Capa: Panóplia ® | ISBN: 978-989-23-0649-0 | DL: 299658/09 | Localização: BLX SL 82-34/BEN (…)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O estreito caminho para o longínquo Norte, Matsuo Bashô

“Os meses e os dias são viajantes da eternidade. Assim como o ano que passa e o ano que vem.” (p. 17)
O que é ser um peregrino poético no Japão do séc. 17? É a questão que fica após a leitura deste pequeno volume que relata a viagem encetada pelo autor em que, cerca de 1680, percorreu a quase totalidade do litoral do país. É um registo sucinto em que prevalecem as ambiências e não uma imagem concreta e fixa que pudesse servir de referência a outros viajantes, uma vez que o tempo acabará por a alterar.
“O tempo passa e passam as gerações e, nada, nem os seus vestígios, são certos (…) Poder contemplar os testemunhos do passado é um dos privilégios do peregrino.” (p. 30)
No entanto, esta sente-se uma peregrinação poética, pois vários dos locais visitados acordam reminiscências da poesia de outros autores que fixaram com as suas palavras momentos da vida quotidiana das gentes e locais, mas sobretudo dos estados da natureza, seja pela contemplação de plantas ou estados climatéricos.
“O berço da poesia:
Os cantos dos plantadores de arroz
No longínquo norte.” (p. 24)
Estes são motivo para a criação, tendo a obra de outros autores como palimpsesto, ou em diálogo como os companheiros de viagem e hospedeiros ou ainda como forma solitária de registar a viagem.
Há muito que me impunha uma leitura deste poeta japonês do séc. 17. Desde que tropecei pela primeira vez com uma referência à sua obra no livro Rakushisha, de  Adriana Lisboa, no qual reconheço a procura de captar o fluir do tempo, a contemplação, o cerimonial. No entanto, é um registo que me provoca uma certa estranheza, pois as suas referencias são tão distantes que sento perder um ror de subtilezas.

Título Original: Oku no Hosomichi | Tradução: Jorge de Sousa Braga | Editora: Fenda | Local: Lisboa | Edição/Ano: 2ª, 1991 | Impressão: Rolo e Filhos, Lda. | Págs.: 62 | ISBN: 972-9184-22-4 | DL: 89071/91 | Localização: BLX PF 82-94/BAS

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Competências: o que são

Ao realinhar um antigo projecto para uma nova utilização, volto ao tema das competências. Recordo que as mesmas se podem agrupar de diversas formas, consoante o autor e a teoria. Mas como não sou de fixar autores e procuro fazer sínteses pessoais de modo a melhor interiorizar o que aprendo, resolvi elaborar uma espécie de síntese, partir da qual retiro algumas conclusões.
As competências correspondem a atitudes, comportamentos e conhecimentos cuja utilização associamos sobretudo à nossa vida profissional. No entanto, estas são apenas uma parte, significativa é certo, da sua utilização diária. Ora vejamos:
  • Às atitudes correspondem as nossas competências pessoais. Ou seja, o modo como agimos no mundo, a partir das nossas características. São: Autoconfiança; adaptabilidade; determinação; iniciativa/empreendorismo; resiliência; Auto-motivação; Criatividade; Responsabilidade.
  • Já os comportamentos reflectem-se no modo como agirmos em relação ao outro. Ou seja, são as competências sociais ou interpessoais. Tais como: Comunicação; empatia; trabalho em equipa; pontualidade; organização; Simpatia; Assertividade; Observação e análise; Apresentação; pontualidade.
  • Por últimos, temos os conhecimentos que são competências profissionais ou técnicas. Ou seja, que muitas vezes só fazem sentido em determinado contexto profissional, como: Domínio de Ferramentas informáticas; gestão de projectos; condução de maquinaria & equipamentos; domínio de línguas estrangeiras. Mas entre estas incluem-se igualmente o saber trabalhar. Ou seja, o cunho pessoal que imprimimos no nosso contexto profissional, como: a liderança, a resolução de problemas, a gestão de recursos e prioridades, visão estratégica, orientação para resultados.

Estas não são todas as competências existentes e algumas são transversais a todas as áreas da nossa vida. Outras nem tanto. Nem sempre queremos ser no nosso lar aquilo que somos no nosso local de trabalho. Mas o mais importante é que estas competências não necessariamente inatas e não as determos hoje não significa que não as adquiramos no futuro. O seu desenvolvimento pode não ser fácil e por vezes até doloroso, mas é possível, se assim o quisermos. Temos é de querer, insistir e persistir. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Currículo & Portefólio

Todos temos um currículo onde descrevemos o nosso percurso profissional e elencamos competências e o seu contexto de aprendizagem. Mas o que é que isso mostra realmente o que somos e o que somos capazes de fazer (mais e melhor)?
Nesse sentido, sempre senti necessidade de criar um portefólio/repositório (digital) dos meus interesses, experiências, reflexões e propostas. A blogosfera tem servido esse propósito, sendo a principal janela exterior para o meu percurso profissional e não só. A minha presença na blogosfera teve inicio em 2003 e passou por diversos registos e páginas. Há 2 anos, alterei o meu percurso profissional e senti a necessidade de criar um novo blogue. Numa primeira fase, senti muito o lastro do anterior, mas gradualmente fui afinando o registo que pretendo para o meu percurso actual e futuro.
Tenho a consciência de que temos de ser os primeiros a valorizar o nosso trabalho. Isso implica não ter vergonha de o mostrar. É claro que há limites para o que divulgamos. Limites institucionais e de privacidade dos demais. Quando partilho algo, tenho não ultrapassar esses limites. Se por vezes falho, não é intencionalmente.
Quando expomos o nosso trabalho estamos também a aceitar a crítica. Quando esta se apresenta há que perceber se faz sentido e o que podemos aproveitar da mesma para melhorar.
Gostaria de largar a minha presença na internet a outras plataformas, mas ainda me debato entre a minha necessidade de estar offline e o tempo que teria de despender para as alimentar.
Ainda assim, a blogosfera tem sido um meio útil para a apresentação e divulgação do meu trabalho e interesses e de aprendizagem constante, que espero continuar. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Aprendizagem ao longo da vida

A Aprendizagem ao Logo da Vida (ALV) é um tema que me é caro por diversas razões, que explanarei de seguida. Mas, em última análise, não tem a ver com a noção de que necessitamos de evoluir para dar resposta à exigências externas. É mais do que isso. É o sentimento de que não somos os mesmos durante o decorrer das nossas vidas e nesse percurso temos de encontrar em nós e ao nosso redor as respostas para uma viagem mais tranquila.
É uma explicação um pouco utópica e vasta? Vamos então perceber as minhas razões por esta atitude fazer parte do meu quotidiano:
a)    O mercado de trabalho está em constante mudança e para nos mantermos numa posição efectiva temos de nos adaptar. Para tal, é necessário tomar a iniciativa e inovar dentro das nossas instituições. Velhos do Restelo. Sempre os haverá e talvez um dia nos calhe esse papel. Até lá, vamos zarpar, nem que seja a remos.
b)    Iniciei a minha experiência profissional com muita insegurança. A minha licenciatura foi essencialmente teórica e o meu objectivo sempre foi adquirir o máximo de competências práticas. Entretanto, passaram-se quase 20 anos.
c)    Num momento de instabilidade pessoal e profissional, ponderei sair da função pública. Então, dei por mim a avaliar que competências tinha para voltar ao sector privado e percebi que, para esse retorno ser bem sucedido, necessitava de mais. Muito mais. Hoje, estou mais tranquila.
d)    Ao meu redor, existem tantas pessoas a quem reconheço valor e que estão em situação de desemprego ou de trabalho precário. Sei perfeitamente que o mérito raramente é reconhecido e que o sector privado é uma selva, no qual atacamos ou somos atacados. Então, além de valorizar a minha estabilidade, sinto que não devo desprezar as oportunidades que me vão surgindo. Além de que, ainda que estável agora, nada me diz que essa estabilidade se mantenha no futuro. Conheço casos a quem isso aconteceu.
e)    Actualmente, estou na fase em que quero partilhar com os demais aquilo que, por vezes a duras penas, consegui. Estou a estabelecer e a desenvolver pequenos projectos que permitam não só partilhar algumas das minhas aprendizagens, mas, sobretudo, permitir acompanhar alguém, para que o seu processo não seja tão solitário ou doloroso quanto o meu, por vezes, foi.
Muito sucintamente, estas são as minhas razões da ALV ser uma atitude diária. Acredito que este é um dos factores que me levará a atingir os meus objectivos e a chegar onde ainda nem sequer prevejo.