terça-feira, 30 de junho de 2015

Talvez apenas me reste a diarística como forma de me deixar no mundo. Ainda assim, esta exige-me uma reflexão à qual procuro instintivamente fugir. Não sei ao certo se por incapacidade (ou o seu receio) ou por perceber que nada tenho a dizer (receio ainda maior?).

Que poderei dizer que passe o lastro de um trabalho de vã perfeição e a domesticidade em que me escondo de outros mundos? Que futilidades poderei expressar que passem o crivo do meu interesse?

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O Mundo a Seus Pés (1941)

Há muito que procurava ver este filme e perceber o porquê do seu lugar canónico na história do cinema. Há, pelo menos, duas razões para tal: a história retratada e a forma como esta nos é apresentada.
Kane, um reputado e excêntrico milionário, é-nos apresentado a partir do anúncio da sua morte. Mas quem foi o homem privado, para além do homem público? É esta a pergunta para a qual um jovem jornalista procura resposta e é a sua busca que acompanhamos. Através de diversos flashbacks, entre a indiferença jornalística e o testemunho emotivo de quem com ele privou, vamos ficando a conhecer o homem por trás da lenda. E só a nós, público, nos é dado a revelar, no final da narrativa, o que poderá ter sido a compreensão final do trajecto de vida deste homem, num subtil desvendar do significado da sua última palavra “rosebud.”

Para além de quaisquer críticas sociais subjacentes, é ma história subtil e interessante sobre as decisões e escolhas de um homem para cumprir um ideal e o que fica desse mesmo ideal qunado o mesmo não se cumpre.
Título original: Citizen Kane * Realização: Orson Welles * Argumento: Herman J. Mankiewicz, Orson Welles Elenco: Orson WellesJoseph CottenDorothy Comingore

domingo, 28 de junho de 2015

Que voz é esta que se materializa com o correr da esferográfica na folha de papel limpa ansiosa por mundos que nela se corporizarão. A minha voz. Límpida, madura, um sussurro no coração e uma reverberação no futuro. Um calor, um conforto, uma palavra de apreço, um sorriso sem imposições. A voz que anseio. Que se forma a cada nova tentativa. De me descobrir. Numa folha de papel. 


sábado, 27 de junho de 2015

Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, Jô Soares

Esta foi a minha primeira incursão na escrita de Jô Soares, cujo cunho humorístico se mantém, complementado por manifesta erudição, que nem sempre, por preconceito, atribuímos aos humoristas. O resultado é uma novela de fácil leitura e com diversas referências passiveis de explorar a quem assim o deseje. No entanto, ao faze-lo temos a impressão de JS simplesmente se apropriou de informação disponível na internet (p. e. o site da ABL ou a definição de jornalismo amarelo disponível na wikipedia), não a aprofundando, ou se quer trabalhando para lhe dar outra perspectiva e/ou profundidade.
A novela relata-nos a investigação levada a cabo pelo comissário Machado Machado (MM) em busca do perpetrador dos crimes que o título indica. Explorando a teoria das coincidências, o assassino começa a sua demanda exactamente pelo autor de um livro homónimo, em cujo enredo todos os 40 membros da ABL eram assassinados. MM percebe a intenção final do assassino e com a ajuda do médico legista Pena-Monteiro tenta impedi-lo, acabando por conseguir.

Editora: Editorial Presença | Edição: 1ª | Local: Barcarena | Impressão: Multitipo | Ano: 2006 | Págs.: 190 | Capa: Catarina S. Gaeiras | Ilustrações: Sim | DL: 24410/06 | Localização: BLX-PF 82P(81)-312.4 (80306803)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Exéquias

Na minha morte
Não quero bandeiras a meia haste

O luto durará o necessário
A quem o sinta

As palavras e os silêncios
De mãos dadas
Guiar-nos-ão ao renascer
Que sempre sobrevém à ausência

A memória
Ilusória
Consumir-se-á no trânsito dos dias

O meu pó
Ao pó voltará
Remoinhado
No riso dos deuses



quinta-feira, 25 de junho de 2015

Ser ou não ser (bibliotecário)

O meu percurso profissional levou-me a trabalhar em bibliotecas. Exatamente: trabalhar em. Não sou bibliotecária. Não tenho formação académica na área. Assim, não me considero, e intitular-me como tal poderia também ser considerado ofensivo por quem tem esta formação especifica.
Estarei então qualificada para tal? Sim.
A minha formação académica em Língua e Literaturas modernas, variante de Português-Inglês, deu-me os conhecimentos teóricos sobre como a literatura reflecte e questiona o pensamento humano e a sua evolução. A experiência de mais de uma década na área da juventude, com a sua transversalidade e o modo como a educação não formal e a aprendizagem ao longo da vida ocupam um lugar na nossa formação, deram-me perspectivas e ferramentas que me permitem adaptar a diversas áreas de actuação. Uma pós graduação em práticas culturais para municípios, complementada igualmente pelo acompanhamento na gestão dos espaços municipais de juventude de Sintra, deram-me uma visão dos equipamentos culturais (e não só) como um todo e como as suas características físicas, missão e valores, inserção social e comunitária e recursos humanos contribuem para a sua dinamização. Já a minha experiência como dirigente associativa preparou-me para perceber a malha de influências que têm impacto na gestão de recursos, sejam eles materiais, mas, mais relevante, humanos. E, acima de tudo isto, sou leitora e, como público, tenho sempre a noção de como um espaço pode e deve suprir as minhas necessidades.
Relativamente à área de biblioteconomia, os conhecimentos específicos também se aprendem. Conceitos como fluxo de informação, CDU, LCA, catalogação, indexação, depósito legal, aquisição, desbaste, abate, gestão da colecção, disposição e apresentação, áreas funcionais, usos internos, leituras de presença, empréstimo, referência, depósito, entre tantas outras, podendo ainda não ser íntimos, são-me já familiares. Gradualmente, quer através da prática, quer através de leituras, tenho vindo a assimilar muita informação e, hoje, não sinto que faça um trabalho inferior a quem tem formação académica nesta área. E se me falta burilar alguma sensibilidade, dêem-me tempo. Lá chegarei.
A questão que me coloquei, uma vez que tenho como objectivo pessoal obter um novo grau académico, é se esta área de formação será o caminho a seguir? No entanto, desde já ferindo algumas susceptibilidades, a minha resposta é não. A profissão de bibliotecário e as próprias bibliotecas estão a mudar. Sobretudo devido às novas tecnologias e novos desafiam que se colocam na gestão e dinamização destes espaços e que passam por novas transversalidades. E essa será a minha aposta. Embora ainda não o possa precisar como o concretizarei, pretendo aprofundar conhecimentos sobretudo na gestão de equipamentos e projectos. Penso que isso me entreabrirá mais portas no futuro cada vez mais transversal.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O desafio da escrita diária

O desafio da escrita diária parece uma óptima premissa para escoar todas as dúvidas, angustias, ansiedades e até algumas parcas certezas sobre o que nos rodeia, quer nos chegue pela experiência directa, pela notícia do jornal ou pela palavra demorada de um livro. O problema é que há dias em que tudo parece desenrolar-se a um ritmo incomportável para as insuficientes 24 horas, quanto mais para se parar, sentar e reflectir sobre as mesmas.
Nesses dias, a escrita não é um escoamento. É antes um ralo que se entope de acontecimentos, pensamentos soltos e saltitantes cuja velocidade não permite qualquer filtro, nem sequenciamento, nem consequente aproveitamento para lá da espuma dos dias. E a escrita de umas meras linhas transforma-se num trabalho hercúleo, um excesso impossível de abarcar, de peneirar e de perceber oq eu vale a pena.
Para contrapor, necessitamos de dias andinos, anónimos, amorfos. Em que pegamos um fio e talvez este nos oriente no emaranhado que dará origem à meada. Em que o tempo fica no exterior da sala, do quarto ou de uma simples mesa onde pousar um caderno e uma caneta, há falta de ferramentas mais tecnológicas.
Os dias da não vida são os dias em que a escrita encontra o seu caminho: os pensamentos cedem prioridades e estabelecem uma ordem interior. A mão apoiada numa folha de papel sabe instintivamente o que desenhar. o texto começa a tomar forma e sentido, segundo um ritmo próprio que o levará até ao final da página, onde decidirá se coloca um ponto final ou se fará uma pausa e retomará, com um novo fôlego, a página seguinte. 



terça-feira, 23 de junho de 2015

O que julgamos não dizer sobre nós

Tudo o que calamos diz mais sobre nós do que as palavras que proferimos. O ouvido atento percebe as omissões e as mágoas que nelas tentamos diluir.
Sei-o porque procuro em cada palavra reconhecer o que não é dito. Sei-o porque construo cada frase, construindo uma personagem, feita à medida do que quero revelar.
Poderia dizer que a construo à minha medida, mas, na verdade, já não sei bem a medida pela qual me rejo. Dou-me perdida entre o que não sou, mas procuro projectar, e o que sou, mas não tenho coragem de mostrar.
Apresento-me uma sombra difusa de quem quer que seja.
 
Giuliano Bekor
 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Viagem dos 100 Passos (2014)


A família Kadam, após o incêndio criminoso que destrói o seu restaurante e vitimiza a sua matriarca, procura uma nova vida na Europa. Primeiro em Inglaterra e depois em França, onde um acidente de viação sem sequelas os acaba por levar a uma pequena vila. Lá, encontram o espaço ideal para criar um novo restaurante tipicamente indiano que emprega toda a família. O único senão é que se situa exatamente em frente do conceituado Le Saule Pleurer, distinguido com uma estrela Michelin, o que dará origem a um conflito entre as duas casas. E é aí que tem início a viagem dos 100 passos, exatamente a distância que separa os dois estabelecimentos, mas que parece muito maior entre os antagonistas. Essa distância vai diminuir graças à ambição e ao talento do jovem Hassan, dotado cozinheiro, que vê na “concorrência” a oportunidade de aprender e desenvolver novas técnicas culinárias e, quem sabe, conquistar a “sua” estrela Michelin e leva-lo a voos ainda mais altos.
É um filme agradável que mistura as místicas e ambiências de filmes como Chocolate, Ratatui e a Vida de Pi. É o caso do ambiente da pequena vila francesa, igualmente retratada por Lasse Hallström em Chocolate, a afectividade e a memória que a comida desperta em Ratatui, e a viagem inesperada, embora não tão traumática, e a procura de uma vida melhor de A Vida de Pi.

Título original: The Hundred-Foot Journey * Realização: Lasse Hallström * Argumento: Steven Knight, baseado na obra homónima de  Richard C. Morais * Elenco: Helen MirrenOm PuriManish Dayal

domingo, 21 de junho de 2015

Na impossibilidade de mudar de pele, resta-nos mudar de roupa, de modo a que esta reflicta o novo eu que somos neste momento. Necessito por de lado as vestes desse outro eu, a quem já não regressarei, mesmo que ainda não tenha encontrado o tom e o estilo certos para este novo eu.

Cecilia Paredes

sábado, 20 de junho de 2015

Desejo impossível?

Vivemos dia a dia, hora a hora, etc, etc. E quando tudo acontece simultaneamente, temos de gerir situações como malabaristas: pegamos num malabar enquanto atiramos ao ar mais 2 ou 3; e esperamos ter a técnica suficiente, ou a sorte, de estes não caírem no chão. Mas a perícia nem sempre é uma competência adquirida e a sorte raras vezes está do nosso lado. Então, se me fosse possível concretizar um desejo, é que tivéssemos o tempo necessário para resolver uma coisa de cada vez. Com calma e serenidade para a decisão mais acertada, a concretização mais correta. Será este um desejo impossível?

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Biblioteca da Penha de França


O meu novo desafio profissional levou-me à rede de bibliotecas municipais de Lisboa, mas especificamente à Biblioteca da Penha de França. Após uma mudança de localização, este é um espaço recém inaugurado – a 21 de maio, será coincidência ou sincronicidade – com tudo o que isso tem de bom: edifício recente, paredes brancas, mobiliário novo, equipa em construção, vontade de disponibilizar novas ofertas ao público, cuja dinâmica se encontra em reajuste ao novo espaço.

Para além da adaptação a uma nova estrutura, a novos modos de trabalho, a uma lógica diferente de encarar as bibliotecas, esta localização coloca-me perante uma realidade que nunca me tinha passado pela cabeça: o bairrismo lisboeta. Assim sendo, uma das minhas prioridades é conhecer o bairro/freguesia, nomeadamente as suas instituições e perceber as potencialidades de colaboração ainda a explorar, embora perceba que já existe uma dinâmica invejável. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A Prateleira Mais Alta

Inicia-se hoje um novo capítulo na minha vida e com ele um novo registo. Como por vezes os capítulos não dão lugar imediato aos demais, mas antes vão cedendo gradualmente o seu protagonismo, este novo registo coexistirá com a Poeira Residual, que se manterá até final de Outubro, período em que outros sub-capítulos cessam.
Este novo capítulo é profissional, mas com ele materializa-se (ou pelo menos assim o desejo) um intenso processo de crescimento pessoal, que resultará também no que espero vir a ser um novo projecto de vida e cujas linhas mestras delinearei nos próximos meses.
Fui buscar o título deste novo blogue ao poema Como Organizar Sua Biblioteca de Zack Magiezi. Nele encontrei a síntese do momento que agora vivo e do que se prevê ser o meu futuro profissional próximo: por um lado trabalhar na área de bibliotecas, por outro o sentir que estou em condições de arrumar algumas questões pessoais.
Com esta breve explicação, convido-vos tão-somente a visitarem este meu novo espaço de reflexão e espero que encontrem nele algo que também faça sentido nas vossas estantes e prateleiras.

Bem-vindos.