sábado, 30 de janeiro de 2016

A Vida no Céu, José Eduardo Agualusa

Neste retorno à obra de Agualusa, reencontro algumas das caracteristicas que me apelam na sua escrita: a prosa poética, suave e subtil, o realismo mágico no qual se integram crenças variadas, a ponte geográfica e física da língua portuguesa, o dicionário onírico. No entanto, em termos de construção e desenvolvimento da história ficou-me um sabor de aquém.
Estamos perante uma distopia, segundo a qual o mundo sofre um dilúvio ecológico e uma reduzida parte da população é selecionada para habitar no céu, recorrendo aos mais variados tipos de balões. Consoante a origem geográfica e poder financeiro, as novas geografias correspondem não a fronteiras nacionais mas a metrópoles reunidas em enormes zepelins ou em conjuntos agrupados de balsas voadoras. É num destes conjuntos, Luanda, que vive Carlos, um jovem de 16 anos, que parte à procura do seu pai, caído no céu e dado como morto. Na sua demanda encontra uma galeria de personagens que o levam em busca da mítica Ilha Verde, um pedaço de terra situada algures na antiga Amazónia, que terá sobrevivido ao Dilúvio.
Gostei bastante do exercício de construção de uma sociedade “pós-apocalíptica”, só que o mesmo não ata todos os nós que apresenta ou a sua “atadura” não é coerente. Ou seja, existem algumas falhas de coerência interna. Mas o que me deixou com a sensação de aquém é mesmo o desenvolvimento das personagens, que nos são apresentadas de modo muito superficial e sobre as quais não reconheço anteriores experiências de “descascamento” a que o autor já me habituou. Pergunto-me se esta ligeireza se deve à intenção de que este este seja um Romance para jovens e outros sonhadores? É a única explicação que me ocorre.
Como elemento de valorização do livro, é incontornável o dicionário dos nefelibata, no qual reconhecemos a poesia onírica a que Agualusa já nos habituou.

Editora: Quetzal | Colecção: Língua comum | Edição: 1ª| Local: Lisboa | Impressão: Bloco Gráfico, Lda.| Ano: 2013, Junho | Págs.: 186 | Capa: Rui Rodrigues | ISBN: 978-989-722-110-1 | DL: 358 024/13 | Localização: BLX Olivais ROM ROM-EST AGU (80322754)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Há um excesso de mim que não consigo canalizar. Tenho por hábito ordená-lo pela escrita, mas, de momento, parece-me impossível. Não há velocidade suficiente para acompanhar estes pensamentos que se atropelam ou se encadeiam desmesurados.
Escreve-los seria dar-lhes a (justa) medida das palavras, esses entes sempre aquém do tempo, da acção, do sentimento. Seria uma injusta medida. 


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Os que Vieram de África, Rita Garcia

Na sequência da leitura de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, senti necessidade de perceber uma época e um processo. Foi assim que cheguei a este Os que vieram de África. Um dos meus objectivos era perceber a cronologia de acontecimentos que levam à saída de mais de meio milhão de pessoas das ex-colónias e a sua consequente “integração” em Portugal continental. Este livro permitiu perceber igualmente o estado de espírito que se sentia no pais e o porquê de este não ser receptivo a este enorme influxo de pessoas. Sobretudo, e numa época em que assistimos diariamente ao drama dos refugiados nos media, permite uma percepção do seu estado de espírito e de como a luta pela sobrevivência impele o ser humano ou obriga-o ao desenraizamento, à necessidade de aceitação e de compreensão, ao apoio e de como, regra geral, no seio do nosso bem estar aparente, vemos primeiro a ameaça e não a necessidade. Há, com certeza, outras obras que permitem ainda uma maior compreensão e debate sobre a época e o tema. Mas este satisfez algumas das minhas necessidades de informação e conhecimento.

Editora: Oficina do Livro | Local: Alfragide | Edição: 1º| Ano: 2012, Novembro | Impressão: Eiga| Págs.: 270 | Capa: Joana Tordo | Ilustrações: Fotos | ISBN: 978-989-556-010-3 | DL: 348042/12 | Localização: BLX BMRR 314,745(469) GAR (80307104)

domingo, 17 de janeiro de 2016

Sinfonia em Branco, Adriana Lisboa

“A via é uma ampla costura de momentos exactos…” (p. 51)
Um trauma de infância condiciona toda a vida futura de duas irmãs, uma vítima, outra testemunha. Entre as duas silêncios conformados pela educação e expectativas sociais, vidas por realizar, sentimentos por definir e viver. Até ao momento de “deixar toda a pela morta para trás, se possível.” (p.65) E dar-se uma oportunidade para tal, porque “Nós somos os responsáveis pelo papel que as pessoas assumem em nossa vida. E as pessoas mudam, embora o significado que um dia tiveram não mude.” (p.219)

Editora: Círculo de Leitores | Local: Mem Martins | Edição/Ano: 2004 | Impressão: Printer | Págs.: 230 | ISBN: 978-972-4231280 | Localização: BLX PF 82P(81)-31/LIS (80027439)