quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

#109.16 @ 103/1003: Done!



As minhas lembranças observam-me, Tomas Transtormer

Dando seguimento ao meu objectivo de ler pelo menos um livro de um premiado com o Nobel da literatura, peguei desta feita neste pequeno volume de Tomas Transtormer, laureado em 2011, pela sua poesia. Por ventura, este poderá não ser demonstrativo das suas competências literárias, ainda assim, era-me disponível e acessível, e demonstrou ser de leitura rápida.
O presente volume foi escrito aos 60 anos do autor e procurava, não olhar para o que foi a partir do olhar de hoje, mas sim regressar à sua visão de então, tanto quanto a sua memória o permita. (“Histórias recicladas, recordações de recordações.” p. 11) O autor relata as suas circunstâncias familiares (a separação dos país, a profissão da mãe, a família alargada) e também os seus primeiros gostos, paixões e ódios, destacando-se o impacto da II Guerra Mundial, a sua ideologia, a austeridade do sistema educativo vigente, o desejo de anonimato/invisibilidade. (“A arte de ser pisado conservando a dignidade." p. 35)
o volume finaliza com alguns dos seus poemas de juventude, recolhidos de algumas publicações escolares da época e que permitem comparar as lembranças e a produção literária contemporânea do autor.
"Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim todos os meus rostos anteriores, como uma árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores." p. 55
Tradução: Ana Diniz + Alexandre Pastor (poemas) | Editora: Sextante | Local: Porto | Edição/Ano: 1ª, Setembro 2012| Impressão: Bloco Gráfico, lda. | Imagens: sim | Págs.: 101 | Capa: Ateleier Henrique Cayatte | ISBN: 978-972-0-07176-7 | DL: 348141/12 | Localização: BLX PF 82-34/TRA (808316676)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

#93.16 @ 103/1003: 40

Tenho estabelecido, nos últimos anos, ler 40 livros por ano, porque considero que é um nº exequível e ajustado ao meu ritmo de leitura. Que não é exactamente célere. E tem-se revelado o nº certo.

Na prática, leio muitos mais livros, mas opto por não incluir neste computo os livros infantis, que leio, quase exclusivamente por necessidade profissional, e sobre os quais me exijo outro tipo de reflexão mais funcional. Ou seja, leio-os sempre sobre a premissa da sua adequação, ou não, a uma actividade no âmbito da promoção do livro e da leitura. E isso reservo para outras reflexões.

Então, como chego às minhas opções de leitura? Uma das minhas intenções ao estabelecer objectivos de leitura (que à partida eram 16) é colmatar algumas lacunas no conhecimento de autores e géneros. Por exemplo, os clássicos (#97). No entanto, e como considero outras leituras prioritárias, acabei por desistir deste objectivo. Outros objectivos, optei por colocar em stand-by e, se tudo correr bem, dedicar-me-ei a eles no próximo ano. É o caso da leituras das obras vencedores de alguns prémios literários nacionais, como o Prémio Saramago e o Prémio Leya. Entre os atingidos, um dos que me orgulho é ter lido 10 livros de autoras nacionais, que, muito erroneamente, nem sempre constam nos hábitos de leitura de demais leitores.

Estou satisfeita com o percurso de leituras que fiz este ano e que, por diversos motivos, ainda não consegui deixar aqui um registo das minhas impressões sobre as mesmas. No próximo ano, e se tudo correr de acordo com as minhas expectativas, este percurso terá algumas alterações e será composto, no último semestre, por leituras mais técnicas, o que talvez implique o não cumprimento de todas as minhas intenções de leitura. A ver vamos. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Outro Pé da Sereia, Mia Couto

A viagem termina quando encerramos as nossas fileiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar.” (p. 449)
Voltar a um livro, quase dez anos depois, não é voltar a um mesmo livro. É descobrir um novo. E não sei se me deva amedrontar com o facto de não recordar nada da história a não ser o facto de que a sereia emquestão era apenas figurada ou, melhor, figurante.
Esta é uma tipica história de Mia Couto em que predomina uma prosa poética que oscila entre o realismo e a magia do que não se sabe explicar. Desta feita, acompanhamos uma jovem mulher que retorna à sua aldeia para buscar um lugar sagrado para guardar uma imagem em madeira de uma santa, cujo pé lhe falta. Nessa viagem ao seu passado e às ruínas em que hoje consiste o lugarejo de Vila Longe cruzam-se outros passados, nomeadamente a história que levou a santa, cerca de 400 anos antes, até ali.
A meu ver, esta é uma história de fantasmas, que se reencontram uma vez mais para, quem sabe, finalmente poderem acertar as suas contas e deixar de vagar pelos espaços que anteriormente ocuparam, presos a um passado já inexistente. E, simultaneamente, destacam-se dois aspectos de reflexão: um sobre a condição do negro e outro sobre a condição da mulher.
O primeiro está muito presente nas personagens dos americanos, que buscam uma história do impacto da escravatura que se encaixe na sua imagem preconcebida da mesma, e na de Zeca Matambira, que ao relatar o seu mais famigerado combate de boxe nos explica que: “a sua cabeça tinha sido ensinada a não se defender de um branco. (…) tinha sido derrotado no palco da vida antes de subir para o ringue de boxe”. (p. 299)
Já a condição da mulher é nos apresentada através do relato de diversos níveis de violência, quer física e sexual, quer psicológica, como forma de “domar” o espírito que os homens não compreendem, mas pelo qual se sentem ameaçados.

Editora: Caminho | Local: Alfragide | Edição/Ano: 2ª (1000 ex.), Setembro 2013 | Impressão: Eigal | Págs.: ... | Capa: Rui Garrido | ISBN: 978-972-21-2638-0 | DL: 363963/13 | Localização: BLX Cor ROM ROM-EST COU (80343214)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O pintor debaixo do lava-loiças, Afonso Cruz

"No fundo anda tudo aos círculos, desde as recordações às histórias." (p.24)

Esta foi a minha primeira leitura deste produtivo autor nacional, cuja obra se tem pautado pela versatilidade e transversalidade de géneros. Esta narrativa parece elaborada a partir de um quadro de Magritte, uma vez que as suas personagens parecem incoerentes com o pano de fundo temporal e social em que nos são apresentadas. (Além de não ser difícil imagina-las todas com um airoso chapéu de coco.) O que resulta numa narrativa que definiria de surrealismo mágico.
A partir de algumas pesquisas, parece-me o trabalho multifacetado de A.C. tem alguns pontos de contacto com a obra de Saramago, que as suas histórias tinham como ponto de partida um acontecimento impossível. Ora, as histórias de AC também parecem pautadas, não tanto por acontecimentos, mas sobretudo por personagens impossíveis.
O protagonista, Sors, é filho de uma engomadeira e de um mordomo que abomina armas, é incapaz de compreender uma metáfora ou de dizer algo que não seja o que pensa, o que, em última instância, o leva à morte. Sors é um personagem melancólico, incoerente com o mundo que o rodeia, e uma paixão por Frantiska. Ao acompanharmos o seu percurso ora atribulado, ora desligado, vamos acedendo a reflexões sobre a violência e a guerra, os portugueses, os afectos e como o cuidado por vezes chega de quem menos se espera. O final da narrativa é esperançosa, como deverá ser qualquer manifestação na capacidade de transformação humana. No entanto, tal como a narrativa, parece incoerente com o percurso do protagonista, sobretudo porque a pedra de toque da transformação é tão suave como um grão de areia.

Editora: Caminho | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, abril 2011 | Impressão: Multitipo | Págs.: 175 | Ilustrações: Autor | ISBN: 978-972-21-2418-8 | DL: 327110/11 | Localização: BLX PF 82P-31/CRU (80313787)

domingo, 4 de dezembro de 2016

Traduzir-se, Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

sábado, 3 de dezembro de 2016

A história de meu filho, NAdine Gordimer

“Na nossa história, como em todas as histórias, inventei aquilo que não presenciei eu próprio.” (p. 217)
Esta foi mais uma primeira incursão na escrita de um autor e insere-se num dos meus objectivos literários de ler, pelo menos uma obra, de um escritor premiado com o Nobel da Literatura.
A autora, uma ativista contra o regime do apartheid na África do sul, deixa-nos aqui uma análise e uma reflexão do ponto de vista das suas vítimas e sofredores. A história é relatada por Will, filho de um conceituado ativista, que aos 15 anos descobre o caso amoroso do pai com outra activista, por sinal branca e loura. Esse episódio vai desencadear o relato, quase sempre cronológico, da família, em especial da vida do pai. É nos relatado o seu contexto social, os valores em que foi educado e, posteriormente, os valores segundo os quais vivia e transmitiu ao filhos e como estes evoluíram para o activismo político. É analisado o modo como isso era gerido em família, em particular pela mãe, e como acabou por influenciar a adesão da irmão e da mãe, embora de formas diferentes, o que o leva a sentir se quase que excluido. Pois acaba por ser o único que não combate o regime. Mas, em última análise, ao tornar se, na idade adulta, escritor, não estará Will a encetar a mais privada e individual forma de ativismo politico?
O livro (e o título) é interessante pela abordagem que faz ao momento da descoberta de que os nossos país não são os nossos heróis (de infância?) e do processo de como se chega à aceitação de tal facto, o que revela, afinal, o atingir da idade adulta: o momento em que aceitamos os nossos pais como outro adulto, por vezes tão inseguro quanto às suas decisões e caminho, como nós. Com a constatação permanente de que, para o bem e para o mal, somos o que somos em consequência dos nossos pais.

Título Original: My Son’s Story | Tradução: Ana Patrão | Editora: Editorial Presença | Local: Lisboa | Colecção: Novos Continentes | Edição/Ano: 2ª, 1992 | Impressão: Guide – A.G., SA | Págs.: 218 | Capa: Teresa Cruz Pinho | ISBN: 978-972-23-1467-1 | DL: 44526/91 | Localização: BLX DR5061836 (0911317)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Trilogia Signo dos Sete, Nora Roberts

Há um grupo de leitoras que lê Nora Roberts, não direi de empreitada, mas que possuí a sua lista de titulo que segue, quase religiosamente. E isso intriga-me. O que terá esta autora, sobretudo romântica, que tanto apela a estas leitoras? Fui descobrir e não fiz a coisa por menos, ligo logo uma trilogia!

Esta situa-se na cidade de Hawkins Hollow, Maryland, onde, em 1987, três amigos, ainda crianças, libertam sem querer um demónio que, de 7 em 7 anos, provoca tragédias na pequena cidade. Passados 3 ciclos de 7 anos, surgem na cidade 3 mulheres, que, sem qualquer surpresa, começam a fazer par romântico com cada um dos amigos, e que se vem a saber são todos descendentes quer do demónio (elas) que do seu aprisionador no longínquo ano de 1652. Peripécia para aqui, susto para ali, referencias populares mas também do género fantástico, a trilogia acaba por ser composta em mais de metade por uma história fantástica do que por uma história romântica. O que me surpreendeu.

Sabia que Roberts se dedicava ao policial, sob o pseudónimo de JD Robb, mas não sabia que se dedicava ao fantástico. E no fundo esta trilogia é uma trama detectivesca com um pano de fundo sobrenatural, bem estruturada, que, embora saibamos o final, nos prende no sentido de saber como se chegará lá. Ou seja, embora não seja a minha praia, compreendo o apelo das suas narrativas. Não sei se voltarei um livro da autora tão cedo, mas sei que um dia destes ainda lerei uma trama escrita sob o pseudónimo de JD Robb.

Títulos: Irmãos de Sangue; Ritual de Amor; Pedra Pagã | Tradução: Fernanda Semedo | Editora: Chá das 5 | Local: S. Pedro | Edição/Ano: 1ª Nov, 2012; Fev, 2013; Ago, 2013 | Impressão: Cafilesa, Lda. | Págs.: 270; 285; 285 | ISBN: 978-989-710-404-6; 978-989-710-045-1; 978-989-710-061-1 | DL: 349441/12; 353118/12; 361450-13 | Localização: BLX NC 82-31/ROB (80316248; 80240627; 80243091)