segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Mundo, Juan José millás

p. 154 “És escritor porque a puseste tu [a virgula], porque geraste recursos para contar a realidade modificando-a ao mesmo tempo que a contavas.”
Esta foi a minha primeira incursão na escrita deste autor espanhol e que me suscitou a curiosidade de voltar a ele mais tarde. E o que me suscita essa curiosidade? A aceitação de que a a escrita é um processo terapêutico e que, personagens à parte, e que tem assumidamente um cunho autobiográfico.
Esta narrativa apresenta dois grandes momentos: a infância e a juventude. Tem inicio na infância e apresenta-nos os episódios, ambiência e contexto familiar que moldaram o autor, para o resto do seu percurso de vida, até ao momento. E os episódios mais marcantes são a sensação física de frio e a utilização da imaginação como forma de escape para o quotidiano. Já na juventude, os momentos definidores são o primeiro amor, não correspondido, claro!, e o impacto da escrita na formação do eu e vice-versa o modo como a personalidade do autor em formação impacta a produção escrita.
Estes são temas que me interessam, porque, e muitos escritores o admitem, embora não o sejam necessariamente uma regre, a maior parte da escrita é na verdade um processo de digestão e processamento do que nos acontece, uma forma de compreender os nossos fantasmas e de combater os nossos dragões. Ainda que, para tal, necessitemos de por as palavras na boca de outrem. De personagens que não nos pareçam nós, mas que inevitavelmente nos reflectem. Daí, a minha a intenção de voltar a este autor mais tarde.
Não quero deixar de registar aqui outra nota, que é o quanto este O Mundo se assemelha ao universo narrativo de Os da minha rua, de Ondjaki, e o quanto simultaneamente essa rua é física e sensorialmente diferente. Ou seja, se em Millas temos um registo de frio, em Ondjaki há registo de calor. E essas duas características têm um impacto nas suas escritas.

Título Original: El Mundo | Tradução: Luísa Diogo & Carlos Tavares | Editora: Planeta | Local: Lisboa | Edição/Ano: 2ª, abril 2014 | Impressão: Guide AG, Lda. | Págs.: 231 | ISBN: 978-989-657-477-2 | DL: 374356/14 | Localização: BLX SL82-21 MIL (80352074)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Como preparar a dinamização de uma sessão de uma Comunidade de Leitores (o meu processo)

Cada dinamizador de comunidades de leitores poderá ter o seu processo, para o qual conta muito, entre outras: o conhecimento do seu público, a sua capacidade de falar em público sem um guião pré-definido e estanque, a sua bagagens de leituras e a sua capacidade de associar temas e ideias.
Mas cada sessão, como o(s) seu(s)  livro(s)  de destaque, é diferente e nunca é demais fazer uma preparação prévia (passe o eventual pleonasmo). Este é o meu plano de preparação:
- Ler o livro. Dá imenso jeito, acreditem! E, de preferência, (re)lê-lo próximo da data de sessão, pois, no meio dos afazeres quotidianos, outras responsabilidades e outras leituras é muito fácil esquecer diversos (muitos) pormenores sobre as obras. De há alguns anos para cá, como nunca sei se me vou deparar novamente com um livro, e para poupar algum tempo de (re)leitura, passei a fazer pequenas fichas de leitura, nas quais consigo recuperar alguma informação sobre o que me chamou a atenção na obra. Tem sido útil.
- Pesquisar alguns dados biográficos sobre o autor. Não é imperativo saber toda a vida do autor. Idealmente, a leitura da obra deve bastar-se. No entanto, como dinamizadores, não podemos negligenciar o impacto e influência das (des)venturas pessoais dos autores na génese e desenvolvimento do seu trabalho. Regra geral, há sempre algum episódio interessante para reflectir ou, no mínimo, perceber qual a postura pública do autor sobre a sua própria obra.
- Pesquisar algumas opiniões sobre o autor e/ou a obra em questão. Por muito ampla que seja a nossa bagagem de leituras, ficamos muito facilmente presos na nossa visão (e preconceitos) sobre o autor e a obra. Assim, ao perceber outras opiniões podemos também prever algumas das participações e antecipar algumas situações e temas.
- Curiosidades. Sempre que possível, gosto de partilhar pequenas curiosidades com que me deparo ao realizar as pesquisas anteriores. Como, por exemplo, partilhar outras sugestões de leituras, que a presente me trouxe à memória. Ou então sugestões de leitura dos próprios autores. A verdade é que estas curiosidades variam muito. Já cheguei a partilhar pequenas impressões de quadros mencionados nas obras.

De um modo simples, este é o meu processo de preparação de uma sessão de uma Comunidade de Leitores. Não é, com certeza, infalível e deixa espaço para muito mais. Mas também não tenho como  objectivo esmiuçar a obra e o autor de modo a dizer tudo o que há dizer sobre o mesmo. O meu objectivo é contribuir para uma reflexão e dar “o pontapé de partida” para uma partilha de opiniões. E este meu plano é um contributo decisivo nesse sentido. 

Preparação da sessão sobre O Sol nasce sempre (Fiesta), de Ernest Hemingway.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

#104.16 @ 103/1003


Um dos meus objectivos de leitura é o de ler três vencedores com o Prémio Nobel por ano. Em 2016, a escolha recaiu, por vezes aleatoriamente, em:
- Orhan Pamuk, com O Romancista Ingénuo e Sentimental e de quem já conhecia A Cidadela Branca;
- J.M. Coetzee, com Elizabeth Costello, e que foi uma estreia na obra deste autor;
- Ernest Hemingway, com O Sol NAsce Sempre (Fiesta), de quem, finalmente, acabei uma leitura.
E, em prinicpio, até ao final do ano, ainda me dedicarei à leitura de A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer, que será, igualmente, uma estreia na obra.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O sol nasce sempre (fiesta), Ernest Hemingway

Já manifestei anteriormente o meu preconceito sobre a obra de Hemingway, que me levou sempre a passar-lhe ao lado. Este preconceito assenta sobre alguns dos seus temas (tourada, corridas de touros, caça e pesca, boxe, guerra) e o seu universo, aparentemente, única e exclusivamente masculino. No entanto, sempre me intrigou o interesse suscitado pela sua obra e o facto de a sua escrita ser uma sugestão incontornável a quem se quer, exactamente, dedicar à escrita. Foi neste estado de espírito que me dediquei à leitura deste seu primeiro romance.
Em termos de estrutura, a obra está dividida em três livros, a que chamei: Paris, Pamplona e Regresso. Quanto ao enredo... bem, tenho dificuldade em dizer que o mesmo tem um enredo, quando a sua acção parece resumir-se à descrição do quotidiano de um grupo de amigos durante determinado período de tempo, que antecede a ida para as festas da cidade espanhola, as peripécias da chegada, a estada e, depois, o consecutivo desmembrar do grupo.
E quem é este grupo? Jacob/Jake Barnes, jornalista e narrador, veterano da primeira grande guerra e ferido em combate; Lady Brett Ashley, actualmente noiva de Mike campbell em processo de divórcio de Lord Ashley, que nunca surge na trama, cujo casamento parece ter sido traumático, pautado por violência doméstica; Mike Campbell, em ressaca de um processo de falência, procura aproveitar a vida o melhor possível, sem nunca esconder a sua condição económica, vivendo de pequenos expedientes e da bondade de amigos e conhecidos; Robert Cohn, escritor a debater-se com a falta de progresso do seu segundo livro; e Bill, também escritor. Quem liga estas personagens é exatamente Brett, que, estando noiva de Mike, tem um caso esporádico com Cohn, e uma amizade com Jake, que nunca passa a um plano físico devido a um ferimento do mesmo na guerra que o terá tornado impotente. Em Espanha, envolver-se-á com um toureiro, o que desestabilizará o equilibro precário deste pequeno grupo, que se separa, restando apenas a amizade entre Brett e Jake.
O que gostei, o que não gostei e o que consegui perceber sobre o fascínio que Hemingway provoca:
+) a não crítica do comportamento sexual livre e aberto de Brett. Este é do conhecimento de todos e ninguém a renega por isso. Só Cohn, que não respeita essa liberdade, e a quer só para si, é que, com os seus ciúmes, consegue provocar o desequilíbrio;
-) a descrição da denominada “geração perdida”, expressão cunhada por Gertrud Stein que assim descrevia a geração de artistas que entre a primeira guerra e a depressão pululavam na Europa, sobretudo em Paris;
+) creio que compreendo o fascínio pela sua escrita límpida, em que as acções procuram ser mais fortes pelas palavras e em que o exotismo de certas situações seriem autênticos deleites para as gerações da época.
Finda a sua leitura, que não me cativou (estava constantemente a lembrar-me de O Fio da Navalha e do quão uma época pode ser descrita de modos tão diferentes) mas que, no entanto, me deu esbateu o preconceito sobre os níveis de testosterona da sua escrita e me deixou curiosa para uma incursão futura, ainda por definir.
Título Original: The sun Also Rises | Tradução: Jorge de Sena (+ Prefácio) | Editora: Livros do Brasil | Local: Carnaxide | Colecção: Clássicos da Literatua | Edição/Ano: 2007, setembro | Págs.: 264 | Capa: Daniel Barradas | ISBN: 978-972-2851-1 | DL: 261647/07 | Localização: BLX

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A necessitar de uma nova banda sonora

Há momentos da minha vida que têm uma banda sonora especifica: a canção de uma novela ou de uma série televisiva, um álbum ouvido vezes sem conta ou até à exaustão, a batida e os versos de uma noite de dança… mas essas músicas, e esses momentos, ainda que meus, parecem também pertencer a uma outra vida… a um passado distante, ao qual devemos o nosso presente, mas no qual não o revemos. O presente necessita de uma outra canção, que se coadune com a melodia que meu coração entoa…

Há muito que não uma nova música na minha vida. Não por falta de motivos, talvez apenas o meu coração, embora o anseie, ainda tema em entregar-se a um novo tom. 


sábado, 8 de outubro de 2016

Longe de Manaus, Francisco José Viegas

"Só quem sabe brincar com Deus pode ter uma grande fé." (p. 324)
Esta foi a minha 4ª incursão no universo do detective Jaime Ramos, após as leituras de Um Crime na Exposição, A Poeira que Cai e Um Crime Capital. Este é um caso atípico na galeria de personagens nacionais, pois já protagonizou 8 aventuras e tem honras de marketing com direito a página própria na internet (http://jaimeramos.booktailors.com/).
Este é um policial também atípico. Porquê? Se tem todos os elementos usuais de uma narrativa do género? SPOILER ALERT: Porque o(s) crime(s) não são todos perentoriamente resolvidos. Há uma forte suspeita, impossível de comprovar. Ainda assim, há uma história, várias histórias (à partida anónimas) que nunca se conheceria, não fosse a insistência do nosso detective de serviço. Histórias de amores e desamores, como convém, de ódios de longa data, de poder do qual não se abdica e de várias vidas marginais, das quais apenas se conhece assento de nascimento e de morte.

Editora: Círculo de Leitores | Local: Lisboa | Edição/Ano: Dez 2006 | Impressão: Grafiasa, SA | Págs.: 344 | Capa: João Rocha | ISBN: 978-972-42-3883-8 | DL: 247558/06 | Localização: BLX PF 82P-312.4/VIE (80157512)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nunca, nada, sempre, tudo
Palavras impossíveis
A mudança revolve
Transforma
O fóssil é perene

Na perspectiva além do homem


sábado, 1 de outubro de 2016

Curvas ou intersecções (no caminho)

A propósito da leitura de A Curva da Estrada, de Ferreira de Castro, Cristina C., uma profunda conhecedora da sua obra, observou que para este autor a metáfora de acontecimentos que alteram o nosso percurso previsto é sempre uma curva e não um cruzamento ou uma intersecção.
Esta observação levou-me a reflectir. Quando perante obstáculos, alteramos realmente o nosso caminho, seguindo outra direcção, ou ultrapassamos, ou contornamos, o que se coloca à nossa frente?

Quantos de nós muda realmente de direcção? Deveríamos sequer? Sim, há sempre sins. Mas, deste modo, não estamos a afastar-nos daquilo que primordialmente definimos para as nossas vidas? Ou será esse afastamento uma outra forma de chegarmos aos nossos objectivos? Por vezes, uma estrada pejada de curvas e contracurvas abruptas obriga-nos a abrandar, a redobrar a nossa capacidade de observar o que nos rodeia, a ter atenção ao que nos rodeia. O nosso crescimento e maturidade advém não dos acontecimentos per si, mas de como lidamos com eles, do que aprendemos com eles. Para isso é necessário muitas das vezes abrandar, observar e avançar com cuidado. São as curvas que nos impedem de cair no precipício e nos fazem apreciar a estabilidade do caminho a posteriori. Sem elas, seriamos capazes de apreciar qualquer beleza na velocidade de um caminho a direito?