quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Adoração, Cristina Drios

Há primeira vista, estamos perante um mistério policial. Assim nos parece indicar a capa e a sua tagline uma rapariga, um policia, a máfia e Caravaggio. E, na verdade, o livro possui os elementos habituais de uma obra do género: há uma morte, um policia que investiga, um vilão e a jovem mulher, por sinal, atraente. Mas, depois das primeiras páginas, percebemos que não estamos perante este tipo clássico de história. Estamos, na verdade, perante 4 histórias de indivíduos em busca da redenção que se dividem em dois planos temporais, Itália da década de 80 e Itália do início do século 17. E em cada história encontramos o individuo na sua batalha pela beleza através da criação artística; como nele convivem o bem e o mal e como o mal não é necessariamente intrínseco, mas consequência inerente das suas escolhas; como o vazio é também um elemento (incontornável) da vida; e que para alguns homens o reequilíbrio só se estabelece através da morte.
Para quem admira a obra de Caravaggio, este é, sem dúvida, um livro incontornável.

Editora: Teorema | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, Setembro 2016 | Impressão: Eigal | Págs.: 214 | Capa: Rui Garrido | ISBN: 978-972-47-110-8 | DL: 412846/16 | Localização: pax

terça-feira, 22 de novembro de 2016

De que falamos quando falamos de acessibilidades?

Ao ler um texto sobre o tema na área cultural, não pude deixar de reflectir sobre o mesmo e sobre a realidade que me rodeia. Ao falar-se de acessibilidade, fala-se também dos diversos tipos de acessibilidade: física, social e intelectual. E, é claro, a influencia desta na criação e/ou tipificação de públicos. Mas será que os nossos responsáveis estão cientes e/ou sensibilizados para esta questão e a sua real e eficaz inclusão na gestão dos espaços e equipamentos.

Em termos de acesso físico, a minha questão começa logo pela localização. Quando se seleciona um espaço para um serviço ou um equipamento, este nem sempre é o desejado ou o ideal, mas sim o que está, de momento, disponível. Consequentemente, esses espaços podem ter logo condicionantes genéricas de acesso à zona no que diz respeito a, entre outros: proximidade de transportes públicos, estacionamento, sentimento de (in)segurança. Depois, há a questão do edifício. Está preparado para possibilitar o acesso a pessoa com mobilidade reduzida. Ou seja, tem rampas, elevadores, áreas de circulação para cadeiras de rodas ou muletas, ou tem qualquer outro tipo de barreiras físicas? E quando falamos de acesso, porque não falamos também de evacuação em caso de emergência? Sim, porque embora todos desejemos que nunca seja necessário, temos de estar preparados para essa situação. E, infelizmente, tenho-me deparado com situações de portas, que se querem de emergência, encerradas pelo exterior ou zona de fuga para varandas ou outras áreas fechadas.

Quanto à inclusão social, há todo um mundo a reflectir. E digo um mundo porque cada vez mais o nosso país acolhe diversas e tão dispersas nacionalidades que todos sentimos dificuldade em acompanhar na necessidade mais básica: a linguística. Sim, todos nós falamos um mínimo de inglês, quase nada de francês, arranhamos um portunhol. Mas para além disto? Conseguimos realmente comunicar com quem nos procura? Estamos preparados para atender devidamente invisuais? E falantes de língua gestual? E situações do foro mental? Não, não estamos e incluo-me nesse rol.

E por último, mas não menos importante, há a vertente intelectual. Cada utilizador de um espaço cultural tem apetências e necessidades específicas e, sendo impossível satisfazer todas, podemos ser o mais abrangente possível nas ofertas que disponibilizamos. Para tal não podemos esquecer que há um caminho a fazer e que este se faz a partir do diálogo entre os técnicos no terrenos e o(s) próprio(s) público(s). Para tal é necessário ter numa equipa elementos com formação adequada e transversal e confiar na capacidade dessa equipa para fazer o trabalho. Por vezes, começa-se por uma pequena actividade e dessa ou dos contributos (in)formais gerados parte-se para outra., quiçá de maior dimensão, até se chegar àquela dimensão que todos os responsáveis gostam e que lhes dá a maior visibilidade possível. Além disso, e porque os nossos públicos evoluem e são também cada vez mais exigentes e sedentos de uma oferta variada é necessário fazer uma aposta continua na formação profissional e em momentos de partilha interna e externa. Se o fizermos, tudo o resto acontecerá e ganhamos todos: o(s) público(s) por conseguir suprir as suas necessidades, os técnicos porque sentem a validade do seu contributo e os responsáveis porque consegue visibilidade.

E se tudo isto para simples e óbvio, infelizmente, só o é para alguns. Tentemos nós fazer a nossa parte. 
@ João Menéres

domingo, 20 de novembro de 2016

Que obras selecionar para uma comunidade de leitores?

(Comunidade de Leitores da biblioteca da Penha de França)

Há cerca de ano e meio, tive a oportunidade de integrar a Comunidade de Leitores da Biblioteca da Penha de França. Além do prazer pessoal, tem sido a oportunidade de colocar em prática muito do que tenho observado e aprendido, no que diz respeito à dinamização de comunidades de leitores. Uma dessas aprendizagens tem a ver com a adequação das propostas de leituras ao espaço, que, neste caso, é uma biblioteca pública, com uma missão e objectivos definidos.

Sendo uma biblioteca pública, o que é que faz (ou não) sentido promover em termos de leituras?


+ Explorar o acervo da biblioteca. As bibliotecas disponibilizam milhares de títulos aos seus leitores e utilizadores, e é ai que devemos buscar as nossas sugestões de leitura. Isto implica uma pesquisa e uma opção por títulos com o nº de exemplares suficientes para o nº de participantes na comunidade. Isto é uma lógica de economia, não faz sentido termos livros disponíveis, nem apresentar-nos como uma opção gratuita de acesso à informação, e pedirmos aos leitores que adquiram outros. Deixemos isso para outros espaços.


É claro que também coloca alguns impedimentos:


- A dificuldade em promover novidades literárias ou modas muito recentes ou, uma vez que não existem exemplares em número suficiente para todos. Por exemplo, neste momento não é possível seleccionar os livros de Elena Ferrante, uma vez que os poucos exemplares disponíveis da rede municipal de bibliotecas de Lisboa possuem uma lista de espera de cerca de 30 leitores. Existem, no entanto, livros que foram populares num dado momento do tempo e que fazem todo o sentido conhecer, mesmo que acabemos por entrar na onda do “clássico”.


Então em que podemos apostar?


+ Autores nacionais. Se somos uma biblioteca pública nacional, devemos, senão fazer bandeira, pelo menos, promover o maior número possível de autores nacionais, que nem sempre são do conhecimento do leitor. O que é nosso é bom e devemos defende-lo. Além de que possibilita apostar noutro tipo de actividade paralela ou subsequente: o encontro com o escritor. E, numa era de igualdade de oportunidades entre género, porque não tentar encontrar um equilíbrio entre autores do sexo masculino e feminino?


+ Autores internacionais. Uma das possibilidades que a literatura nos oferece é a de ver e conhecer o mundo pelos olhos do outro, neste caso, que melhor olhar do que o estrangeiro? Mas, sendo esta possibilidade tão abrangente, optou-se pela divulgação de premiados com o Nobel da literatura. Poderia haver outro(s) critério(s)? Poderia. Contudo, foi um ponto de partida consensual para todos os participantes e que nos levou à leitura, em 2016, de Orhan Pamuk, Ernest Hemingway e Nadine Gordimer.


+ Sugestões dos participantes. Aqui entra, não só a sensibilidade, mas a capacidade de análise do dinamizador de: perceber, durante as sessões, que autores não foram lidos pela maioria e avançar com essas mesmas propostas; registar as sugestões informais dos participantes; e incitá-los a sugerir, porque as comunidades são feita para os leitores e estes sentem-se mais identificados quando as suas sugestões são consideradas.


Outras comunidades terão outras opções e orientações de leituras. Estas, que não são estanques e imutáveis, apenas são uma continuidade do entendimento que, enquanto técnicos, fazemos do papel da biblioteca enquanto agente de promoção da leitura, com um acervo a potenciar e a divulgar, sem descurar a curiosidade dos seus leitores.



 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Histórias Indianas, Cristina Drios

p. 43 “Está convencido da justiça da sua tarefa: há-de reinventar as vidas dos que ali se cruzam, dar uma boa índole aos fascinoras, proteger os indefesos, reescrevendo-os, reinventado-os a todos.”

Desafiada a ler o último romance da autora, Adoração, optei por entrar na sua escrita exactamente pelo seu primeiro trabalho editado, este Histórias Indianas.

Como o nome indica, este é um conjunto de histórias passadas naquele pais, que sempre fascinou os ocidentais, seja pela sua riquíssima mitologia ou diversidade religiosa, seja pelas polaridade sociais e aparente exotismo. São histórias, por vezes, dramáticas (O Expresso nocturno Deli-Bombaim), melancólicas (A Janela), de pendor histórico (A Fronteira e O sonho de Brahama), sobre o oficio da escrita (A Encruzilhada), em que a realidade é onírica (Obsessão Música) e também irónica (205).

Apesar da sua pequena dimensão, estão são histórias que se entranham, não só pela crueza de alguns temas, mas também pela maturidade e sobriedade da escrita. As palavras parecem ter a medida certa para nos orientar no processo de visualização das situações e de nos levar a partilhar alguns dos sentimentos dos personagens, fazendo com que estes permaneçam connosco para além da leitura destas parcas páginas. Por mim, sei que Subash, Sangeeta e o escrita ficarão por aqui durante algum tempo.

p. 48 “A sua escrita, afinal, nada muda, nada justifica, nada salva, não passa disso mesmo – letras, palavras, histórias inventadas. ”



Editora: Objectiva | Local: Carnaxide | Colecção: Cadernos do Campo Alegre | Edição/Ano: 1ª (500 ex.) 2012, Dezembro | Impressão: Papelmunde | Págs.: 76 | Capa: Imagem de Cristina Drios | ISBN: 978-989-95086-6-8 | DL: 351783/12 | Localização: BLX DR5072603 (80333968)