terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Os Sinais do Medo, Ana Zanatti

"... são muitas as pedras que formam a felicidade e há sempre umas que nos escapam." (p.276)

A minha primeira incursão na escrita desta autora dá-se exactamente com o seu primeiro romance. Este versa sobre o tormento psicológico que pode ser a assumpção da homossexualidade devidos as expectativas e pressões sociais, sobretudo familiares. Para o demonstrar, Zanatti cruza diversas personagens: Maria do Carmo, Rita, Luís, Paulo, Flávia, Rosarinho, entre outras, cujas acções terão impacto (por vezes invisível) no desenvolvimento de cada personagem e das relações entre si. Salientado a importância da família no processo, não de descoberta, mas de aceitação e como essa necessidade é, na maioria das vezes, colmatada pela instituição de uma família alargada.
É uma história de descoberta de identidades e do seu papel na busca da felicidade. Em certos momentos, apresenta-nos diálogos que soam demasiado programáticos e no tom geral ressoa um grande impacto da psicologia, como forma de atingir esta busca e descobertas interiores. As personagens são, a meu ver, demasiado descritas, deixando pouco espaço a que as suas acções falem por si, deixando-nos, leitores, pouca margem para as nossas próprias interpretações sobre as suas características e incompletidudes.
Como primeiro romance, a história apresenta-se completa, em termos de mensagem, enredo e personagens. Estou curiosa para ler outro título da autora para perceber como é que a sua escrita evolui em termos de maturação e densidade.


Editora: Dom Quixote | Local: Lisboa | Edição/Ano: 2ª, Jun 2003| Impressão: Gráfica Manuel Barbosa | Págs.: 284 | Capa: Atelier Henrique Cayatte | ISBN: 972-20-2412-4 | DL: 197017/03 | Localização: BLX OR Rom-Por ZAN (80016119)

sábado, 21 de janeiro de 2017

O artista está sozinho, Frederico Pedreira

“A ironia é todo um outro nível de vida.” (p. 66)
Este pequeno volume de cerca de 70 paginas, e letra garrafal,  encontra-se dividido em três capítulos: Companhia, Passeio e A Aventura. O texto é hermético, fragmentário (e intencionalmente) desconexo, (depreende-se) com a intenção de transmitir a incompreensão (alheia) a que o artista (o verdadeiro artista) está votado. O objectivo parece conseguido, uma vez que, na minha singela opinião, muito pouco no texto me diz algo. A ironia patente deve estar realmente num nível inatingível.

Editora: Edição de autor | Local: Lisboa | Edição/Ano: Fev. 2013, 150 ex. | Impressão: Guide AG, Lda. | Págs.: 67 | Capa: Diogo Vaz Pinto | ISBN: 978-989-8638-05-2 | DL: 355915/13 | Localização: BLX DR5075463

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O Vale da Paixão, Lídia Jorge

"Falar de resultado, neste caso, seria o embelezamento duma ideia de vítima, e a filha (...) era ela mesma, e a herança consistia na mistura do que herdava com a transformação da herança, feita por sua vontade." (p. 127)
Esta foi a minha primeira incursão pela escrita de Lídia Jorge. Este romance, subdividido em 100 pequenos capítulos, relata-nos, ora na primeira, ora na terceira pessoa, a história da família Dias, e em especial do seu filho Walter, e o modo como a sua ousadia e ausência influência e molda a continuidade da mesma.
A narração está a cargo de uma mulher, cujo nome nunca é nomeado, e que se fica a saber ser a filha biológica de Walter, mas que é perfilhada pelo seu tio Custódio. Ela faz-nos então compreender como esta “verdade”, este acordo tácito, que é do conhecimento de todos, mas que nunca é verbalizada, se torna uma pedra basilar de todas as relações familiares, e sobretudo da sua personalidade. Porque a ausência de Walter, o trotamundos, como é chamado pelo pai, permite uma idealização e essa idealização pode ser a maior herança que ela alguma vez receberá. Esta é uma ideia que Mia Couto também refere no seu O Outro Pé da Sereia, quando uma das personagens afirma: “Vila Longe era uma terra de homens ausentes. Saiam dali adolescentes, sem idade para serem homens. Regressavam doente, demasiado tarde para serem maridos. Por fim, tornavam-se país quando as esposas ficavam viúvas.” (p. 243)
Mas este não é o único livro que esta narrativa me trouxe à memória. O outro livro é A História de meu filho, da nobelizada Nadine Gordimer. Ambas as narrativas resultam da tentativa dos filhos de colocar por escrito as suas histórias e assim compreender e ganhar consciência de como as relações parentais, seja de que nível forem, têm um papel primordial e inescapável na formação do individuo. E como as percepções dos filhos se alteram ao longo dos anos, à medida que estes vão amadurecendo e compreendendo outras subtilezas da suposta maturidade: “Será que alguma vez nos esquecemos deles, dos pais, por um momento? (…) Porque mesmo quando desafiamos os pais, quando os enganamos, confiamos neles.” (p. 33); “o que ele fez (…) fez de mim um escritor. / Eu sou um escritor e este é o meu primeiro livro – que não posso publicar nunca.” (p. 218)
os narradores, ao escreverem-se e às suas circunstâncias, conseguem assim ganhar o distanciamento necessário para compreender os seus progenitores fora do seu espectro parental, para os perceberem e aceitarem como adultos imperfeitos e assim conseguirem enterrar o passado, seja sob a forma de uma manta militar, seja pela catarse dos seus fantasmas.
Editora: Biis (Leya, SA) | Local: Alfragide | Edição/Ano: 6ª, 2009| Impressão: Litografia Rosés | Págs.: 189 | Capa: Rui Belo / Silva! Designers | ISBN: 978-989-65-3001-3 | DL: 283602/08 | Localização: BLX Oli ROM ROM-POR JOR (80319867)



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Diário dos dias ausentes

Desfio a memória e os dias ausentam-se. Batem em retirada a cada passo dado em sua direcção. Transformam-se em ténues paredes translucidas que se desfazem em névoa quando o gesto as tenta alcançar. Falha a acção, e o sentido apreende gotículas que prenunciam a ilha encantada, que nunca chega a apresentar-se ao gesto e ao olhar. Perde-se assim o registo dos dias ausentes. 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Rasgos

A literatura só me salvará enquanto ponto de partida para me reflectir e consequentemente consciencializar do que, não me agradando, é necessário transformar e passar à acção. Sem essa passagem, a literatura é só literatura. É inação. É uma parede que defende um inócuo espaço vital. Uma vez que na maioria das ocasiões me impede de interagir com quem me rodeia.

Estar em qualquer outro lugar, ainda que imaginário, impede-nos de viver. Mesmo que, segundo a maioria, esse viver seja o mero cumprimento de rotinas e expectativas, nem sempre nossas. E percebo que o que antes me parecia ingenuidade ou vergonha é na verdade inépcia.

Não fui feita para este correr, para esta formatação, para este despropósito. Por isso me refugio na literatura. E sabendo-a um refúgio, de quando em quando, faço pequenos rasgos para me integrar no mundo. Pequenos rasgos.


sábado, 14 de janeiro de 2017

Português para Estrangeiros: 3ª Edição


Esta semana, dei início à terceira edição deste projecto, que estava a dar os primeiros passos o ano passado, também por esta altura. Muita coisa aconteceu neste ano. Conheci muitas pessoas, de países que não me passaria pela cabeça, aprendi muito… e continuo a aprender. O que me deixa muito feliz!
Em jeito de síntese, saliento que nunca esperei receber tanta diversidade de participantes: desde a vizinha Espanha até ao mais longínquo Nepal. (Uau! O topo do mundo veio até mim. Ainda me parece inacreditável.) Destes, a sua maioria são mulheres. Dos mais variados estratos sociais e com os mais variados contextos culturais: desde jovens adolescentes em intercâmbio de estudantes até mães de família quase analfabetas. Passando por profissionais com formação académica a nível de doutoramento, funcionários de embaixadas e artistas. O mundo tem-se reunido regularmente numa pequena sala na Biblioteca da Penha de França.

Se no início tinha alguma insegurança. Afinal, questionava-me: o que tenho para oferecer a pessoas oriundas de países e realidades tão díspares. Hoje, sinto-me grata por ter abraçado este desafio e a questão que me coloco é outra: como levar este projecto mais além? Não só em termos de abarcar um maior número de participantes, mas de retornar este potencial humano e de conhecimento exactamente em prol da comunidade a que pertencem. Ainda não tenho uma resposta concreta, mas estou a pensar nisso!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Livro do Ano, Afonso Cruz

“Não é fácil fazer um dia. (…) Especialmente porque não há dias onde meta estes dias.” p. 136

Uma menina, insatisfeita por não existir o dia 30 de Fevereiro, uma menina inicia um diário em que pretende “… escrever as memórias dos dias que não existem no calendário.” (p. 136) O que resulta no curioso diário gráfico.

Editora: Alfaguara | Local: Carnaxide | Edição/Ano: 1ª, Fev. 2013 | Impressão: Rainho & Neves, Lda. | Págs.: 141 | Capa: Panóplia, sobre ilustração de Afonso Cruz | Ilustrações: Sim | ISBN: 978-989-672-161-9 | DL: 354548/13 | Localização: BLX PF 81P-1/CRU (80339749)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Nem todas as baleias voam, Afonso Cruz

Depois da leitura de O Pintor debaixo do Lava-loiças retorno à escrita de Afonso Cruz com outro livro azul. Azul no tom da capa e azul no tom soturno e na temática blues que compõem o seu conteúdo. E mais uma galeria de personagens desenquadradas das normas deste mundo, por vezes incompreensível, em que vivemos.
Erik ama Natasha incomensuravelmente. Erik e Natasha têm um filho. Tristan. Natasha desaparece sem explicação. Erik perde a sua razão de viver. Tristan vê-se órfão de mãe ausente e pai presente. Encontra amizade numa velha. E numa prostituta. E há ainda Isaac. E Tsilia (ó, que livro entusiasmante daria Tsilia). E O Escritor. E a cultura como arma de aproximação e mudança de mentalidades. E a tortura que é descer ao amâgo da criação e fazer submergir a literatura. E a esperança de um final que o autor assim quer.
E eu fico ainda sem saber o que sinto perante esta escrita.

Editora: Companhia das Letras | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Nov. 2016 | Impressão: Printer Portuguesa | Págs.: 280 | Capa: Mª João Lima | Ilustrações: Autor | ISBN: 978-989-665-127-5 | DL: 416911/16 | Localização: Pax

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pára em mim!

Para o bem e para o mal, o que dizemos e o que fazemos tem repercussões. Na sua maioria inimagináveis. E tal como as máximas violência gera violência e gentiliza gera gentileza temos que estar cientes de que colhemos o plantamos e geramos. E também que colhemos os que outros plantam e nós permitimos.
Trabalho quase todos os dias no sentido de saber distinguir o que deve ou não ser plantado. Há coisas óbvias, mas outras são tão subtis que por vezes embarcamos simplesmente na onda de outros. É mais fácil. E é essa área difusa que pretendo clarear.
Procuro colocar pontos finais naquilo que considero ter uma mensagem negativa ou que pela sua natureza volátil e/ou ofensiva possa gerar discórdia e desentendimentos. Acabamos com as situações? Não, mas também não instigamos nem contribuímos para o seu avanço e, em última análise, promovemos a sua regressão.

E o que tento propagar? O que considero útil, positivo, que permita obter novas perspectivas, através da reflexão e consequente transformação dos nossos pensamentos e actos. Para melhor. Espero. Não por uma vã noção de perfeição. Mas por uma noção de aperfeiçoamento. 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Limpeza de ano novo

Aproveitei o fim-de-semana de final de ano para fazer uma limpeza no roupeiro. Afinal, tenho de me desfazer do velho se quero dar espaço ao novo. Não é que esteja a pensar adquirir novas indumentárias, estava mais era a necessitar de despedir-me das antigas. É que tenho muita dificuldade em virar a página e em desfazer-me seja de objectos, seja de roupas. Então, de quando em quando, tenho de me obrigar a tal feito.
Mas este processo, aparentemente simples, pode ser psicologicamente complexo, porque, se formos sinceros connosco, confronta-nos com algumas realidades incómodas. No que diz respeito à roupa, o que mais me custa é que, mesmo continuando a gostar de determinadas peças, o meu corpo já não se enquadra nelas. Seja pelas diferenças e oscilações de peso ou porque a gravidade já não é a mesma. Pode até ser que esta constatação contribua para que em 2017 volte às caminhadas.
Por falar em caminhadas, que tal o assunto sapatos? Pois é, a idade trouxe-me joanetes e estes obrigam-me a pensar o calçado que compro e também o que não voltarei a usar. Como os dois pares de calçado de cerimónia que não usava há mais de 10 anos, mas cujo salto e elegância fizeram com que fossem permanecendo no fundo do roupeiro. Na verdade, não espero participar em grandes cerimónias num futuro próximos e mesmo que as haja lá terei de encontrar outra opção mais viável inclusive para o dia a dia.
Separei-me igualmente de algumas peças que marcaram alguns momentos como algumas roupas que comprei por necessidades profissionais, ou porque queria logo novo para determinada situação, ou até para marcar alguns inícios. Gostamos sempre de marcar um início com uma nova toilette, não é? Percebi igualmente que não dei certas roupas por um receio de perder a memória afectiva a elas ligadas. Ou seja, funcionaram durante muito tempo como um atalho para viagens ao passado. Mas o passado não volta e a memória simples que permanece terá de bastar.
A nossa roupa reflete o que somos. Hoje. Não ontem. Mas não pensem que só possuo roupa nova. Não. Dou por mim a perceber que algumas roupas ainda têm valor para mim. Como uma camisola com cerca de 15 anos que ainda visto uma, duas vezes por mês. Ou uma saia de verão ao xadrez. Ou as botas dos escoteiros que herdei do meu sobrinho. Ou o casaco de inverno que herdei da minha mãe.

Quanto às indumentárias que saíram do roupeiro, foram depositadas num contentor de recolha de roupa para fins sociais. Quanto às minhas próximas aquisições, serão mais espaçadas, e antes de o fazer penso várias vezes se realmente necessito da peça em questão. Tenho pensado : que quantidade de roupa afinal necessitamos. Não chego às medidas drásticas que vejo em certas noticias, mas penso o seguinte: para encher uma máquina de roupa de sete quilos, necessito acumular roupa de praticamente duas semanas. Então tento manter o número de roupa quotidiana em quantidade para encher uma máquina, sendo que isto funciona um pouco por estação: verão, inverno e meia estação. Com variantes de roupa interior, de dormir, de fora e agasalhos. E, sim, continuo a ter duas ou três peças um pouco mais especiais para alguma eventualidade. Afinal, sou mulher. Agora, só me falta comprar uns sapatos para a ocasião!