sexta-feira, 31 de março de 2017

A Experiência, Ferreira de Castro

“… mas o que é a Natureza, …, senão uma perpetua injustiça?” (p. 212)
Clarinda e Januário são órfãos acolhidos num asilo, no qual é ministrada uma educação “experimental”, que, embora nunca explicada, pretende dotar os seus pupilos de valores e competências que lhes permitirão ultrapassar as suas circunstâncias de nascimento. Só que a vontade única do benemérito deste asilo não consegue ultrapassar os preconceitos e a ordem instaurada e aceite por todos os intervenientes sociais. E assim, estas crianças, vêem-se votadas ao mesmo futuro desesperançado de qualquer outro órfão ou de filho de uma família de parcos rendimentos. Como é o caso dos companheiros de cela de Januário e das companheiras de prostituição de Clarinda. É uma história humana em que nos é dado perceber o que leva alguém a percorrer um caminho moral e socialmente condenável, mas que mais não é do que uma fuga à fome e à miséria, que os demais não querem ver e, se vendo, não agem de modo a suprimi-la.
Como sempre, Ferreira de Castro mostra-nos os homens e as mulheres que tentam escapar ao seu destino, mas que, na maioria das vezes, são apanhados por ele.

Editora: Cavalo de Ferro | Local: Lisboa | Edição/Ano: 14ª, 2014 | Impressão: Tipografia Lousanense | Págs.: 223 | ISBN: 978-989-623-182-8 | DL: 371369/14 | Localização: BLX Mar 82P-31/CAS (80329384)

quinta-feira, 30 de março de 2017

Português para Estrangeiros | 3ª Edição – Balanço

Terminou, hoje, a terceira edição do projecto Português para Estrangeiros, que dinamizo na biblioteca da Penha de França. Como tal, impõe-se um pequeno balanço.
Tal como está, o projecto corresponde a um nível de iniciação (A1/A2, do Quadro Nacional de Qualificações), o que, embora essencial, é uma oferta insuficiente. O que me vai levar, durante o período de verão, a preparar um novo nível, correspondente ao B1/B2. Também gostaria, mas não necessariamente dentro dessas sessões, de desenvolver actividades complementares, como uma Comunidade de leitores e uma Oficina de Escrita estrangeiros, para abordar especificamente as competências de compreensão leitora e de produção escrita.
Na verdade, ideias e vontade não me faltam. No entanto, é necessário articular disponibilidades várias, que, felizmente, se parecerem estar a conjugar, por isso estou bastante motivada como as possibilidades de crescimento do projecto. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Cara incompreensão

Com a idade, há processos da minha mente que fui entendendo e, creio mesmo, que consegui alterar. Alguns. Talvez um ou dois. Bem, o suficiente para acreditar que, em determinados aspectos, já não reajo nem me comporto como há 10, 15 anos atrás. Seja pela mera identificação de um padrão de comportamento e “inversão” da consequente acção. Seja porque realmente as nossas experiências alteram a nossa percepção da realidade e naturalmente o nosso comportamento.
Dá-me segurança ter consciência dessa mudança, porque me permite ter confiança de que ainda conseguirei alterar aspectos da minha personalidade com os quais não estou satisfeita.
Por outro lado, questiono-me se será benéfico compreendermo-nos na totalidade. Não implicará esta hiperracionalidade uma sobrecarga do nosso sistema (afinal, somos complexos computadores quânticos), que colapsará perante a infinitude de possibilidades de consequências de qualquer acção ou pensamento?
Sentir torna-se, então, primordial. Sentir liga-nos (a todos, a tudo). Sentir oferece-nos o aqui e o agora. Sem passado, sem futuro. Sem herança, sem consequência. Apenas indivíduos a aprender a ser todo.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Há na escrita anglo-saxónica uma simplicidade e uma eficácia que me apraz. É uma primazia da história e da mensagem em relação à forma. Por oposição à necessidade francófona ou europeísta de demonstrar uma erudição a toda a prova, que dificulta o trabalho do leitor, fazendo com quem seja capaz de descortinar a mensagem se sinta um escolhido.
É verdade que diversos níveis de compreensão leitora. Tal como há diferentes necessidades de escape através da leitura. Fazendo de cada leitor um desafio diferente. Como tal, a escrita não pode encarar o leitor como ignorante, nem deve impor-lhe uma prova este necessita ultrapassar constantemente.

Há um equilíbrio entre simplicidade e profundidade (sim, sei bem que não são antónimos) possível de atingir. É nesse eixo que desejo situar o modo como escrevo e é nesse sentido que diariamente exercito o meu funambulismo literário. 

sábado, 25 de março de 2017

O Primeiro Marido, Laura Dave

Ocasionalmente, sinto necessidade de balancear leituras mais exigentes com outras mais acessíveis, embora, no final, sinta que essa leitura não me acrescentou nada. O que não quer dizer que este tipo de livros não tenham o seu papel e a sua importância, quer no mercado, quer junto do publico. Por vezes, só necessitamos mesmo de pequeno escape e de um pouco de entretenimento.
Dos inúmeros livros disponíveis na biblioteca, e com o volume igualmente agradável, a minha escolha recaiu sobre este Primeiro Marido. Acabei por me surpreender com a escrita acessível e bem humorada, a estruturação da narrativa devidamente intercalada com momentos de reflexão (embora não inovadores), que se adequam e evoluem de acordo com a mesma, as personagens que agem e não são descritas minuciosamente, como meras imagens. Ou seja, este é um livro by the book de acordo com qualquer lição de escrita ficcional da escola americana, o que não é desmérito, se há coisa que os americanos fazem bem é contar uma história, embora , por vezes, pequem na incapacidade de lhe dar níveis de profundidade.
Quanto à história propriamente dita, uma jornalista de viagens é surpreendida com a “notificação” de separação por parte do seu namorado de longa data. No processo de recuperação, conhece um jovem chefe, com quem casa inesperadamente no curto prazo de 3 meses. O casamento leva-a para uma pequena vila, mas, simultaneamente, recebe um convite profissional de sonho, que implica a sua mudança para Londres. Claro está que no final a personagem tem de tomar decisões, perceber quais as suas prioridades e o amor vence sempre.

Título Original: The Firt Husband | Tradução: Duarte Sousa Tavares | Editora: Topseller | Local: Amadora | Edição/Ano: 1ª, Abril 2014 (3000 ex.) | Impressão: Publito | Págs.: 255 | Capa: Ideias com Peso | ISBN: 978-989-8626-36-3 | DL: 373671/14 | Localização: BLX PF  ROM  ROM-EST  DAV (80351933)

sexta-feira, 24 de março de 2017

Comunidade(s) de Leitores: Trimestre(s) no Feminino

Uma das questões que, volta e meia, surgem nas comunidades de leitores prende-se com a representatividade da escrita no feminino. As autoras estão representadas nas suas opções de leitura? Sim, estão. E da minha observação, cada vez mais. Porquê?
Talvez uma primeira resposta venha exatamente da maioria dos participantes em comunidades de leitores serem mulheres. É claro que isto não se verifica em todas as comunidades, e ainda bem, mas é a realidade e pode ser comprovada, provavelmente, numa comunidade perto de si. Assim, e se desejavelmente quem participa tem algo a dizer nas escolhas de leitura, é inevitável que estas, se não refletiam essa representatividade, a partir do momento em que se dá conta dessa realidade, há uma tentativa de encontrar um equilíbrio nesta escolhas. Tem sido igualmente essa a minha observação. E o interessante é que, a dado momento, esse equilíbrio surge naturalmente.
Como dinamizadora de uma comunidade, procuro que este equilíbrio seja atingido. Embora não me preocupe em que o mesmo seja de uma igualdade matemática. Então, e aproveitando uma prática de outras comunidade, uma das propostas este ano passou por um trimestre no feminino. Para mim, foi a oportunidade de conhecer a escrita de 3 autoras nacionais de quem ainda não tinha lido nada, tal como a maioria dos participantes na comunidade. E como o nosso objectivo principal é o de divulgação de “novos” autores, esta foi uma opção bem acolhida e à qual poderemos voltar no futuro.


segunda-feira, 20 de março de 2017

E as mulheres, Raduan?

Em rescaldo de leitura de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar, dou por mim a reflectir nas suas personagens femininas e no papel que o autor lhes atribui. E que papel é esse? De subjugação.
Ana submete-se ao desejo de André e à autoridade do pai. No único momento em que tenta rebelar-se a consequência é fatal. X (chamei-lhe assim) tentar impor a sua voz a Y, mas este vence pelo desejo sexual. Seja em contexto familiar, seja numa relação a dois, as mulheres parecem sempre votadas à anulação como castigo para a instigação do que, eventualmente, será o lado negro dos homens: a sua incapacidade de ceder o poder ou autoridade. O desejo natural é castigado. O desejo de igualdade na relação é aniquilado.

Em última análise, a questão que se coloca é: poderá, sequer, haver relacionamentos sem relações de poder? Ou qualquer relacionamento é uma demonstração de poder? Porque, neste caso, a mulher é apresentada sempre numa posição de perda e impotência. 
Resta-me ler o último livro do autor, Menina a caminho, para inverter esta imagem que o autor me deixa. Será?

quinta-feira, 16 de março de 2017

Um Copo de Cólera, Raduan Nassar

"... o que conta na vida é a qualidade da descida..." (p. 80)

Uma vez que a obra de Nassar se resume a 3 títulos, e lido o talvez mais emblemático Lavoura Arcaica, resolvi dar continuidade à sua leitura, desta feita com este Um Copo de Cólera.
A acção deste livro decorre em cerca de 24 horas, ou menos. Numa primeira parte, descreve-nos o encontro de dois amantes para uma noite de sexo e paixão. De manhã, antes da despedida, por um motivo trivial, despoleta uma discussão épica, onde o objectivo de cada um é magoar e menorizar o outro, demonstrando assim o seu poder de subjugação sobre o outro, acabando mesmo num episódio de confrontação física.
Quem sai vencedor? Leia o livro!


Editora: Companhia das Letras | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Junho 2016 | Impressão: Printer Portuguesa | Págs.: 116 | Capa: Panóplia | ISBN: 978-989-665-100-8 | DL: 411067/16 | Localização: BLX OR C&N  COM-NOV-EST  NAS (80374327)

segunda-feira, 13 de março de 2017


Cada vez mais, acredito que o grande objectivo da vida é demonstrar-nos que as crenças e valores que seguimos não são uma única verdade e que todas são possíveis, mesmo numa única vida. E talvez a única verdade seja aquela que ainda não vivemos.


quinta-feira, 9 de março de 2017

A Pirata: a história aventurosa de Mary Read, pirata das Caraíbas, Luísa Costa Gomes

Esta é a minha primeira incursão na escrita de Luísa Costa Gomes e, como o subtítulo nos indica, esta é uma história de aventuras, ao da literatura do século 18. Relata-nos a vida de Mary, que por questões de sobrevivência económica, a mãe faz passar pelo seu meio-irmão Mark, falecido ainda em bebé. A partir dai, vive quase toda a sua vida fazendo-se passar por Mark, num registo atípico para uma mulher e unicamente possível para um homem, na época. Desde a participação na guerra à vida de corsário e pirata.
A escrita de Costa Gomes é acessível, quer em termos de estruturas gramaticais que de vocabulário, e o enredo, sempre em movimento, capta-nos a atenção. As personagens são planas e nem sempre apelativas. Embora, parece-me, a intenção seja mesmo a de uma certa simplificação, pois, pelo que percebo, o texto se destina sobretudo a jovens e, infelizmente, esta é uma das caracteristcas da literatura infanto-juvenil: tell, don’t show. A meu ver, é um exercício interessante de reprodução de um estilo de escrita datado. No entanto, há questões que gostaria de ver exploradas e aprofundadas, como o papel da mulher, ou as personagens serem mais complexas. Foi uma leitura que classificaria de entretenimento, ou seja, leve e bem-disposta. Mais não é possível encontrar neste livro.

Editora: D. Quixote | Local: Alfragide | Edição/Ano: 3ª, Maio 2012 | Impressão: Publidisa | Págs.: 216 | ISBN: 978-972-20-3195-0 | DL: 344327/12 | Localização: BLX BEL 82P-31/GOM 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Eu sou a árvore, Possidónio Cachapa

"As árvores sabem uma coisa que os homens negam. Que um segredo sobre o fim de tudo é, na verdade, apenas o começo de outra coisa qualquer." (p. 346)
Antes de mais, devo salientar que este foi o livro que mais me entusiasmou nos últimos tempos. Porquê? Vamos ver se consigo explica-lo.
Começamos por conhecer Hyperion, considerada a árvore mais antiga do mundo, e como tal talvez o ser vivo mais solitário ao cimo da terra e também o ser com uma perspectiva única sobre a passagem do tempo e as patetices do homem perante a sua passagem. Depois, conhecemos Samuel e gradualmente a sua família: Jude, a esposa, Laura, Esperanto e Vitória, os filhos. Esta família é marcada pela relação obsessiva de Samuel com a terra, o seu cultivo, que antepõe inclusive à sua relação familiar, dando-os como adquiridos mas nunca retribuindo o seu amor ou colmatando as suas necessidades da sua presença.
Aqui, esta relação obsessiva fez-me recordar duas leituras recentes: Lavoura Arcaica e O Vale da Paixão, em que o valor ancestral do cultivo da terra se sobrepõe a qualquer liberdade individual, o que, em ultima análise, acaba com uma implosão da(s) família(s). Porque a terra é uma amante cruel, que exige e nunca retribui como desejado. Como resume o narrador: “A terra dá e a terra tira. Porque a terra espera também o dia em que será vencedora sobre o corpo físico do homem. Nela entrará a sua carne ou pousarão as suas cinzas.” (p. 133)
Um dos temas explorados é o das consequências dos nossos actos. Seja pela negligência (de Samuel perante a família), seja pela justiça pouco poética (da vingança sobre Casaca), seja pelo sofrimento e pacto silencioso que une os três irmãos. Laura, a primogénita, é, aparentemente, a protagonista desta história, pois é através de si que vamos começando a conhecer a família. Mas, além de Samuel, no fundo a personagem central, é Vitória, a irmã mais nova, que nos fica na memória. Uma criança que, devido a limitações físicas, e um acompanhamento inexistente dessas limitações, acaba também por ter uma percepção muito própria e única do mundo que a rodeia, tornando-se incompreendida e incompreensível para todos. É uma daquelas personagens maiores do que a nossa percepção e como tal uma personagem que acaba cedo de mais.
Esta foi a minha primeira incursão na escrita deste autor, que de tal forma me surpreendeu e cativou, que neste momento, além de sentir que tenho de conhecer mais do seu trabalho, sinto igualmente que tenho de deixar passar algum tempo para o fazer, para essa leitura não ficar demasiado contaminada pelas expectativas.

Editora: Companhia das Letras | Local: Lisboa | Edição/Ano: 1ª, Junho 2016 | Impressão: Printer Portuguesa | Págs.: 348 | Capa: Panóplia | ISBN: 978-989-665-099-5 | DL: 411737/16 | Localização: BLX Mar 82P-31 CAC (80372035)

quarta-feira, 1 de março de 2017

Leitura nos Transportes Públicos #17.02

Dia
Título, Autor
01-02
O Mendel dos Livros, Stefan Zweig
03-02
A Arte de Pensar com Clareza, Rolf Dobelli
07-02
O Tigre Branco, Aravind Adiga
08-02
Jane Eyre, Charlotte Brontë

A Alquimia do Amor, Nicholas Sparks
11-02
Lavoura Arcaica, Raduan Nassar

O quarto de Jack, Emma Donaghue
16-02
Volta ao mundo em 80 dias, Júlio Verne

Prometo Falhar, Pedro Chagas Freitas

Um novo amanhã, Dorothy Koonson
21-02
You are not so smart, David McRaney

E onde é que está o amor?, Ana Zanatti
22-02
Homem nota 10, David Merkh
23-02
Obra aberta, Umberto Eco
24-02
Quando o Cuco chama, Robert Galbraith
25-02
Pura Coincidência, Renee Knight
27-02
Eu Sou a Árvore, Pussidónio Cachapa

O Livro dos Códigos, Simon Singh