quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

#109.16 @ 103/1003: Done!



As minhas lembranças observam-me, Tomas Transtormer

Dando seguimento ao meu objectivo de ler pelo menos um livro de um premiado com o Nobel da literatura, peguei desta feita neste pequeno volume de Tomas Transtormer, laureado em 2011, pela sua poesia. Por ventura, este poderá não ser demonstrativo das suas competências literárias, ainda assim, era-me disponível e acessível, e demonstrou ser de leitura rápida.
O presente volume foi escrito aos 60 anos do autor e procurava, não olhar para o que foi a partir do olhar de hoje, mas sim regressar à sua visão de então, tanto quanto a sua memória o permita. (“Histórias recicladas, recordações de recordações.” p. 11) O autor relata as suas circunstâncias familiares (a separação dos país, a profissão da mãe, a família alargada) e também os seus primeiros gostos, paixões e ódios, destacando-se o impacto da II Guerra Mundial, a sua ideologia, a austeridade do sistema educativo vigente, o desejo de anonimato/invisibilidade. (“A arte de ser pisado conservando a dignidade." p. 35)
o volume finaliza com alguns dos seus poemas de juventude, recolhidos de algumas publicações escolares da época e que permitem comparar as lembranças e a produção literária contemporânea do autor.
"Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim todos os meus rostos anteriores, como uma árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores." p. 55
Tradução: Ana Diniz + Alexandre Pastor (poemas) | Editora: Sextante | Local: Porto | Edição/Ano: 1ª, Setembro 2012| Impressão: Bloco Gráfico, lda. | Imagens: sim | Págs.: 101 | Capa: Ateleier Henrique Cayatte | ISBN: 978-972-0-07176-7 | DL: 348141/12 | Localização: BLX PF 82-34/TRA (808316676)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

#93.16 @ 103/1003: 40

Tenho estabelecido, nos últimos anos, ler 40 livros por ano, porque considero que é um nº exequível e ajustado ao meu ritmo de leitura. Que não é exactamente célere. E tem-se revelado o nº certo.

Na prática, leio muitos mais livros, mas opto por não incluir neste computo os livros infantis, que leio, quase exclusivamente por necessidade profissional, e sobre os quais me exijo outro tipo de reflexão mais funcional. Ou seja, leio-os sempre sobre a premissa da sua adequação, ou não, a uma actividade no âmbito da promoção do livro e da leitura. E isso reservo para outras reflexões.

Então, como chego às minhas opções de leitura? Uma das minhas intenções ao estabelecer objectivos de leitura (que à partida eram 16) é colmatar algumas lacunas no conhecimento de autores e géneros. Por exemplo, os clássicos (#97). No entanto, e como considero outras leituras prioritárias, acabei por desistir deste objectivo. Outros objectivos, optei por colocar em stand-by e, se tudo correr bem, dedicar-me-ei a eles no próximo ano. É o caso da leituras das obras vencedores de alguns prémios literários nacionais, como o Prémio Saramago e o Prémio Leya. Entre os atingidos, um dos que me orgulho é ter lido 10 livros de autoras nacionais, que, muito erroneamente, nem sempre constam nos hábitos de leitura de demais leitores.

Estou satisfeita com o percurso de leituras que fiz este ano e que, por diversos motivos, ainda não consegui deixar aqui um registo das minhas impressões sobre as mesmas. No próximo ano, e se tudo correr de acordo com as minhas expectativas, este percurso terá algumas alterações e será composto, no último semestre, por leituras mais técnicas, o que talvez implique o não cumprimento de todas as minhas intenções de leitura. A ver vamos. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Outro Pé da Sereia, Mia Couto

A viagem termina quando encerramos as nossas fileiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar.” (p. 449)
Voltar a um livro, quase dez anos depois, não é voltar a um mesmo livro. É descobrir um novo. E não sei se me deva amedrontar com o facto de não recordar nada da história a não ser o facto de que a sereia emquestão era apenas figurada ou, melhor, figurante.
Esta é uma tipica história de Mia Couto em que predomina uma prosa poética que oscila entre o realismo e a magia do que não se sabe explicar. Desta feita, acompanhamos uma jovem mulher que retorna à sua aldeia para buscar um lugar sagrado para guardar uma imagem em madeira de uma santa, cujo pé lhe falta. Nessa viagem ao seu passado e às ruínas em que hoje consiste o lugarejo de Vila Longe cruzam-se outros passados, nomeadamente a história que levou a santa, cerca de 400 anos antes, até ali.
A meu ver, esta é uma história de fantasmas, que se reencontram uma vez mais para, quem sabe, finalmente poderem acertar as suas contas e deixar de vagar pelos espaços que anteriormente ocuparam, presos a um passado já inexistente. E, simultaneamente, destacam-se dois aspectos de reflexão: um sobre a condição do negro e outro sobre a condição da mulher.
O primeiro está muito presente nas personagens dos americanos, que buscam uma história do impacto da escravatura que se encaixe na sua imagem preconcebida da mesma, e na de Zeca Matambira, que ao relatar o seu mais famigerado combate de boxe nos explica que: “a sua cabeça tinha sido ensinada a não se defender de um branco. (…) tinha sido derrotado no palco da vida antes de subir para o ringue de boxe”. (p. 299)
Já a condição da mulher é nos apresentada através do relato de diversos níveis de violência, quer física e sexual, quer psicológica, como forma de “domar” o espírito que os homens não compreendem, mas pelo qual se sentem ameaçados.

Editora: Caminho | Local: Alfragide | Edição/Ano: 2ª (1000 ex.), Setembro 2013 | Impressão: Eigal | Págs.: ... | Capa: Rui Garrido | ISBN: 978-972-21-2638-0 | DL: 363963/13 | Localização: BLX Cor ROM ROM-EST COU (80343214)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O pintor debaixo do lava-loiças, Afonso Cruz

"No fundo anda tudo aos círculos, desde as recordações às histórias." (p.24)

Esta foi a minha primeira leitura deste produtivo autor nacional, cuja obra se tem pautado pela versatilidade e transversalidade de géneros. Esta narrativa parece elaborada a partir de um quadro de Magritte, uma vez que as suas personagens parecem incoerentes com o pano de fundo temporal e social em que nos são apresentadas. (Além de não ser difícil imagina-las todas com um airoso chapéu de coco.) O que resulta numa narrativa que definiria de surrealismo mágico.
A partir de algumas pesquisas, parece-me o trabalho multifacetado de A.C. tem alguns pontos de contacto com a obra de Saramago, que as suas histórias tinham como ponto de partida um acontecimento impossível. Ora, as histórias de AC também parecem pautadas, não tanto por acontecimentos, mas sobretudo por personagens impossíveis.
O protagonista, Sors, é filho de uma engomadeira e de um mordomo que abomina armas, é incapaz de compreender uma metáfora ou de dizer algo que não seja o que pensa, o que, em última instância, o leva à morte. Sors é um personagem melancólico, incoerente com o mundo que o rodeia, e uma paixão por Frantiska. Ao acompanharmos o seu percurso ora atribulado, ora desligado, vamos acedendo a reflexões sobre a violência e a guerra, os portugueses, os afectos e como o cuidado por vezes chega de quem menos se espera. O final da narrativa é esperançosa, como deverá ser qualquer manifestação na capacidade de transformação humana. No entanto, tal como a narrativa, parece incoerente com o percurso do protagonista, sobretudo porque a pedra de toque da transformação é tão suave como um grão de areia.

Editora: Caminho | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, abril 2011 | Impressão: Multitipo | Págs.: 175 | Ilustrações: Autor | ISBN: 978-972-21-2418-8 | DL: 327110/11 | Localização: BLX PF 82P-31/CRU (80313787)

domingo, 4 de dezembro de 2016

Traduzir-se, Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

sábado, 3 de dezembro de 2016

A história de meu filho, NAdine Gordimer

“Na nossa história, como em todas as histórias, inventei aquilo que não presenciei eu próprio.” (p. 217)
Esta foi mais uma primeira incursão na escrita de um autor e insere-se num dos meus objectivos literários de ler, pelo menos uma obra, de um escritor premiado com o Nobel da Literatura.
A autora, uma ativista contra o regime do apartheid na África do sul, deixa-nos aqui uma análise e uma reflexão do ponto de vista das suas vítimas e sofredores. A história é relatada por Will, filho de um conceituado ativista, que aos 15 anos descobre o caso amoroso do pai com outra activista, por sinal branca e loura. Esse episódio vai desencadear o relato, quase sempre cronológico, da família, em especial da vida do pai. É nos relatado o seu contexto social, os valores em que foi educado e, posteriormente, os valores segundo os quais vivia e transmitiu ao filhos e como estes evoluíram para o activismo político. É analisado o modo como isso era gerido em família, em particular pela mãe, e como acabou por influenciar a adesão da irmão e da mãe, embora de formas diferentes, o que o leva a sentir se quase que excluido. Pois acaba por ser o único que não combate o regime. Mas, em última análise, ao tornar se, na idade adulta, escritor, não estará Will a encetar a mais privada e individual forma de ativismo politico?
O livro (e o título) é interessante pela abordagem que faz ao momento da descoberta de que os nossos país não são os nossos heróis (de infância?) e do processo de como se chega à aceitação de tal facto, o que revela, afinal, o atingir da idade adulta: o momento em que aceitamos os nossos pais como outro adulto, por vezes tão inseguro quanto às suas decisões e caminho, como nós. Com a constatação permanente de que, para o bem e para o mal, somos o que somos em consequência dos nossos pais.

Título Original: My Son’s Story | Tradução: Ana Patrão | Editora: Editorial Presença | Local: Lisboa | Colecção: Novos Continentes | Edição/Ano: 2ª, 1992 | Impressão: Guide – A.G., SA | Págs.: 218 | Capa: Teresa Cruz Pinho | ISBN: 978-972-23-1467-1 | DL: 44526/91 | Localização: BLX DR5061836 (0911317)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Trilogia Signo dos Sete, Nora Roberts

Há um grupo de leitoras que lê Nora Roberts, não direi de empreitada, mas que possuí a sua lista de titulo que segue, quase religiosamente. E isso intriga-me. O que terá esta autora, sobretudo romântica, que tanto apela a estas leitoras? Fui descobrir e não fiz a coisa por menos, ligo logo uma trilogia!

Esta situa-se na cidade de Hawkins Hollow, Maryland, onde, em 1987, três amigos, ainda crianças, libertam sem querer um demónio que, de 7 em 7 anos, provoca tragédias na pequena cidade. Passados 3 ciclos de 7 anos, surgem na cidade 3 mulheres, que, sem qualquer surpresa, começam a fazer par romântico com cada um dos amigos, e que se vem a saber são todos descendentes quer do demónio (elas) que do seu aprisionador no longínquo ano de 1652. Peripécia para aqui, susto para ali, referencias populares mas também do género fantástico, a trilogia acaba por ser composta em mais de metade por uma história fantástica do que por uma história romântica. O que me surpreendeu.

Sabia que Roberts se dedicava ao policial, sob o pseudónimo de JD Robb, mas não sabia que se dedicava ao fantástico. E no fundo esta trilogia é uma trama detectivesca com um pano de fundo sobrenatural, bem estruturada, que, embora saibamos o final, nos prende no sentido de saber como se chegará lá. Ou seja, embora não seja a minha praia, compreendo o apelo das suas narrativas. Não sei se voltarei um livro da autora tão cedo, mas sei que um dia destes ainda lerei uma trama escrita sob o pseudónimo de JD Robb.

Títulos: Irmãos de Sangue; Ritual de Amor; Pedra Pagã | Tradução: Fernanda Semedo | Editora: Chá das 5 | Local: S. Pedro | Edição/Ano: 1ª Nov, 2012; Fev, 2013; Ago, 2013 | Impressão: Cafilesa, Lda. | Págs.: 270; 285; 285 | ISBN: 978-989-710-404-6; 978-989-710-045-1; 978-989-710-061-1 | DL: 349441/12; 353118/12; 361450-13 | Localização: BLX NC 82-31/ROB (80316248; 80240627; 80243091)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Adoração, Cristina Drios

Há primeira vista, estamos perante um mistério policial. Assim nos parece indicar a capa e a sua tagline uma rapariga, um policia, a máfia e Caravaggio. E, na verdade, o livro possui os elementos habituais de uma obra do género: há uma morte, um policia que investiga, um vilão e a jovem mulher, por sinal, atraente. Mas, depois das primeiras páginas, percebemos que não estamos perante este tipo clássico de história. Estamos, na verdade, perante 4 histórias de indivíduos em busca da redenção que se dividem em dois planos temporais, Itália da década de 80 e Itália do início do século 17. E em cada história encontramos o individuo na sua batalha pela beleza através da criação artística; como nele convivem o bem e o mal e como o mal não é necessariamente intrínseco, mas consequência inerente das suas escolhas; como o vazio é também um elemento (incontornável) da vida; e que para alguns homens o reequilíbrio só se estabelece através da morte.
Para quem admira a obra de Caravaggio, este é, sem dúvida, um livro incontornável.

Editora: Teorema | Local: Alfragide | Edição/Ano: 1ª, Setembro 2016 | Impressão: Eigal | Págs.: 214 | Capa: Rui Garrido | ISBN: 978-972-47-110-8 | DL: 412846/16 | Localização: pax

terça-feira, 22 de novembro de 2016

De que falamos quando falamos de acessibilidades?

Ao ler um texto sobre o tema na área cultural, não pude deixar de reflectir sobre o mesmo e sobre a realidade que me rodeia. Ao falar-se de acessibilidade, fala-se também dos diversos tipos de acessibilidade: física, social e intelectual. E, é claro, a influencia desta na criação e/ou tipificação de públicos. Mas será que os nossos responsáveis estão cientes e/ou sensibilizados para esta questão e a sua real e eficaz inclusão na gestão dos espaços e equipamentos.

Em termos de acesso físico, a minha questão começa logo pela localização. Quando se seleciona um espaço para um serviço ou um equipamento, este nem sempre é o desejado ou o ideal, mas sim o que está, de momento, disponível. Consequentemente, esses espaços podem ter logo condicionantes genéricas de acesso à zona no que diz respeito a, entre outros: proximidade de transportes públicos, estacionamento, sentimento de (in)segurança. Depois, há a questão do edifício. Está preparado para possibilitar o acesso a pessoa com mobilidade reduzida. Ou seja, tem rampas, elevadores, áreas de circulação para cadeiras de rodas ou muletas, ou tem qualquer outro tipo de barreiras físicas? E quando falamos de acesso, porque não falamos também de evacuação em caso de emergência? Sim, porque embora todos desejemos que nunca seja necessário, temos de estar preparados para essa situação. E, infelizmente, tenho-me deparado com situações de portas, que se querem de emergência, encerradas pelo exterior ou zona de fuga para varandas ou outras áreas fechadas.

Quanto à inclusão social, há todo um mundo a reflectir. E digo um mundo porque cada vez mais o nosso país acolhe diversas e tão dispersas nacionalidades que todos sentimos dificuldade em acompanhar na necessidade mais básica: a linguística. Sim, todos nós falamos um mínimo de inglês, quase nada de francês, arranhamos um portunhol. Mas para além disto? Conseguimos realmente comunicar com quem nos procura? Estamos preparados para atender devidamente invisuais? E falantes de língua gestual? E situações do foro mental? Não, não estamos e incluo-me nesse rol.

E por último, mas não menos importante, há a vertente intelectual. Cada utilizador de um espaço cultural tem apetências e necessidades específicas e, sendo impossível satisfazer todas, podemos ser o mais abrangente possível nas ofertas que disponibilizamos. Para tal não podemos esquecer que há um caminho a fazer e que este se faz a partir do diálogo entre os técnicos no terrenos e o(s) próprio(s) público(s). Para tal é necessário ter numa equipa elementos com formação adequada e transversal e confiar na capacidade dessa equipa para fazer o trabalho. Por vezes, começa-se por uma pequena actividade e dessa ou dos contributos (in)formais gerados parte-se para outra., quiçá de maior dimensão, até se chegar àquela dimensão que todos os responsáveis gostam e que lhes dá a maior visibilidade possível. Além disso, e porque os nossos públicos evoluem e são também cada vez mais exigentes e sedentos de uma oferta variada é necessário fazer uma aposta continua na formação profissional e em momentos de partilha interna e externa. Se o fizermos, tudo o resto acontecerá e ganhamos todos: o(s) público(s) por conseguir suprir as suas necessidades, os técnicos porque sentem a validade do seu contributo e os responsáveis porque consegue visibilidade.

E se tudo isto para simples e óbvio, infelizmente, só o é para alguns. Tentemos nós fazer a nossa parte. 
@ João Menéres

domingo, 20 de novembro de 2016

Que obras selecionar para uma comunidade de leitores?

(Comunidade de Leitores da biblioteca da Penha de França)

Há cerca de ano e meio, tive a oportunidade de integrar a Comunidade de Leitores da Biblioteca da Penha de França. Além do prazer pessoal, tem sido a oportunidade de colocar em prática muito do que tenho observado e aprendido, no que diz respeito à dinamização de comunidades de leitores. Uma dessas aprendizagens tem a ver com a adequação das propostas de leituras ao espaço, que, neste caso, é uma biblioteca pública, com uma missão e objectivos definidos.

Sendo uma biblioteca pública, o que é que faz (ou não) sentido promover em termos de leituras?


+ Explorar o acervo da biblioteca. As bibliotecas disponibilizam milhares de títulos aos seus leitores e utilizadores, e é ai que devemos buscar as nossas sugestões de leitura. Isto implica uma pesquisa e uma opção por títulos com o nº de exemplares suficientes para o nº de participantes na comunidade. Isto é uma lógica de economia, não faz sentido termos livros disponíveis, nem apresentar-nos como uma opção gratuita de acesso à informação, e pedirmos aos leitores que adquiram outros. Deixemos isso para outros espaços.


É claro que também coloca alguns impedimentos:


- A dificuldade em promover novidades literárias ou modas muito recentes ou, uma vez que não existem exemplares em número suficiente para todos. Por exemplo, neste momento não é possível seleccionar os livros de Elena Ferrante, uma vez que os poucos exemplares disponíveis da rede municipal de bibliotecas de Lisboa possuem uma lista de espera de cerca de 30 leitores. Existem, no entanto, livros que foram populares num dado momento do tempo e que fazem todo o sentido conhecer, mesmo que acabemos por entrar na onda do “clássico”.


Então em que podemos apostar?


+ Autores nacionais. Se somos uma biblioteca pública nacional, devemos, senão fazer bandeira, pelo menos, promover o maior número possível de autores nacionais, que nem sempre são do conhecimento do leitor. O que é nosso é bom e devemos defende-lo. Além de que possibilita apostar noutro tipo de actividade paralela ou subsequente: o encontro com o escritor. E, numa era de igualdade de oportunidades entre género, porque não tentar encontrar um equilíbrio entre autores do sexo masculino e feminino?


+ Autores internacionais. Uma das possibilidades que a literatura nos oferece é a de ver e conhecer o mundo pelos olhos do outro, neste caso, que melhor olhar do que o estrangeiro? Mas, sendo esta possibilidade tão abrangente, optou-se pela divulgação de premiados com o Nobel da literatura. Poderia haver outro(s) critério(s)? Poderia. Contudo, foi um ponto de partida consensual para todos os participantes e que nos levou à leitura, em 2016, de Orhan Pamuk, Ernest Hemingway e Nadine Gordimer.


+ Sugestões dos participantes. Aqui entra, não só a sensibilidade, mas a capacidade de análise do dinamizador de: perceber, durante as sessões, que autores não foram lidos pela maioria e avançar com essas mesmas propostas; registar as sugestões informais dos participantes; e incitá-los a sugerir, porque as comunidades são feita para os leitores e estes sentem-se mais identificados quando as suas sugestões são consideradas.


Outras comunidades terão outras opções e orientações de leituras. Estas, que não são estanques e imutáveis, apenas são uma continuidade do entendimento que, enquanto técnicos, fazemos do papel da biblioteca enquanto agente de promoção da leitura, com um acervo a potenciar e a divulgar, sem descurar a curiosidade dos seus leitores.



 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Histórias Indianas, Cristina Drios

p. 43 “Está convencido da justiça da sua tarefa: há-de reinventar as vidas dos que ali se cruzam, dar uma boa índole aos fascinoras, proteger os indefesos, reescrevendo-os, reinventado-os a todos.”

Desafiada a ler o último romance da autora, Adoração, optei por entrar na sua escrita exactamente pelo seu primeiro trabalho editado, este Histórias Indianas.

Como o nome indica, este é um conjunto de histórias passadas naquele pais, que sempre fascinou os ocidentais, seja pela sua riquíssima mitologia ou diversidade religiosa, seja pelas polaridade sociais e aparente exotismo. São histórias, por vezes, dramáticas (O Expresso nocturno Deli-Bombaim), melancólicas (A Janela), de pendor histórico (A Fronteira e O sonho de Brahama), sobre o oficio da escrita (A Encruzilhada), em que a realidade é onírica (Obsessão Música) e também irónica (205).

Apesar da sua pequena dimensão, estão são histórias que se entranham, não só pela crueza de alguns temas, mas também pela maturidade e sobriedade da escrita. As palavras parecem ter a medida certa para nos orientar no processo de visualização das situações e de nos levar a partilhar alguns dos sentimentos dos personagens, fazendo com que estes permaneçam connosco para além da leitura destas parcas páginas. Por mim, sei que Subash, Sangeeta e o escrita ficarão por aqui durante algum tempo.

p. 48 “A sua escrita, afinal, nada muda, nada justifica, nada salva, não passa disso mesmo – letras, palavras, histórias inventadas. ”



Editora: Objectiva | Local: Carnaxide | Colecção: Cadernos do Campo Alegre | Edição/Ano: 1ª (500 ex.) 2012, Dezembro | Impressão: Papelmunde | Págs.: 76 | Capa: Imagem de Cristina Drios | ISBN: 978-989-95086-6-8 | DL: 351783/12 | Localização: BLX DR5072603 (80333968)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Mundo, Juan José millás

p. 154 “És escritor porque a puseste tu [a virgula], porque geraste recursos para contar a realidade modificando-a ao mesmo tempo que a contavas.”
Esta foi a minha primeira incursão na escrita deste autor espanhol e que me suscitou a curiosidade de voltar a ele mais tarde. E o que me suscita essa curiosidade? A aceitação de que a a escrita é um processo terapêutico e que, personagens à parte, e que tem assumidamente um cunho autobiográfico.
Esta narrativa apresenta dois grandes momentos: a infância e a juventude. Tem inicio na infância e apresenta-nos os episódios, ambiência e contexto familiar que moldaram o autor, para o resto do seu percurso de vida, até ao momento. E os episódios mais marcantes são a sensação física de frio e a utilização da imaginação como forma de escape para o quotidiano. Já na juventude, os momentos definidores são o primeiro amor, não correspondido, claro!, e o impacto da escrita na formação do eu e vice-versa o modo como a personalidade do autor em formação impacta a produção escrita.
Estes são temas que me interessam, porque, e muitos escritores o admitem, embora não o sejam necessariamente uma regre, a maior parte da escrita é na verdade um processo de digestão e processamento do que nos acontece, uma forma de compreender os nossos fantasmas e de combater os nossos dragões. Ainda que, para tal, necessitemos de por as palavras na boca de outrem. De personagens que não nos pareçam nós, mas que inevitavelmente nos reflectem. Daí, a minha a intenção de voltar a este autor mais tarde.
Não quero deixar de registar aqui outra nota, que é o quanto este O Mundo se assemelha ao universo narrativo de Os da minha rua, de Ondjaki, e o quanto simultaneamente essa rua é física e sensorialmente diferente. Ou seja, se em Millas temos um registo de frio, em Ondjaki há registo de calor. E essas duas características têm um impacto nas suas escritas.

Título Original: El Mundo | Tradução: Luísa Diogo & Carlos Tavares | Editora: Planeta | Local: Lisboa | Edição/Ano: 2ª, abril 2014 | Impressão: Guide AG, Lda. | Págs.: 231 | ISBN: 978-989-657-477-2 | DL: 374356/14 | Localização: BLX SL82-21 MIL (80352074)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Como preparar a dinamização de uma sessão de uma Comunidade de Leitores (o meu processo)

Cada dinamizador de comunidades de leitores poderá ter o seu processo, para o qual conta muito, entre outras: o conhecimento do seu público, a sua capacidade de falar em público sem um guião pré-definido e estanque, a sua bagagens de leituras e a sua capacidade de associar temas e ideias.
Mas cada sessão, como o(s) seu(s)  livro(s)  de destaque, é diferente e nunca é demais fazer uma preparação prévia (passe o eventual pleonasmo). Este é o meu plano de preparação:
- Ler o livro. Dá imenso jeito, acreditem! E, de preferência, (re)lê-lo próximo da data de sessão, pois, no meio dos afazeres quotidianos, outras responsabilidades e outras leituras é muito fácil esquecer diversos (muitos) pormenores sobre as obras. De há alguns anos para cá, como nunca sei se me vou deparar novamente com um livro, e para poupar algum tempo de (re)leitura, passei a fazer pequenas fichas de leitura, nas quais consigo recuperar alguma informação sobre o que me chamou a atenção na obra. Tem sido útil.
- Pesquisar alguns dados biográficos sobre o autor. Não é imperativo saber toda a vida do autor. Idealmente, a leitura da obra deve bastar-se. No entanto, como dinamizadores, não podemos negligenciar o impacto e influência das (des)venturas pessoais dos autores na génese e desenvolvimento do seu trabalho. Regra geral, há sempre algum episódio interessante para reflectir ou, no mínimo, perceber qual a postura pública do autor sobre a sua própria obra.
- Pesquisar algumas opiniões sobre o autor e/ou a obra em questão. Por muito ampla que seja a nossa bagagem de leituras, ficamos muito facilmente presos na nossa visão (e preconceitos) sobre o autor e a obra. Assim, ao perceber outras opiniões podemos também prever algumas das participações e antecipar algumas situações e temas.
- Curiosidades. Sempre que possível, gosto de partilhar pequenas curiosidades com que me deparo ao realizar as pesquisas anteriores. Como, por exemplo, partilhar outras sugestões de leituras, que a presente me trouxe à memória. Ou então sugestões de leitura dos próprios autores. A verdade é que estas curiosidades variam muito. Já cheguei a partilhar pequenas impressões de quadros mencionados nas obras.

De um modo simples, este é o meu processo de preparação de uma sessão de uma Comunidade de Leitores. Não é, com certeza, infalível e deixa espaço para muito mais. Mas também não tenho como  objectivo esmiuçar a obra e o autor de modo a dizer tudo o que há dizer sobre o mesmo. O meu objectivo é contribuir para uma reflexão e dar “o pontapé de partida” para uma partilha de opiniões. E este meu plano é um contributo decisivo nesse sentido. 

Preparação da sessão sobre O Sol nasce sempre (Fiesta), de Ernest Hemingway.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

#104.16 @ 103/1003


Um dos meus objectivos de leitura é o de ler três vencedores com o Prémio Nobel por ano. Em 2016, a escolha recaiu, por vezes aleatoriamente, em:
- Orhan Pamuk, com O Romancista Ingénuo e Sentimental e de quem já conhecia A Cidadela Branca;
- J.M. Coetzee, com Elizabeth Costello, e que foi uma estreia na obra deste autor;
- Ernest Hemingway, com O Sol NAsce Sempre (Fiesta), de quem, finalmente, acabei uma leitura.
E, em prinicpio, até ao final do ano, ainda me dedicarei à leitura de A História de Meu Filho, de Nadine Gordimer, que será, igualmente, uma estreia na obra.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O sol nasce sempre (fiesta), Ernest Hemingway

Já manifestei anteriormente o meu preconceito sobre a obra de Hemingway, que me levou sempre a passar-lhe ao lado. Este preconceito assenta sobre alguns dos seus temas (tourada, corridas de touros, caça e pesca, boxe, guerra) e o seu universo, aparentemente, única e exclusivamente masculino. No entanto, sempre me intrigou o interesse suscitado pela sua obra e o facto de a sua escrita ser uma sugestão incontornável a quem se quer, exactamente, dedicar à escrita. Foi neste estado de espírito que me dediquei à leitura deste seu primeiro romance.
Em termos de estrutura, a obra está dividida em três livros, a que chamei: Paris, Pamplona e Regresso. Quanto ao enredo... bem, tenho dificuldade em dizer que o mesmo tem um enredo, quando a sua acção parece resumir-se à descrição do quotidiano de um grupo de amigos durante determinado período de tempo, que antecede a ida para as festas da cidade espanhola, as peripécias da chegada, a estada e, depois, o consecutivo desmembrar do grupo.
E quem é este grupo? Jacob/Jake Barnes, jornalista e narrador, veterano da primeira grande guerra e ferido em combate; Lady Brett Ashley, actualmente noiva de Mike campbell em processo de divórcio de Lord Ashley, que nunca surge na trama, cujo casamento parece ter sido traumático, pautado por violência doméstica; Mike Campbell, em ressaca de um processo de falência, procura aproveitar a vida o melhor possível, sem nunca esconder a sua condição económica, vivendo de pequenos expedientes e da bondade de amigos e conhecidos; Robert Cohn, escritor a debater-se com a falta de progresso do seu segundo livro; e Bill, também escritor. Quem liga estas personagens é exatamente Brett, que, estando noiva de Mike, tem um caso esporádico com Cohn, e uma amizade com Jake, que nunca passa a um plano físico devido a um ferimento do mesmo na guerra que o terá tornado impotente. Em Espanha, envolver-se-á com um toureiro, o que desestabilizará o equilibro precário deste pequeno grupo, que se separa, restando apenas a amizade entre Brett e Jake.
O que gostei, o que não gostei e o que consegui perceber sobre o fascínio que Hemingway provoca:
+) a não crítica do comportamento sexual livre e aberto de Brett. Este é do conhecimento de todos e ninguém a renega por isso. Só Cohn, que não respeita essa liberdade, e a quer só para si, é que, com os seus ciúmes, consegue provocar o desequilíbrio;
-) a descrição da denominada “geração perdida”, expressão cunhada por Gertrud Stein que assim descrevia a geração de artistas que entre a primeira guerra e a depressão pululavam na Europa, sobretudo em Paris;
+) creio que compreendo o fascínio pela sua escrita límpida, em que as acções procuram ser mais fortes pelas palavras e em que o exotismo de certas situações seriem autênticos deleites para as gerações da época.
Finda a sua leitura, que não me cativou (estava constantemente a lembrar-me de O Fio da Navalha e do quão uma época pode ser descrita de modos tão diferentes) mas que, no entanto, me deu esbateu o preconceito sobre os níveis de testosterona da sua escrita e me deixou curiosa para uma incursão futura, ainda por definir.
Título Original: The sun Also Rises | Tradução: Jorge de Sena (+ Prefácio) | Editora: Livros do Brasil | Local: Carnaxide | Colecção: Clássicos da Literatua | Edição/Ano: 2007, setembro | Págs.: 264 | Capa: Daniel Barradas | ISBN: 978-972-2851-1 | DL: 261647/07 | Localização: BLX

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A necessitar de uma nova banda sonora

Há momentos da minha vida que têm uma banda sonora especifica: a canção de uma novela ou de uma série televisiva, um álbum ouvido vezes sem conta ou até à exaustão, a batida e os versos de uma noite de dança… mas essas músicas, e esses momentos, ainda que meus, parecem também pertencer a uma outra vida… a um passado distante, ao qual devemos o nosso presente, mas no qual não o revemos. O presente necessita de uma outra canção, que se coadune com a melodia que meu coração entoa…

Há muito que não uma nova música na minha vida. Não por falta de motivos, talvez apenas o meu coração, embora o anseie, ainda tema em entregar-se a um novo tom. 


sábado, 8 de outubro de 2016

Longe de Manaus, Francisco José Viegas

"Só quem sabe brincar com Deus pode ter uma grande fé." (p. 324)
Esta foi a minha 4ª incursão no universo do detective Jaime Ramos, após as leituras de Um Crime na Exposição, A Poeira que Cai e Um Crime Capital. Este é um caso atípico na galeria de personagens nacionais, pois já protagonizou 8 aventuras e tem honras de marketing com direito a página própria na internet (http://jaimeramos.booktailors.com/).
Este é um policial também atípico. Porquê? Se tem todos os elementos usuais de uma narrativa do género? SPOILER ALERT: Porque o(s) crime(s) não são todos perentoriamente resolvidos. Há uma forte suspeita, impossível de comprovar. Ainda assim, há uma história, várias histórias (à partida anónimas) que nunca se conheceria, não fosse a insistência do nosso detective de serviço. Histórias de amores e desamores, como convém, de ódios de longa data, de poder do qual não se abdica e de várias vidas marginais, das quais apenas se conhece assento de nascimento e de morte.

Editora: Círculo de Leitores | Local: Lisboa | Edição/Ano: Dez 2006 | Impressão: Grafiasa, SA | Págs.: 344 | Capa: João Rocha | ISBN: 978-972-42-3883-8 | DL: 247558/06 | Localização: BLX PF 82P-312.4/VIE (80157512)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nunca, nada, sempre, tudo
Palavras impossíveis
A mudança revolve
Transforma
O fóssil é perene

Na perspectiva além do homem


sábado, 1 de outubro de 2016

Curvas ou intersecções (no caminho)

A propósito da leitura de A Curva da Estrada, de Ferreira de Castro, Cristina C., uma profunda conhecedora da sua obra, observou que para este autor a metáfora de acontecimentos que alteram o nosso percurso previsto é sempre uma curva e não um cruzamento ou uma intersecção.
Esta observação levou-me a reflectir. Quando perante obstáculos, alteramos realmente o nosso caminho, seguindo outra direcção, ou ultrapassamos, ou contornamos, o que se coloca à nossa frente?

Quantos de nós muda realmente de direcção? Deveríamos sequer? Sim, há sempre sins. Mas, deste modo, não estamos a afastar-nos daquilo que primordialmente definimos para as nossas vidas? Ou será esse afastamento uma outra forma de chegarmos aos nossos objectivos? Por vezes, uma estrada pejada de curvas e contracurvas abruptas obriga-nos a abrandar, a redobrar a nossa capacidade de observar o que nos rodeia, a ter atenção ao que nos rodeia. O nosso crescimento e maturidade advém não dos acontecimentos per si, mas de como lidamos com eles, do que aprendemos com eles. Para isso é necessário muitas das vezes abrandar, observar e avançar com cuidado. São as curvas que nos impedem de cair no precipício e nos fazem apreciar a estabilidade do caminho a posteriori. Sem elas, seriamos capazes de apreciar qualquer beleza na velocidade de um caminho a direito?

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Pessoas espelho

Convivemos diariamente com pessoas nas quais revemos inconscientemente aquilo que nos desagrada. Seja porque invejamos determinada característica, seja porque espelham aquelas que aspiramos a não ter.
Estou a aprender a não me revoltar com essas pessoas, porque há quem tenha boa índole e aja inconsciente de algumas características próprias. Embora, também, já tenha convivido com pessoas cuja índole deixa um pouco a desejar.

Cada vez mais, quando alguém me incomoda, tento afastar-me um pouco e perceber o que é que na pessoa, ou até na situação, em concreto me incomoda. E, infelizmente, na maioria das vez, o incómodo está em mim. Porque ou invejo ou tento negar alguma das minhas características. 
Não é um processo fácil, o de tomarmos consciência do que consideramos defeitos ou imprecisões. Mas é um processo necessário, se, em último caso, desejarmos melhorar, seja por nós, sobretudo por nós, seja por quem nos rodeia. Porque todos merecemos ser a nossa melhor versão possível.  

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Pequenas vitórias

Sou da opinião de que definimos a nossa vida, não nas grandes decisões, mas nas nas pequenas opções do quotidiano. Como, quando escolhemos beber antes de conduzir, quando passamos ao lado de eventuais abusos, quando não defendemos os nossos interesses porque julgamos que nada vai acontecer, quando esquecemos que somos o exemplo, quando não damos o primeiro passo porque achamos que não vale a pena. Depois, como poderemos esperar grandes vitórias ou aspirar a grandes actos?

Só dando o primeiro passo podemos chegar ao topo ou ao fim da grande viagem. Por vezes, dou por mim assoberbada e até arrepiada quando atinjo alguma das pequenas vitórias a que me proponho. Sinto um frio na barriga e até o receio de continuar a cumpri-las, porque atrás delas virão as grandes, que estão, quiçá, a menos passos do que julgamos.  

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A literatura é luto e é luta

Os últimos 4 livros que li continham um funeral e um processo de luto, nem sempre pelo defunto a enterrar no momento. O que me leva a crer que a literatura não é morte, mas começa sempre com esta, sendo esta então um processo de luto e de luta. Contra o quê? Os nossos medos e os nossos fantasmas.

Recriamos na literatura as conversas possíveis com quem nos morrer. Procuramos compreender o nosso passado. Se, ao fazê-lo, o aceitarmos, conseguirmos deixa-lo lá, onde somente deve estar. Se não o aceitarmos, então resta-nos (re)escrever-nos, matando-nos e deixando nessas páginas os restos que (re)negamos, tantas vezes quantas as necessárias, até que… Até que consigamos construir em palavras o nosso futuro: utópico, se tivermos a capacidade de aprender, ou distópica, se formos incapazes de ver para além de nós.  

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

o apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe

“… era um choro pequeno, de tristeza muito habituada, uma tristeza a vir quotidianamente para sempre, para completar o tempo que ainda teria de viver.” (p. 84)

Maria da Graça, 40 anos, mulher-a-dias. (Mulher tem dias. Há raros dias em que é mulher.) Tem uma vida sem outra perspectiva que a dos dias que se arrastam. O marido é embarcadiço e a sua ausência uma bênção, a sua presença um estorvo. O sr. Ferreira é o amor possível, quando o abuso é a única manifestação de desejo? Necessidade? Afecto? Sonha com a morte, mas s. pedro barra-lhe ininterruptamente as portas do céu. Nem esse alento…
Quitéria é a usa melhor amiga, única amiga, companheira de amarguras, ainda com uma esperança tola de amor. Mesmo que este seja Andriy, um homem-menino, que se quer máquina, mas é vencido pela necessidade, pela fraqueza do afecto, numa relação sem língua em comum.
São estas as protagonistas deste apocalipse. Mulheres que vão sobrevivendo aos dias, sabendo que não há muito sentido a dar-lhes, a não ser umas migalhas de amor: “esta é a inteligência mais secreta de todas, o amor.” (p. 179)

Editora: Quidnovi | Local: Matosinhos | Edição: 3ª | Ano: 20019, Fev | Impressão: Tipografia Peres | Págs.: 182 | ISBN: 978-989-065-9 | DL: 276.902/08 | Localização: BLX PF 82P-31/MAE (80236754)